Em entrevista ao Vitroleiros, a cantora carioca radicada em São Paulo conta os casos e acasos dos seus trinta anos de história. Conheça a musa de Journal de BAD, que conseguiu reunir nomes como Otto, Tom Zé e Edgard Scandurra em um disco só
por Bruno Guerrero, Érika Kokay, Guilherme Assen e Jessica Grant

Ela nos recebe em casa, de chinelos, meias e um vestido vermelho florido. Com o celular em mãos, abre a porta e se despede de quem está do outro lado da linha. A voz calma faz os cumprimentos, e o sorriso nos guia até a sala do apartamento, onde a primeira impressão conduz os olhos para uma enorme estante de livros e uma caixa com vinis. A moradora do local tem um nome forte: Bárbara Eugênia. Cantora e compositora, ela representa um dos frutos dessa nova e saborosa safra da música brasileira.
“Como as coisas estão?”, perguntamos. “Corridas, né? Muita coisa pra fazer, mas é muito bom!”. A agenda cheia é resultado do lançamento de seu primeiro disco, Journal de BAD. Produzido por Junior Boca e Dustan Gallas, o CD agrega diversos nomes do cenário artístico atual, como Tom Zé, Edgard Scandurra, Otto, Karina Buhr – só para citar alguns.
Mas por que tanta gente boa em volta desta moça? A competência explica. Linda, com olhos expressivos, Bárbara é também uma compositora e intérprete de mão cheia. Sua voz rouca não deixa o som cair na mesmice – carrega, com jeito, um rock psicodélico repleto de influências do Tropicalismo, período com que mais se identifica na música brasileira. Quem a ouve acredita que ela nasceu cantando, mas o caminho até os palcos e estúdios foi longo.
Pra começar, a cantora viveu um pouco em cada lugar. De Niterói, onde nasceu há trinta anos, foi para os Estados Unidos, mas logo voltou para o Rio, onde ficou até os dez anos. Depois disso, passou por Atibaia, no interior paulista, e ainda por todos esses outros lugares novamente, para só em 2005 se mudar para São Paulo, onde reside hoje.
Esse vai-e-vem fez com que ela tivesse muitas e diferentes ocupações. “O máximo que fiquei em um emprego foi seis meses”, diz, ao contar sobre suas experiências longe dos acordes. Ela já trabalhou com atendimento e assistência de produção executiva em uma produtora de vídeos, fez discotecagem, foi garçonete, hostess e até gerente de sushi bar. Mas seu porto seguro é a tradução de textos burocráticos: “É o que paga o grosso das minhas contas há nove anos”.
Enquanto morava no Rio de Janeiro, Bárbara decidiu estudar cinema – tinha vontade de trabalhar com edição. Mas como a paixão pela sétima arte já tinha levado a estudante a ler e ver muito do assunto, o curso tornou-se cansativo. Quando trabalhou como voluntária no Festival de Cinema de 2000, foi que tomou a decisão: “Abortei a faculdade! Eu não consigo ir todo dia para o mesmo lugar. Cinema se aprende fazendo.”
Apesar de tantos lugares e tantas profissões, a música sempre esteve presente. Quando pequena, seu pai tocava piano todos os dias. “Tenho foto com dois anos de idade embaixo do piano, com meu pai tocando”, relembra. Sua mãe ouvia música o dia inteiro, e Bárbara passava as tardes dançando. “Era muito Beatles, muita Elis Regina na veia”, ri e reconhece a importância daqueles anos. “Eu cresci ouvindo música legal. Minha cultura musical é boa por causa da família.”
Bárbara toca um pouco de violão – que aprendeu com o primeiro namorado – e chegou a querer ser baixista de bandas de rock: “Cantar, mesmo, eu nunca tinha pensado”. E como isso começou? “Foram os amigos que [por volta dos 18 anos] ficavam falando que eu tinha voz bonita e que deveria tentar.” Mas isso levou tempo.
Em 2005, uma semana após uma separação, ela se mudou para São Paulo. “Era o único lugar que dava para vir, porque já tinha amigos. Vim na loucura mesmo, trabalhei com várias coisas aqui”, relembra. “Eu já tinha desistido da música totalmente.” O desânimo era tanto que Bárbara não botou fé quando o produtor musical Apollo 9 disse que iria chamá-la para um negócio. “Pensei: ‘já ouvi essa história várias vezes’. Só que dessa vez o cara ligou.” Na conversa, Apollo a convidou para gravar parte da trilha sonora do filme O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, o primeiro trabalho pra valer de Bárbara na música.
No dia da gravação – sua estreia em um estúdio – ela chegou nervosa, tremendo. “Aí a gente sentou e… ‘Ah, vamos tomar um conhaque?’.” Uma garrafa inteira depois, eles fizeram uma música em francês para o longa, com direito à busca na internet por inspiração: um poema de Charles Baudelaire.
Com o empurrão, Bárbara passou um tempo se aproximando do pessoal que inovava na música contemporânea. As diversas “panelinhas” – paulistas, pernambucanas, cearenses – da cena atual foram abrigando a cantora aos poucos. “Não tem carioca para me acompanhar, então eu estou um pouquinho em todas”, conta. “Todo mundo toca junto e é todo mundo muito amigo. Tá todo mundo a fim de se ajudar.” E não é só por camaradagem, não. Os artistas de hoje em dia realmente gostam do som que está rolando. “O som que eu ouço é desse povo. Se a gente não se ajudar, a gente não consegue fazer nada, sabe? Meu disco foi muito esforço conjunto. Todo mundo participou de graça, se tivesse que pagar alguém, eu não teria feito”, explica.
Um dos músicos que se tornou grande amigo de Bárbara ao longo do caminho foi Tatá Aeroplano, líder das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro. “A gente se encontrou umas vezes pra ele me mostrar as músicas dele e pra eu mostrar as minhas. Ele me ajudou a finalizar a [música] ‘Dos Pés’ nesses encontros.” O próprio Apollo 9 recomendou que ela não tivesse pressa e que o espaço dela viria com os contatos. “Aí eu comecei a ficar sem voz. Fui ver e estava com um cisto nas cordas vocais, tive de operar e tal”, diz, relatando mais um de seus obstáculos.
Ela conta que, nesse meio tempo, em 2008, “estava procurando emprego, e uma amiga me indicou para um amigo que falou deste outro amigo”. A trilha de contatos a levou até o guitarrista Edgard Scandurra, ex-Ira!, que na época estava organizando um tributo a Serge Gainsbourg, cantor e compositor francês. Bárbara passou a fazer parte do projeto, ainda se recuperando da cirurgia com sessões de fonoaudiologia. “Quando vi, estava ensaiando com o Arnaldo Antunes, saca?”, tenta explicar o impacto. “O Edgard é um coração que toca guitarra.”
Em seguida, Bárbara foi convidada a integrar o projeto musical 3 na Massa, de Dengue e Pupillo, integrantes do Nação Zumbi, e Rica Amabis, do grupo Instituto. Nele, ela ficou como cantora curinga e participou de grande parte das apresentações em São Paulo. O período lhe rendeu muita experiência e novos contatos. “Peguei a cancha, como eles dizem. E era gente que eu era fã e que virou amigo e colega de trabalho.”
Com mais formação, as portas começaram a se abrir. Uma amiga arranjou um show pra ela na casa Studio SP, em setembro do mesmo ano. O repertório mesclava composições próprias e músicas que ela gostava de interpretar, visitando o cancioneiro de nomes como Tom Zé e Gal Costa.
Em janeiro de 2009, Bárbara iniciou a produção de seu álbum. “Realmente na hora em que eu foquei na música, comecei a fazer [o CD], as coisas foram se encaminhando. A vida foi dando o jeito dela para as coisas se encaixarem da melhor forma.”
“O meu maior sonho era gravar com o Tom Zé, conhecer, dar abraço, qualquer coisa”, diz ela. Mas não é pra qualquer um que os desejos se realizam, assim, logo na gravação do primeiro disco: é preciso ter talento e, claro, ajuda dos amigos. A amiga, no caso, foi a jornalista Patricia Palumbo, madrinha do encontro musical entre Bárbara e Tom. “Quando ela foi me procurar e eu vi o arranjo que o Edgard Scandurra fez para a música ‘Dor e dor’, falei que ele ia adorar. Mandei a música por e-mail e ele respondeu dizendo que qualquer cantora que eu recomendasse ele ouviria”, conta Palumbo. O contato resultou em uma das treze faixas de Journal de BAD.
O nome do CD vem de uma série de e-mails que eram enviados para algumas das pessoas mais próximas de Bárbara, numa época na qual seus melhores amigos estavam morando fora do Brasil. “Eu tava na época com aquele lance de francês e coloquei ‘Journal’, diário em francês, e BAD, meu apelido para os amigos mais antigos”. Foram tempos difíceis em sua vida, mas, ao mesmo tempo, de maior inspiração. “Eu sempre escrevi muito, mas eu passei a sentir vontade de escrever e mandar para os amigos, sabe? Meio que um desabafo.”

Os candidatos à participação no disco foram nascendo das amizades e experiências que, segundo ela, foram essenciais. Scandurra, Pupillo, Dengue, Tatá, Fernando Catatau… “Era meio que natural que eles participassem, porque já eram amigos, tinham participado de shows, eu tinha participado de coisas deles.”
A história com o músico Junio Barreto também foi interessante: “Eu queria gravar uma música dele, e ele falou ‘vou fazer uma pra você’”, conta Bárbara, que ganhou uma canção escrita especialmente para ela no fim do ano passado, um ano depois dele a ter prometido. “Só o Gil [Duarte] e o Guizado, que
gravaram várias músicas, que eu liguei e falei: ‘Ó, gente, vocês topam fazer e tal?’.”
A música da menina de trinta anos foi evoluindo, se transformando, e cada um foi colaborando um pouco. “Eu tava a fim de fazer um negócio mais rock mesmo. Foi um processo. É um eterno processo, né? Já estou inventando umas músicas. A gente vai ouvindo coisa nova e ‘Puta! Queria fazer um som meio assim…’.” E as influências não param de gritar: desde Radiohead – sua banda favorita, cujo show em São Paulo, em 2009, arrancou-lhe lágrimas – até a chanson francesa, nas vozes de Edith Piaf e Charles Aznavour. Mas ainda há muita coisa pra vasculhar dentro dos seus 130GB cheios de discos no iPod. “Eu pesquiso muito a música dos anos 60, 70, de todos os lugares do mundo. Eu tô cheia de música turca e grega, de vários lugares…”, conta.
Dizem por aí que dá pra perceber a personalidade de muito artista apenas analisando sua obra. No caso de Bárbara, as letras autobiográficas de suas canções e sua sinceridade facilitam a vida do observador. Até as músicas que não são de sua autoria, segundo ela, dizem algo sobre sua própria vida. “Todo mundo se ferra, todo mundo tem amores que são incríveis, é só o meu jeito de falar sobre o negócio. Tem músicas que falam sobre assuntos tristes, mas mesmo estas eu acho que são super otimistas”, explica.
Com Bárbara Eugênia não poderia ser nada diferente. Pelas palavras da Patricia Palumbo, sua essência: “Ela tem um jeito interessante de passar um recado bastante feminino, uma marca muito forte do trabalho dela, mas não é ‘cor de rosinha’, é de cores fortes como tem na capa do álbum. É mais Gainsbourg”.
Lançamento do disco Journal de BAD: o show do dia 18 de novembro no Estúdio Emme (São Paulo) foi cancelado, avisaremos assim que tivermos mais notícias.

