
Ana veio de Curitiba, Bruno saiu de Natal e Hemanuel, desbancou-se de Manaus. Representantes dos quatro cantos do país reunidos com um objetivo comum: assistir a um dos shows mais aguardados dos últimos tempos. A banda inglesa Radiohead demorou 15 anos, sete álbuns e dezenas músicas para vir até o Brasil – uma eternidade para grande parte dos 54 mil que inundaram Rio de Janeiro e São Paulo com camisetas, letras decoradas e Ipods recheados com as melodias de Thom York, Ed O’Brian, Phil Selway e dos irmãos Colin e Jony Greenwood.
O Radiohead nasceu com o duvidoso nome de “On a Friday”, uma referência ao único dia da semana que os cinco frequentadores da escola exclusiva para rapazes da cidade de Abingdon conseguiam conciliar as agendas e ensaiar. O ano era 1985 – 8 anos antes da banda lançar o fundamental “Ok Computer”, que rompeu os padrões estéticos de uma “banda de rock” e adicionou às guitarras melodias fragmentadas, barulhinhos eletrônicos e letras sobre o vazio da vida moderna.
Em 2007, a banda foi ainda mais longe e desintegrou padrões da indústria fonográfica ao disponibilizar o álbum “In Rainbows”, na íntegra, para download. Porém, muito antes do gesto, Ana de Curitiba já atestava “Eu só conheço o Radiohead graças à Internet”. Ana Áurea tem 20 anos e pertence a uma geração que cresceu descobrindo, trocando e compartilhando arquivos de música na rede. Fã da banda, a estudante de Medicina na UFPR deixou de comparecer a uma prova afim de vir ao show, que em São Paulo aconteceu no domingo, 22 de março.
Hemanuel Jhosé é fã de Radiohead desde 1998. Para sair do Amazonas e vir a São Paulo, ele gastou quase mil reais em passagens e sacrificou meio expediente. A odisséia valeu a pena, uma vez que a banda mesclou o repertório mais recente com clássicos como “Fake Plastic Trees” e “Creep”, dos dois primeiros álbuns. “Além disso,a banda se mostrou muito competente e Thom York é um frontman bem seguro”, comenta ele.

Setlist do show em São Paulo
Estudante de Rádio & TV da UFRN de Natal, Bruno Evangelista adquiriu o ingresso assim que começaram as vendas online – pontualmente à meia-noite do dia 5 de dezembro de 2008. Em São Paulo, Bruno hospedou-se em um albergue e ficou espantado com a quantidade de hóspedes que estavam lá exclusivamente para o show. Da massa de fãs, ele colecionou histórias como a do tatuador profissional fã do Radiohead que marcou a pele de meia dúzia de alberguistas com o nome da banda, frases de músicas e o famoso “ursinho chorão” símbolo do Radiohead.
Durante quase uma década, circulou na internet a campanha “Radiohead Come To Fucking Brazil” (“Radiohead Venha a Droga do Brasil”), feita por fãs brasileiros inconformados com a ausência de shows da banda em terras tupiniquins. Finalmente foram atendidos – e a altura – por um show classificado de “irretocável”, “impecável” e o “melhor da minha vida”.
Da lama ao caos
O festival Just a Fest conseguiu trazer o Radiohead para o Brasil, mas pecou pela falta de organização. Em São Paulo, o público de 30 mil pessoas sofreu com a sinalização precária e o caos generalizado na saída do show, que aconteceu na Chácara do Jóquei, zona Oeste da cidade. Motoristas que desembolsaram 35 reais para ficar no estacionamento oficial esperaram até 3 horas para conseguir sair de lá, sina compartilhada por centenas de pessoas que não conseguiam pegar um táxi. Alguns taxistas, aproveitando-se do desespero geral, chegavam a cobrar 150 reais por uma corrida com o taxímetro desligado até a região da Av. Paulista. Um rapaz inconformado resumiu tudo: “O show foi incrível, mas a desorganização foi vergonhosa”.
Foto por Silvio Tanaka