por Érika Kokay e Jessica Grant
Com vestido e bem à vontade, Tulipa Ruiz abre a porta de seu apartamento num pequeno prédio de três andares no centro de São Paulo. Ela começa a mostrar os cômodos: cozinha, sala, quartos, estúdio improvisado e banheiro onde grava algumas vozes. Os outros moradores não se incomodam com o som caseiro? “Sim, só podemos fazer música até às 22h30…”, conta. Tulipa é uma das raras artistas que abre a casa sem medo. Sua informalidade surpreende e avisa: ali mora uma artista tranquila.
Sentada na beira da sacada, fumando um cigarro, Tulipa conversou com o Vitroleiros sobre música infantil, panelinha e seu show carioca. Ela, que navega no cenário há alguns anos, mas só publicou seu álbum no começo deste, ganhou o público e a crítica com sua simpatia e originalidade. Filha de Luiz Chagas, jornalista e músico do Isca de Polícia, banda do Itamar Assumpção, Tulipa cresceu com a mãe e o irmão, em Minas Gerais, rodeada pelos discos do pai. Mas seguir a carreira familiar – o irmão Gustavo Ruiz também é músico – nunca foi óbvio para a cantora, que antes de se aventurar nas notas musicais trabalhou como jornalista e também como ilustradora, ofício que exerce até hoje. O trabalho dela pode ser visto no seu ateliê virtual, na capa de seu disco e de álbuns de bandas como Felixfônica e Esquema P.
A voz fina de sereia se complementa nas faixas do seu CD de estreia, Efêmera, com várias feras. O pai guitarrista toca e divide a composição de duas músicas. O irmão (que, vale dizer, também é guitarrista) cuidou da produção. O disco também conta com as Negresko Sis (Céu, Thalma de Freitas e Anelis Assumpção), Mariana Aydar, Tiê, Tatá Aeroplano, Donatinho, entre outros.
Com um álbum de apenas alguns meses de vida, Tulipa não pensa em um próximo lançamento por enquanto. “Quero fazer muitos shows do disco ainda”, diz. E eles não param mesmo: na próxima quinta-feira (29), a cantora se apresenta no Studio SP, em São Paulo à 1h da manhã. Dia 29 é a vez do SESC Bauru e 08 de outubro, do SESC Araraquara.
Abaixo, confira a variedade de Tulipa Ruiz no bate-papo com o Vitroleiros.
Você já escolheu em algumas playlists da vida a música “Bolacha de Água e Sal”, do grupo Palavra Cantada. Qual a sua relação com música para crianças?
Eu sempre gostei muito do grupo Rumo, que é da Ná Ozzetti e do Luiz Tatit. Era um grupo que estudava a melodia da fala. Daí surgiu o Palavra Cantada, do Paulo Tatit [e Sandra Peres], que também trabalha com isto. Eu lembro que eu fiquei louca quando eu ouvi o disco do Rumo pela primeira vez. Eu tinha uns 13 ou 14 anos e achei aquilo a coisa mais genial do mundo. E, na verdade, eu sempre tive vontade de fazer música para crianças, e acabou sendo tema do meu TCC [Tulipa se formou em Comunicação em Multimeios na PUC-SP]. O nome do projeto era “A Lenda do Rio Verde e Outras Brincadeiras”. Rio Verde é o nome do rio que passa em São Lourenço (MG), onde fui criada. E o TCC foi 12 músicas para crianças, incluindo essa lenda do rio. E fiquei muito tempo estudando o que é, como fazer, como seria um projeto gráfico de música para crianças. Tudo isso sempre me interessou muito. Além disso, antes de eu largar a Comunicação, eu trabalhei num projeto que criou o museu de cantigas de ninar do Auditório do Ibirapuera, chamado Acervo Acalantos. Tem um acervo lindo com cantigas de ninar do mundo inteiro. Então sempre foi uma coisa que me despertou muito interesse. “Bolacha de Água e Sal” é uma música que eu sempre escolho quando estou discotecando em algum lugar. E já virou até uma brincadeira entre amigos. O Dudu Tsuda, por exemplo, quando tá discotecando e eu chego no lugar, ele põe essa música [risos].
Você participa do Novos Paulistas [junto a Tiê, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda e Thiago Pethit]. Tem também uma música sua no projeto Geração SP, que reúne novos nomes da cena musical paulistana. Como você vê esse novo grupo na música de São Paulo? Acha que a é algo natural?
No meio do ano passado, um antropólogo americano estava fazendo uma pesquisa sobre a música brasileira e me ligou perguntando se ele podia me entrevistar. Achei engraçado porque eu não tinha nem disco. Perguntei: “Como você chegou até mim?”. E ele disse que chegou ao Brasil, pegou o Guia da Folha e chamou todas as pessoas que estavam no Guia. Então, eu não vejo a gente como um movimento, nem nada. É um momento dentro da história e da linha do tempo na música em São Paulo. Realmente, se você abrir um guia cultural dessa semana, vai estar toda essa galera que tá fazendo música aqui em São Paulo: Tiê, Tatá Aeroplano, Juliana Kehl, Luísa Maita, Karina Buhr… São pessoas que estão fazendo shows em São Paulo hoje, assim como tinha a galera dos anos 90. O que eu acho que tem hoje de diferente é que essas pessoas vivem em um universo colaborativo muito grande. Por mais que nossas músicas sejam diferentes, nós já fizemos shows juntos, somos todos amigos. Nossos músicos tocam nas bandas uns dos outros, e acaba tendo uma troca de figurinha muito grande.
A impressão de quem vê de fora é de que existem “panelinhas” na música. Você vê assim?
Eu não vejo, não. Apesar de eu vir de uma panelinha, já que fiz faculdade com o Dudu Tsuda e conheci o Tatá Aeroplano na mesma época. Daí eu apresentei o Dudu pro Tatá, e o Dudu me apresentou pra Tié, e por aí vai. Então tem essa coisa de círculo de amigos, mas que se encontram no cinema antes de pensar em fazer música. E tem encontros também que foram musicais. A Andreia Dias, por exemplo, é amiga porque meu irmão era da banda Dona Zica com ela. E eu percebo que o que tá rolando aqui tem uma conexão com o Rio de Janeiro também. E com Recife, Belo Horizonte… Então é um momento de movimento na música. Não existe uma preocupação estética de um coletivo, mas tem esse caráter colaborativo, que também não é uma coisa pensada, é completamente natural. Pode ser uma “panela”, mas é uma “panela” sem tampa, sabe? Que pode entrar mais gente a hora que quiser.
Quando você abriu o show do Otto, no Circo Voador (Rio de Janeiro – RJ), O Globo fez uma resenha sobre o show, mas falou basicamente de você. Sobre o Otto, tinha um parágrafo só no final. Como foi tocar no Rio?
Foi muito bom ter feito este show no Rio, logo depois do show no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, onde eu lancei o disco [Efêmera]. Eu acho que o disco disparou muito rápido, as pessoas lá no Rio já estavam ligadas no disco. E tem gente carioca participando dele: tem o Duani, que é do grupo Forróçacana e é um popstar no Rio, tem o Stephan San Juan, baterista da Orquestra Imperial e da Vanessa da Mata, e tem o Donatinho, que é o filho do João Donato. Então, o disco já havia chegado lá e, pra melhorar, eu cheguei com músicos cariocas. Por eu ter crescido em Minas Gerais, acho que meu som não é totalmente paulistano, embora eu seja filha de um cara da Vanguarda Paulistana [Luiz Chagas], guitarrista do Itamar Assumpção. Antes do show, o Donatinho e o Duani falaram pra mim: “Olha, o Circo Voador é difícil, o Rio é difícil. Não fica nervosa. Se você achar que a galera ta meio blasé, vira pra gente e vamos fazer um som a gente mesmo e se divertir. Não se preocupa”. O Duani ainda combinou comigo que a banda ia começar fazendo uma introdução grande e quando a galera tivesse mais perto do palco, eu ia entrar cantando. Mas quando eu entrei, todo mundo já tava cantando junto. E a gente ficava se olhando durante o show, impressionados, não esperávamos que isso fosse acontecer. Surpreendeu a gente mesmo, e foi um show totalmente quente e delicioso, com uma recepção linda. Então eu não entendo essa coisa que falam que o público carioca é frio e blasé.
Você diz que sua música é um “pop florestal”. O que é isso?
Acho que tem muito a ver com esse negócio de eu ter vindo de Minas e estar fazendo show aqui em São Paulo. Esse encontro da natureza com o concreto, do Clube da Esquina com a Vanguarda Paulistana, do chá com a coca-cola, e todos esses duplos. Meu som é violão e guitarra, é a natureza e a cidade juntas, é um cross-fade entre essas duas coisas. Mas é também uma brincadeira, porque é muito engraçada essa coisa de escolha de gênero. Um dia desses, eu tava vendo uma entrevista de 1965 com o Gilberto Gil, e perguntaram se ele era folk. Em 65, o cara já tava com preguiça de responder que gênero ele tocava. E é muito louco, porque você pode acordar um dia querendo fazer música caipira, e ao meio dia você é folk, às duas da tarde você acha que é forró e à noite você tá fazendo rock, entendeu? Então o pop florestal é a mistura de tudo isso. É forró, é baião, é rock, é música eletrônica e é meio que eu tirando um barato com todos esses gêneros. É uma porta de entrada: que entrem os gêneros todos.
Você lançou o disco, e fizeram várias resenhas sobre ele. Você lê todas? Você disse que acha difícil definir um gênero pra você, como você encara as formas como te definem na mídia?
Eu leio muito, sou super ligada nas coisas que saem e sou ativa nas redes sociais, estou sempre por dentro de tudo. É engraçado, você faz o seu trabalho, e cada pessoa vai decupar da sua maneira. Existe uma necessidade de comparar para conseguir definir. Então, “ah, parece Gal Costa, lembra Tropicália”. As pessoas precisam disso para poder entender. E a gente é um desdobramento de um monte de coisa, como a Gal é um desdobramento de um monte de coisa e a Carmem Miranda também. Só o Adão e a Eva saíram do zero, o resto é tudo um desdobramento. Eu acho sensacional ler as coisas que as pessoas escrevem. Tem um cara do Sul, eu acho, que escreveu que eu era uma “sereia boêmia”. Daí eu fiquei tentando imaginar o que seria isso e cheguei à conclusão de que metade pra baixo seria uma sereia, e metade pra cima seria a Rê Bordosa [personagem dos quadrinhos de Angeli] (risos). Então é bem divertido.
Hoje em dia você vive só de música ou ainda faz ilustrações?
Faço as duas coisas. Antes, o desenho estava um pouquinho na frente, agora a música está saindo na frente, mas ainda trabalho com as duas coisas. Eu consegui parar de trabalhar em horário comercial com o jornalismo. Mas a gente tem sempre que se reinventar, porque não é nada fácil viver de música. Hoje, eu tenho um ateliê virtual, por onde vendo meus desenhos. Acabei de fazer também a capa do disco de uma banda, que chama Esquema P, e deve sair no próximo semestre.
Você toca com seu pai e com seu irmão. Como é essa relação?
É bem tranquila, eles são meus professores. Eu cresci ouvindo os mesmos discos que o Gustavo, então nossas referências são muito parecidas. Os discos eram todos do meu pai. Então a gente curte o mesmo tipo de som, e eles são os meus mestres. Fica mais divertido do que qualquer outra coisa. A gente gosta de estar junto, fazendo música. Independente de sermos uma família, nós somos pessoas que gostam de coisas parecidas e se encontraram musicalmente.
E planos futuros?
Olha, eu tenho música pra vários discos. Mas disco novo eu vou pensar direito só no próximo ano. “Efêmera” tem só poucos meses de vida. Eu quero fazer muitos shows do disco ainda e tocar muita música nova antes de gravar.