Mondo Cane

por Leandro Gabriel
@trecker


Vocês já ouviram esse negócio aqui?

Pergunto logo porque o projeto é antigo e foi adiado em um monte, ano após ano. Eu aqui nem ouvi falar até dia desse, quando Bruno Galera panfletou no tuíter.

Depois de conhecer Fantomas deixei de lado os desandos e experimentos de Patton, voltando a falar dele só depois de saber da volta do Faith no More. Noticia que me chegou ao som de Reunited e me provocou taquicardia moderada, parcialmente resolvida somente após presenciar a verdade no Maquinaria. Parcialmente porque cadê disco? Não que precise, a discografia do FNM é grande o bastante pra que tenham se tornado ainda maiores depois do que eram durante. Não sabia responder o motivo de querer novo disco até essa quinta-feira, quando ouvi pela primeira vez o Mondo Cane.

Baixei o disco e nos primeiros segundos de Patton cantando em italiano me veio a resposta: queria disco novo pra me surpreender mais com Mike Patton. E com ele, surpresa é bem uma constante, haja visto o já mencionado Fantomas, que vai do impressionante ao Simply Beautiful, ao mefaltaumadjetivo. A ultima coisa nova que tinha me espantado foi Peeping Tom, que, comparada ao resto de sua obra, impressiona por ser quase normal. Quase. Mas o fato é que Patton surpreende desde Mr. Bungle, que deve ter transitado por todos os gêneros musicais conhecidos e exatamente por isso não aponto música nenhuma. De tão diverso, não dá pra dizer que alguma música é marcante. Se é pra escolher um disco do Mr. Bungle, fico com o California e pra não dizer que não falei de música, me rendo com Pink Cigarette.

Michael Allan Patton é merecidamente reconhecido pela critica como um dos cantores de rock mais versáteis e talentosos. Crooning, beat-boxing, gutural, falsete, faz de tudo. Fato curioso em que esbarrei enquanto escrevia isso aqui é que foi ele quem fez as vozes dos monstrengos em I am Legend.

Cheguei até a baixar seus discos solo Adult Themes for Voice, que não tem música, apenas suas experimentações vocais gravadas em hotéis durante turnês do FNM; e Pranzo Oltranzista, que em conversa com um amigo não consegui classificar e apresentei “é ambient… ou quase… e o sax alto diverte”. Aproveitei a imersão e fui atrás de mais coisa. Achei Lovage – Music to make love to your old lady by. Trata-se de trip hop, sim, mas trip hop com Patton. E Dan the Automator. Baixei, gostei e joguei nos poucos 16GB que tenho pra levar música daqui pra lá. Depois achei também Crudo, projeto com o mesmo Dan the Automator ainda pendente de disco. Não conhecia também Tomahawk, que em primeira impressão pareceu excelente. Baixei o disco homônimo e Mit Gas, pra digerir ao longo da semana.

Tudo isso pra explicar: queria mais surpresas de Mike Patton. A essa altura do texto multimidiático até quem não conhece pode dizer que é isso que ele faz. Imprevisível. E com Mondo Cane não poderia ser diferente. O que temos é um disco que, segundo as palavras do próprio, resgata e ilustra a influência e importância da música pop italiana dos anos 50 e 60. E isso é feito tendo Patton como ingrediente, tempero. A música ali da primeira linha do texto é de ninguém menos que Ennio Morricone e é ela que uso pra abrir o texto por ser a única do disco cuja versão original eu já conhecia. Arrisco dizer que deviam até refilmar Danger Diabolik, só pela versão de Patton para a música tema.

Em entrevista, quando questionado como escolheu as músicas para o projeto, Patton conta que tinha uma lista imensa de excelentes canções e que precisava se limitar àquelas que ele podia cantar, que qualquer um é capaz de escolher boas musicas, mas que o segredo é escolher aquelas que se é capaz de interpretar da sua própria maneira. Completou dizendo que não são em todas as suas canções favoritas que ele gostaria de encostar. “Se já são perfeitas, pra quê estragá-las?”

É com esse argumento que escolho apresentar Mondo Cane. Patton se propõe a responsabilidade de apresentar um gênero e repertório rico, importante, porém que não faz parte do meu consumo musical diário, e faz isso com a promessa de só executar aquilo que vai executar bem e de um jeito novo. Se, como eu, confiarem nele para isso, serão bem recompensados. Mondo Cane, como diz o review da Culture Bully, é bastante acessível e basta coração e ouvidos pra apreciar.

#essencialbuns V: Pearl Jam, Ten

Ten, Pearl Jam

por Leandro Gabriel
@trecker

Quando me pediram pra escolher um álbum (um só, que é como me pedir pra escolher um órgão pra me sobrar no corpo) adorei a idéia. Cerca de quinze segundos depois minha vontade era dar com a cabeça de quem pediu na quina de alguma parede. Ou reproduzir a cena de ‘American History X’. Sim, aquela cena. Suponho que boa parte dos que atenderem ao pedido farão uma introdução parecida, mas acho importante fazer também, de modo que entendam de uma vez por todas que um pedido desses não se faz nem pro pior inimigo.

Dito isso, escolhi o álbum que mais ouvi. Não por ser o disco que mais amo, porque se fosse esse o critério ia gastar mais uns meses escolhendo e não sairia com texto nenhum. Era necessária uma lista que tivesse algum álbum no topo e odeio ordem alfabética, que não passa da eterna celebração da criança que aprende o alfabeto e repete pra mostrar a descoberta.

Ten. Posso assobiar todas as suas faixas. De trás pra frente. Debaixo d’água. E ainda assim não tenho muito o que dizer sobre ele. Na Wikipedia tem um monte de infos, ó só.

Pensei em fazer como o Renmero e contar uma história que de alguma forma envolvesse o disco. Não seria difícil. Amei ouvindo Ten, briguei, apanhei também, comprei meu primeiro ténis ouvindo Ten, com grana ganha trabalhando enquanto ouvia Ten. Cometi meu primeiro crime com Ten nos fones de ouvido. Destruí meu primeiro violão segundos depois de conseguir tocar Alive inteira pela primeira vez, sem o solo. Cantei Black no ouvido dela, no dela e no dela.

Quando éramos guris, o Dênis tinha um violão e não sabia tocar, mas aprendeu o baixo de Even Flow. Conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo (eu ainda não consigo) e era tão idiota e cheio de clichês quanto eu. Depois de uma festa, voltando pra casa não lembro de quem, sentamos ao lado de Sêo Pedro e tocamos Even Flow, em dueto violão, violaixo e voz. Nem morador de rua ele era, mas pelo menos não entendia inglês. Sorriu feliz e voltou pra dentro da casa que estava reformando. Sêu Pedro deve estar até hoje com cara de WTF, mas sem clichê babaca não se faz um adolescente, então I’ve been there, done that.

Enfim, não vou escrever um texto em que a relação com o disco é TRICKY, mas também não vou contar uma história pra cada faixa. Nem lembro de todas as histórias pra poder contar, mas acredite: quando se ouve um único disco quase o tempo todo, se tem história pra cacete.

O ponto é que o disco não termina. Até hoje ouço inteiro esperando que o disco termine. Até prometo que I’ll hold the pain, release me, mas it doesn’t and it goes right back to Once upon a time. Estou preso no repeat desde moleque.

O leitor que é mais babaca vai notar que não mencionei todas as faixas do disco, mas adianto que não sei falar de música. “Writing about music is like dancing about architecture – it’s a really stupid thing to want to do.” — Elvis Costello (thank you NIGGA* for giving me the perfect quote).

Se toda a história da indústria fonográfica estivesse a ponto de ser destruída e coubesse a mim escolher um disco pra salvar, seria o Ten. Não é me gabar, a ideia não é na esperança do mundo viver como eu vivi, é que a única vida que conheço é a minha e se ela foi boa o bastante em seus altos e baixos até o momento, foi em parte por conta desse disco. Ou no mínimo sob sua supervisão numa grande porção do tempo.

Já disse que sou cheio de clichês, então cabe um aviso: Erros de digitação, gramática ou qualquer outra coisa que passaram batidos foi porque parei a revisão quando terminou Master/Slave. Nada mais clichê que usar só o tempo do disco pra escrever sobre ele e revisar.

o desafiado

Trecker é do tipo que até tem cara de mau, mas não engana: constrói e destrói amores em poucas palavras, sofre de DOENÇA EDITORIAL no twitter, é apaixonado por comunicação & tecnologia e sempre tem referências bacanas sobre toda sorte de assuntos. Enquanto vocês lêem esse post e trabalham, ele se prepara para desbravar EL RELAMPAGO DEL CATATUMBO.

ten para ouvir

tracklist

1. “Once”
2. “Even Flow”
3. “Alive”
4. “Why Go”
5. “Black”
6. “Jeremy”
7. “Oceans”
8. “Porch”
9. “Garden”
10. “Deep”
11. “Release[I]”

//mais informações sobre o álbum (en)
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