O músico baiano Lucas Santtana conversou com o Vitroleiros instantes antes do seu show em comemoração aos dez anos de carreira
No local de trabalho da mãe de Lucas Santtana, músico baiano cujos álbuns já foram destacados pelo The New York Times, um homem passava vendendo discos de vinil. Ela comprava LPs variados e levava para seus filhos ouvirem: jazz, rock, pop, clássica. Isso sem contar a MPB e o Roberto Carlos que ela já ouvia em casa. “Lembro de passar tardes no quarto, deitado no chão e ouvindo esses vinis. E tendo milhões de viagens, pensando: ‘Pô, é isso que eu quero fazer’”, conta. Hoje, dez anos depois de lançar seu primeiro disco, Santtana comemora a década lançando uma coletânea das melhores faixas de seus quatro álbuns em vinil. Coincidência? “Eu nem tinha me tocado”, afirma.
O LP é resultado de um encontro com Luiz Valente, da mineira Vinyl Land Records. A ideia inicial era prensar o último trabalho, Sem Nostalgia. Mas a proposta de produzir um disco único com uma compilação veio a calhar com o momento de dez anos de carreira, cujo show de comemoração ocorreu na quinta-feira passada, 18 de novembro.
Antes da apresentação, Lucas Santtana conversou com o Vitroleiros. Dono de um olhar calmo e centrado, o músico falava pausadamente ao lado do palco em que logo iria pisar. Minutos depois, ainda com a banda carioca Do Amor, ele sobe para dividir uma faixa – transição entre o show de abertura e o dele, que conta com parte da mesma banda. Lucas Santtana, no palco, é outro: hiperativo, dançante, anda de um lado para o outro e afasta-se do microfone enquanto apresenta músicas como “Amor em Jacumã” e “Cira Regina e Nana”.
Dos olhos que vão longe ao músico que toca com a alma, a história de um compositor que não para quieto. Na telona ele fez, entre outras coisas, a trilha de Morte e Vida Severina e a música-tema de Lutas, longas de animação que estrearão no próximo ano. Nos palcos, já passou pelo SWU, todos os estados brasileiros, a Europa, o Chile, a Argentina e irá encerrar, agora em dezembro, uma feira de artes plásticas em Miami.
Para 2011, Lucas Santtana tem novidades. Além de seu quinto álbum, irá lançar um disco em homenagem ao Tom Zé. Seu último, o excelente Sem Nostalgia, foi feito de forma experimental com voz e violão, mas agora ele adianta um projeto com mais canções e acompanho pela banda. Ele contou dos planos ao Vitroleiros, além de falar da aproximação com o público via seu selo e blog Diginóis e da forma com que fica ligado aos sons enquanto está produzindo e buscando texturas (“Uma coisa de laboratório de ficar vendo o que a música aceita e pede e não tentar impôr a ela o que você quer”). Santtana, que foi convidado recentemente para palestrar em locais como o TEDxAmazônia, afirma que a sigla “MPB” – a única que conseguimos classificá-lo aqui – já não basta mais, e dá sua sugestão: “é uma música do mundo, música urbana que é de qualquer lugar”.
Vitroleiros O que lembra da música na sua infância?
Lucas Santtana Nasci em Salvador, fiquei a infância inteira lá. Não tenho muita memória de criação, não, sabe? Sei que minha mãe ouvia muita MPB e Roberto Carlos, mas não tenho muitas lembranças. Quando eu tinha uns dez ou onze anos eu vi um show com um cara tocando flauta transversal. Daí eu falei pros meus pais: “pô eu quero tocar aquele instrumento”. Eles me deram a flauta doce, e realmente me animei, [mais tarde, por volta dos 12 anos] eles viram que era sério e compraram a transversal. E fui numa escola que chamava AMA – Academia de Música Atual. Eram uns músicos de jazz de Salvador que se formaram nos Estados Unidos e, quando voltaram, tentaram introduzir na universidade um curso de teoria através da música popular ao invés de usar a música clássica. Só que eles não conseguiram e abriram esta escola. Então, meu primeiro contato teórico com música foi através de música popular.
Como foi a história do selo e site Diginóis?
A partir do meu segundo disco eu percebi que muita gente tava fazendo selo e pensei em fazer um para, pelo menos, ser dono dos meus discos, não ter que pedir permissão futuramente quando fosse fazer alguma coisa. E a partir do segundo disco eu criei o selo Diginóis. Depois tive a ideia de fazer um blog inspirado em blogs de jornalistas que eu conheço e admiro. E, em vez de dar o nome Lucas Santtana, achei melhor usar o nome do próprio selo e transformá-lo num “net label”, já com a ideia de botar o disco para baixar, as pessoas poderem remixá-lo e deixarem seus remixes no site, ser uma coisa mais interativa. Foi muito importante, divulgou mais o meu trabalho a ponto de em muitos lugares as pessoas acharem que eu tenho só dois discos, porque são os que estão disponíveis no site.
Como é sua ligação com o processo de criação?
É bem variado. A gente tá começando a fazer o disco novo, eu fico com aquilo o dia inteiro na cabeça, sabe? Começo a ouvir coisas e tudo que eu ouço começo a relacionar e às vezes dez segundos de uma passagem de uma música que acontece alguma coisa eu falo: “pô, isso é uma ideia boa!”. É uma coisa que eu ouço na rua, ou eu percebo que tem uma movimentação de determinado estilo que eu tô vendo que tá mais forte. Enfim, é como se fosse um monte de informação que tá no ar que uma hora você abre a sua mente para estar muito ligado em tudo. E cada disco tem uma história. Mutas vezes você tem muitas ideias, mas no processo de feitura aquilo vai mudando. Quando você termina nunca é o que você pensou antes. Ele vai tomando forma. Até porque tem os músicos que participam, os produtores. As pessoas trazem suas ideias. Tudo vai se modificando. E tem esse lado experimental. Principalmente esse meu trabalho de muita textura, tem muito aquela coisa: gravou tudo, coloca no computador e daí fica madrugadas com fone no ouvindo experimentando. Uma coisa de laboratório de ficar vendo o que a música aceita e pede e não tentar impôr a ela o que você quer.
Como será feito este novo disco [previsto para o segundo semestre de 2011]?
A gente vai gravar com a banda [Seleção Natural] – fazer metade com a banda do Rio [David Cole (sinthy, dubs e efeitos), Ricardo Dias Gomes (baixo), Marcelo Callado (bateria), Gustavo Benjão (guitarra) e Lucas Vasconcelos (teclados)] e metade com a banda de São Paulo [Regis Damasceno (guitarra), Rian Batista (baixo), Dustan Gallas (teclados), Bruno Buarque (bateria)]. E vou gravar primeiro com a banda porque esse disco é muito canção, sabe? E depois que eu tiver isso no computador vou adicionar vários samples de várias coisas que tô pensando e nem sei se vão funcionar. Vou adicionar essas camadas de som e esse vai ser o ponto de experimentação. Só fazendo mesmo.
Qual é a história deste disco em homenagem ao Tom Zé?
Nesse ano, o Sesc Pompeia convidou a gente pra fazer um show só tocando músicas do Tom Zé, um dia só. A gente fez e todo mundo adorou. A banda ficou empolgada. E a gente tava com os arranjos ali. E pensamos: “Pô, o Tom Zé vai fazer 75 anos ano que vem, vamos aproveitar que estes arranjos estão prontos, gravar isto e chamar pra cada faixa alguém pra cantar, as pessoas da nossa geração e fazer um disco de toda essa geração que curte ele pra caramba”. Uma homenagem mesmo. E vamos fazer isso, gravar as bases que já estão prontas, chamar músicos e cantores.
Como você vê essa cena atual que pretende chamar?
Pô, eu acho que é uma cena muito rica. Todo mundo tem um trabalho autoral muito forte, muito pessoal, tem feito discos lindos, assim. Acho que musicalmente é um nível muito alto que não deixa nada a dever a tudo que veio antes, é tudo muito bem feito. E acho também que é tudo muito internacional, não tem mais uma coisa… Essa sigla “MPB” não comporta mais a nossa geração por isso, realmente o que a gente faz não é só música brasileira, é uma música do mundo, música urbana que é de qualquer lugar. Pode ter umas características daqui – com certeza, porque a gente é brasileiro tem essa da cultura impregnada –, mas acho que é uma coisa bem internacional mesmo, sabe?
Próximos shows do Lucas Santtana:
5 de dezembro no festival Varadouro (Rio Branco, Acre)
10 de dezembro na Feira Música Brasil (Belo Horizonte, MG)
17 de dezembro no festival Baianada (Salvador, BA)




