A onda grunge completa duas décadas e segue ignorado pela mania dos revivals
Por Diego Sartorato
@sartoratoato
Agosto, setembro e outubro de 1991, há distantes 20 anos: chegam às lojas nos Estados Unidos Ten, Nevermind e Badmotorfinger, três álbuns que definiram uma geração inteira de hardrockers e headbangers que se uniram sob o selo do grunge. É difícil imaginar o por quê –comparando apenas os autores dos discos citados acima (Pearl Jam, Nirvana e Soundgarden, respectivamente), tudo que parece colocá-los no mesmo gênero é uma preferência algo exagerada por camisas de flanela e jeans rasgados.
![pearl-jam-live[1]](http://vitroleiros.org/wp-content/uploads/2011/02/pearl-jam-live1.jpg)
Digno de nota: no caso de Eddie Vedder, do Pearl Jam, o desleixo com a indumentária virou “uniforme”. Foram pelo menos três anos com a mesma camiseta verde-musgo-bosta do clipe de Even Flow, para os shows de promoção do Ten e do álbum seguinte, Vs.
Aqui:
Ah, e aqui. Foram 11 anos com a mesma camiseta, então:
Todo o resto parece colocar as bandas chamadas grunges em categorizações distintas: estilo musical e influências, estética, ativismo político, abuso de drogas, relacionamento com as gravadoras e a mídia, e tudo o mais que vai na receita de uma banda de rock. Com exceção, talvez, de um componente que parece nortear ao menos os três primeiros discos das bandas que integraram o grunge: a raiva.
Abaixo: raiva.
É justo atribuir ao punk os “direitos autorais” sobre o rock hidrofóbico, mas há uma grande diferença de contexto. Nas décadas de 70 e 80 do milênio passado, o mundo era dividido pela guerra fria, conceitos como tradição e moral ainda tinham algum peso e a juventude estava afogada por famílias e governos autoritários. Adolescentes, sendo adolescentes, escolhiam lados ou pregavam o “não-lado” do anarquismo; se não, ao menos o fim da hipocrisia.
A raiva dos grunges não tinha lado nem alvo, era emputecimento puro e simples: suco aborrescente. É até difícil entender o que querem dizer a maioria das letras –longas discussões pela internet têm tentado resolver isso, sem sucesso. Aqueles gringos magricelas berrando, berrando e a gente não entendendo nada, a não ser que eles estavam realmente bravos com sabe-se lá o que. E, pra dizer a verdade, quem é que não está? Tanto faz, soa tão bem.
Passada a chatice do fim dos anos 80, o grunge catalisou um sentimento generalizado de desencanto, tédio e falta de futuro de uma década que prometia Califórnia e entregou, bem, Seattle. E então, um grito –a inquietação dos músicos grunges era a mesma de todos que queriam mandar o status quo à merda, no berro e no chute.
Era tanta gente que o alternativo virou mainstream – de 1991 a 1994, o que mais vendia discos no mundo era aquela barulheira ranzinza. Mas talvez pra nunca mais. Não voltou nem com a mania dos revivals que cobriu praticamente todas as décadas anteriores: dos 2000’s pra cá, apareceram bandas que ressoam acordes dos anos 50, 60, 70, 80… E os 90? Ao que tudo indica, não está nem por vir.
A bem da verdade, a culpa não é nem da geração atual: quem viveu o tumulto grunge e hoje está engravatado no escritório esperando a aposentadoria chegar sabe bem. Mas a impressão que dá é a de que desaprendemos a ser desordeiros, desbocados e inconseqüentes. Olhamos para o grunge da mesma distância e com a mesma indiferença que a galera do início dos 90 olhava para a bicho-grilagem dos Doors (duas injustiças).
Uma coisa, pelo menos, não mudou nos últimos 60 anos: cada vez que a banda predileta de um adolescente não deixa os pais de cabelo em pé (não que o Restart não faça isso, mas por outros motivos), o rock morre um pouquinho. Pode ser exagero (esperemos que sim), mas, do jeito que vai, mais uns 10 anos e nos lembraremos do grunge como “o último suspiro do rock n’ roll” –assim, com o “n’ roll” que caiu em desuso e vai ver que é bem a parte que anda fazendo falta.
Trecker é do tipo que até tem cara de mau, mas não engana: constrói e destrói amores 