O presságio do Gang of Four

Existem bandas que estão alguns anos a frente do seu tempo e passam batidas por sua geração, no entanto, algumas acabam se tornando referência para dezenas de outras nas décadas seguintes. Esse é o caso da inglesa Gang of Four.

Quando surgiu em meio ao movimento punk com seu debut “Entertainment!” (1979), o Gang of Four era uma banda que estava muito além do chamado pós-punk. Sua música era uma verdadeira desconstrução do que todos conheciam como boa música. Até mesmo os punks não entenderam direito o que a banda estava criando.

O guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King foram a força criadora por trás da banda e estavam absolutamente atolados nas influências da escola de Frankfurt. Naquela época, eles misturavam o som cru do punk, batidas e marcações do funk, minimalismo e dub com uma crítica feroz a sociedade e a política. Além da dupla, o grupo era completado pelo baixista Dave Allen e o baterista Hugo Burnham.

Essa química altamente inflamável fez o Gang of Four ser uma das bandas mais cultuadas de todos os tempos. Diversos nomes da música afirmam serem influenciados pela banda: Michael Stipe, vocalista do R.E.M.; Flea do Red Hot Chili Peppers; e até o lendário Kurt Cobain (que a Courtney o deixe descansar em paz) citou a banda como um dos alicerces do Nirvana.

Tirando o contexto histórico, o principal motivo da escolha deste disco foi a sorte que tive em comprá-lo. Estava na loja “Big Papa Records” que fica na Galeria Nova Barão (do lado da Galeria do Rock) e o Papa havia acabado de chegar de viagem trazendo centenas de plays incríveis dos Estados Unidos. Apesar da loja ter sido pilhada por dezenas de colecionadores psicóticos fui em toda a minha humildade procurar algo que eu ainda não tinha. Foi procurando a esmo que encontrei uma edição de época zerada do “Entertainment!”. Levei na hora!

Capa

Todo o trabalho de arte da capa deste disco foi feito pela dupla King e Gill, no melhor esquema faça você mesmo. A imagem não poderia ser menos polêmica, um índio americano apertando a mão de um caubói em três versões da mesma ilustração – como num efeito de close nos quadrinhos.

O texto em volta das imagens não é menos impactante: “The Indian smiles, he thinks that the cowboy is his friend. The cowboy smiles, he is glad the Indian is fooled. Now he can exploit him.” (Em minha livre tradução: “O índio sorri, ele pensa que aquele caubói é seu amigo. O caubói sorri, ele está orgulhoso por enganar o índio. Agora, ele pode explorá-lo”. Sensacional!

Nem preciso dizer que a contracapa não fica atrás e além do nome das músicas tem frases de impacto do mesmo calibre. Por exemplo, o pai de uma família dizendo “Eu gasto a maioria da nossa grana comigo, assim consigo continuar gordo”. A questão social sempre foi um assunto importante para a banda que estava colocando em cheque todas as instituições da sociedade capitalista contemporânea (quando digo que fiz História na faculdade ninguém acredita, né?).

Longe de mim ser comunista, mas a capa do disco é animal e um verdadeiro chute no saco da sociedade careta e borra botas.

Lado A

Boto o play pra sambar e logo de cara somos agredidos pelos riffs canibais de “Ether”. Mas a coisa começa a ficar mais cadenciada em “Natural’s Not in It”, que tem grande semelhança com o estilo dos primeiros discos do Devo (que são da mesma época). Ambas são gritos indignados contra o tédio e a alienação capitalista, nunca foi tão divertido ser comunista!

Acredito que a maioria dos leitores gosta da banda Rapture (um dos melhore shows que já fui), então vai perceber que tudo o que você mais curte neles foi chupado sem dó da música “Not Great Men”. Relaxa, cara, não é fácil copiar o Gang e ainda parecer original, os moleques tem seus méritos.

“Damagend Goods” é um daqueles estranhos casos em que algumas bandas da mesma época seguem por caminhos opostos e acabam tendo uma sonoridade parecida. Esse verdadeiro zeitgeist musical remete diretamente ao que o The Clash estava fazendo nos dois primeiros discos.

O álbum fecha com as pedradas “Return the Gift”(insisto no Rapture e peço que compare com “House of Jealous Love”) e “Guns Before Butter” que influenciaram cada centímetro das principais faixas de boa parte das bandas dançantes do século XXI.

Lado B

Nossa viagem pela música do século XXI feita na década de setenta do século anterior continua! Agora pense nos dois primeiros discos do The Strokes e preste bastante atenção nas “referências” aos riffs frenéticos de guitarra. “I Foung That Essence Rare” não é só um marco musical, a letra por si só é de um hino para a geração de jovens desencorajados pela constante ameaça da hecatombe nuclear da Guerra Fria.

“Glass” é a famos música mais do mesmo, mas falta um pouco da magia presente na próxima canção. Quando ouvimos “Contract” somos sugados momentaneamente para um lugar sinistro onde um “dub cyberpunk” faz papel de fundo para letras sobre tédio e a rotina repetitiva das classes operárias.

Prepara seu coração, pois o proto-eletrônico de “At Home He’s a Tourist” tem uma batida que comanda as pulsações de seu coração. A letra faz referências aos salões de discoteca onde casais de pessoas insatisfeitas e controladas pelo sistema acabam se conhecendo.

O experimentalismo come solto em “5:45” que lembra bastante as bases musicais do que seria o gótico dos anos 1980. Uma linha de baixo extremamente grave com guitarras fazendo um pano de fundo para um vocal desesperado e infeliz. Pelas minhas contas, tem muita gente devendo pros doidos do Gang of Four.

Pra fechar o disco, a banda reservou uma de suas músicas mais polêmicas e famosas “Anthrax”, que já começa tirando as crianças da sala com uma microfonia absurda. Numa espécie de anti-música que dá origem a uma das mais importantes canções de todos os tempos. Como na letra, a música faz uma referência aos Beatles e parece até uma versão organizada de “Revolution 9”, o clássico que fecha o álbum Branco do Fab Four. Olha só, não é que essa barulheira doentia lembra alguns dos trampos mais experimentais do Sonic Youth. Se o Gang of Four ganhasse por royalties toda vez que criava alguma mecânica musical que seria usada pelas próximas gerações estariam mais ricos que o Justin Bieber.

ouve aí!

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Antes de fechar esse texto gostaria de informá-los que o Gang of Four confirmou à “Folha de São Paulo” que fará um show no Brasil em maio. Até agora divulgaram apenas que o show será gratuito. Da banda original, sobrou apenas Gill. Mais um motivo para você correr atrás e ouvir esse grande disco da história do rock.

Pra onde foi a raiva?

A onda grunge completa duas décadas e segue ignorado pela mania dos revivals

Por Diego Sartorato
@sartoratoato

Agosto, setembro e outubro de 1991, há distantes 20 anos: chegam às lojas nos Estados Unidos Ten, Nevermind e Badmotorfinger, três álbuns que definiram uma geração inteira de hardrockers e headbangers que se uniram sob o selo do grunge. É difícil imaginar o por quê –comparando apenas os autores dos discos citados acima (Pearl Jam, Nirvana e Soundgarden, respectivamente), tudo que parece colocá-los no mesmo gênero é uma preferência algo exagerada por camisas de flanela e jeans rasgados.

Digno de nota: no caso de Eddie Vedder, do Pearl Jam, o desleixo com a indumentária virou “uniforme”. Foram pelo menos três anos com a mesma camiseta verde-musgo-bosta do clipe de Even Flow, para os shows de promoção do Ten e do álbum seguinte, Vs.

Aqui:

Ah, e aqui. Foram 11 anos com a mesma camiseta, então:

Todo o resto parece colocar as bandas chamadas grunges em categorizações distintas: estilo musical e influências, estética, ativismo político, abuso de drogas, relacionamento com as gravadoras e a mídia, e tudo o mais que vai na receita de uma banda de rock. Com exceção, talvez, de um componente que parece nortear ao menos os três primeiros discos das bandas que integraram o grunge: a raiva.

Abaixo: raiva.

É justo atribuir ao punk os “direitos autorais” sobre o rock hidrofóbico, mas há uma grande diferença de contexto. Nas décadas de 70 e 80 do milênio passado, o mundo era dividido pela guerra fria, conceitos como tradição e moral ainda tinham algum peso e a juventude estava afogada por famílias e governos autoritários. Adolescentes, sendo adolescentes, escolhiam lados ou pregavam o “não-lado” do anarquismo; se não, ao menos o fim da hipocrisia.

A raiva dos grunges não tinha lado nem alvo, era emputecimento puro e simples: suco aborrescente. É até difícil entender o que querem dizer a maioria das letras –longas discussões pela internet têm tentado resolver isso, sem sucesso. Aqueles gringos magricelas berrando, berrando e a gente não entendendo nada, a não ser que eles estavam realmente bravos com sabe-se lá o que. E, pra dizer a verdade, quem é que não está? Tanto faz, soa tão bem.

Passada a chatice do fim dos anos 80, o grunge catalisou um sentimento generalizado de desencanto, tédio e falta de futuro de uma década que prometia Califórnia e entregou, bem, Seattle. E então, um grito –a inquietação dos músicos grunges era a mesma de todos que queriam mandar o status quo à merda, no berro e no chute.

Era tanta gente que o alternativo virou mainstream – de 1991 a 1994, o que mais vendia discos no mundo era aquela barulheira ranzinza. Mas talvez pra nunca mais. Não voltou nem com a mania dos revivals que cobriu praticamente todas as décadas anteriores: dos 2000’s pra cá, apareceram bandas que ressoam acordes dos anos 50, 60, 70, 80… E os 90? Ao que tudo indica, não está nem por vir.

A bem da verdade, a culpa não é nem da geração atual: quem viveu o tumulto grunge e hoje está engravatado no escritório esperando a aposentadoria chegar sabe bem. Mas a impressão que dá é a de que desaprendemos a ser desordeiros, desbocados e inconseqüentes. Olhamos para o grunge da mesma distância e com a mesma indiferença que a galera do início dos 90 olhava para a bicho-grilagem dos Doors (duas injustiças).

Uma coisa, pelo menos, não mudou nos últimos 60 anos: cada vez que a banda predileta de um adolescente não deixa os pais de cabelo em pé (não que o Restart não faça isso, mas por outros motivos), o rock morre um pouquinho. Pode ser exagero (esperemos que sim), mas, do jeito que vai, mais uns 10 anos e nos lembraremos do grunge como “o último suspiro do rock n’ roll” –assim, com o “n’ roll” que caiu em desuso e vai ver que é bem a parte que anda fazendo falta.

Empresário do punk uma merda!

Malcom McLaren faleceu há um mês, no dia 8 de abril, e todo mundo se lembrou do ícone do punk. Mas a vida dele foi muito além – se é que um dia ele foi punk

Dia 8 de abril, quinta-feira, a internet ficou repleta com a notícia da morte de Malcolm McLaren. “Antigo empresário dos Sex Pistols”, “empresário do punk”, “fundador dos Sex Pistols”, noticiavam sites importantes como Rolling Stone, NME e Billboard. O britânico nascido dia 22 de janeiro de 1946 ficou realmente marcado pelo seu trabalho aos 29 anos ao lado dos primeiros grandes punks. Brigas, polêmicas, tudo que se conhece dele são os anos que ficou com o grupo inglês, e talvez seu nome seja o primeiro que muitos lembram ao ouvirem falar “Sex Pistols”. Alguns ainda lembram no New York Dolls, de seu trabalho na Let It Rock e depois na SEX, onde marcou a moda da época com Vivienne Westwood (quem, por sinal, fazia 69 anos no dia da morte dele). Mas será que isso é tudo?

Dentre os anarquistas, Malcolm sempre foi o mais capitalista de todos – e isto não era uma contradição, ao menos para ele. Montou aqueles punks de uma forma altamente vendável, adotou a postura de roqueiro encrenqueiro, questionador dos valores da época e marcou seu nome na indústria e cultura. Queria gritar contra esta cultura corporativa, mas ele mesmo ficou com a grana dos royalties de algumas das músicas dos Sex Pistols. Sobre seu lado bagunceiro, Bob Gruen bem que disse: “Malcom adorava quando as coisas ficavam fora de controle. Ele não achava divertido a menos que as coisas ficassem fora de controle.” Malcolm dizia que queria mesmo mudar a cultura, provocar uma geração inteira. “Havia uma lista de coisas ‘boas’ e de coisas ‘más’, e esta lista foi o começo pra eu me decidir de que forma usar o ‘mau’ e como fazê-lo funcionar de uma maneira que pudesse transformar definitivamente a própria cultura popular”, conta no livro Mate-me Por Favor, onde também fala que a normalidade o irritava. Na obra ele também comenta que “a raiva era simplesmente por causa do dinheiro, porque a cultura tinha se tornado corporativa, porque a gente não a possuía mais”. Mas bem que ele possuiu muita grana lucrada com o punk… contoverso, como sempre.

O ego de Malcolm sempre foi meio “super”. Como a Billboard contou, uma vez ele disse que “rock’n'roll não necessariamente significa uma banda. Não significa um cantor, e nem uma letra, realmente. É aquela questão de tentar ser imortal”. Seja pra mudar a cultura, seja pra marcar seu nome na história, Malcolm conseguiu se tornar um dos porta-vozes de todo um movimento de contra-cultura.

Mas isso não é tudo que Malcolm fez. Em 1978, depois de toda confusão com os Pistols, Malcolm formou o quarteto de new wave Bow Wow Wow e partiu para uma carreira solo. Punk? Que nada! O cara fez diversas experimentações com hip-hop, dance e eletrônica. As mixagens, cara dos anos 80, traziam também elementos da new wave e influências da música africana, algumas até um pouquinho de ópera. Até o midcult Yanni fez parcerias com o empresário-do-punk, uma delas era a adaptação do “The Flower Duet” da ópera Lakme (Leo Delibes).

Em 1983 o agora cantor lançou seu primeiro álbum solo, Duck Rock, do qual conseguiu alguns hits emplacar nas rádios da Inglaterra e dos Estados Unidos, como “Buffalo Gals” e “Double Dutch”. “Madame Butterfly” foi seu próximo single, e em 1985 ele lançou outro álbum, o Swamp Thing. Entre estes dois trabalhos também teve um disco americano, o mini-LP Scratchin’. Quatro anos depois, Malcolm reapareceu com Waltz Darling, que também fez sucesso na ilha da rainha Elizabeth. Em 90 lançou outros dois discos e em 94 veio o álbum Paris, justamente quando ele se mudou para França. Seu último projeto, um tanto quanto diferente e fora de algumas discografias suas, foi Shallow – Musical Paintings.

Lembra do documentário Fast Food Nation? O Malcolm co-produziu. Sabe estes realities-shows? Ele competiu no britânico The Baron e num Big Brother para famosos. Nos últimos anos fez filmes, como alguns sobre o Sex Pistols e Paris: Capital of the 21st Century, rodou a cena cultural, e ficou quieto na Suíça morrendo aos poucos com câncer. É, Malcolm é muito mais que um personagem do punk. Ele foi essencial para a formação do movimento contracultural dos anos 70, mas nem ele mesmo era tão punk, e nem o punk foi muito a cara do Malcolm.

Ou você acha que este vídeo abaixo, feito cinco anos depois dos anos punks do produtor, é punk? E vai dizer que esta música, um dos maiores singles de McLaren, não te lembra nada…:
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Marmanjos fazendo a drama queen

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Ideia padrão na adolescência: criar uma banda de rock/punk/hardcore e fazer covers inusitados de músicas pop. Eu, você, aquele amigo nosso… De repente, todo mundo tem uma versão em mente – mas pouco se faz além da barulheira na garagem. E é por isso que o álbum mais recente do Zebrahead, Panty Raid, chamou minha atenção. Aliás, [talvez pela ausência do estilo na minha vida já a alguns anos] nada me atrai assim nesse gênero desde I Believe I Can Fly do Me First And The Gimme Gimmes.

Um teaser: O cover de Girlfriend ganhou até clipe – mas não é nem de longe o melhor

5 grow men cover 15 girl songs, define o myspace do grupo californiano de rock alternativo. E é exatamente isso que o álbum é:  uma salada de versões interessantes de Destiny’s Child, Britney Spears, Amy Winehouse, Cyndi Lauper, Avril Lavigne, Spice Girls…  Interpretadas por vários marmanjos que estão na estrada desde 1996. Resultado? Riffs de guitarra grudentos, unidos a um ritmo alegre e uma seleção musical inteligente – hits dramáticos virando piadinha dançante.

Álbum pra animar o seu dia ou fazer trilha sonora numa festinha adolescente [tá, maldade], não importa: Embora cultive atualmente um preconceito médio quanto a bandas de hc/punk/rockzinho udigrudi, esse passa com louvor, mesmo que seja pra ouvir só uma vez.

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Zebrahead – Panty Raid

Tracklist

1. Survivor
2. Girls Just Want To Have Fun
3. Underneath It All
4. Trouble
5. London Bridge
6. Beautiful
7. Girlfriend
8. The Sweet Escape
9. Intro
10. Jenny From The Block
11. Rehab
12. Spice Up Your Life
13. Intro
14. Oops!… I Did It Again
15. Get The Party Started
16. Mickey
17. All I Want For Christmas Is You (Bonus Track)
18. Who Let The Dogs Out

#dica

#playlist: Cover Sessions

Receita Cover: pegue uma pimenta punk, com 500 mL de new wave, coloque na fôrma e asse. Quando ficar pronto, adicione a cobertura de bossa nova. Devore seu Nouvelle Vague, quentinho.

A banda é francesa e leva o nome de um contra-movimento de cinema dos anos sessenta – o Nouvelle Vague (“Nova Onda”). O som é simples e certo, um dos melhores que eu já ouvi. Alguns covers tem mais originalidade do que as músicas primordiais. Mas no caso do Joy Division, fiquei na dúvida… Só ouvindo para saber:

Estão em turnê pela Europa agora. São eles: Marc Collin, Oliver Libaux e mais 15 cantores. Não, você não leu errado. São 14 cantoras e  um cantor que compõem o grupo. Mas essas músicas que selecionei aqui são performances de Mélanie Pain (“Dance with me”) e Eloisia ( “Love will tear us apart”), que por sinal é carioca.

Eloisia

Eloisia

Mélanie Pain

Mélanie Pain

Saiu o clipe de “Baptized By Fire”

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Àqueles que eram fãs de Distillers, a notícia é mais impactante – mas acho que todo mundo deveria correr pra ver: o clipe de “Baptized By Fire”, do Spinnerette, que conta com a direção de Chris Hopewell, saiu no finzinho da semana passada. É mais (muito mais!) Brody Dalle pra nós. Uhu!

Assistam ao clipe aqui:


Férias Punk

Aprender, compor, tocar, gravar e viajar com os grandes astros do rock&roll é um sonho impossível para meros leigos. Certo? Errado. The Rock & Roll Experience é um projeto de turismo que alia o sonho das boas férias com o da boa música.

rockandrollexperienceCom a chance de tocar com os músicos famosos, gravar um disco e DVD com eles e com os melhores da engenharia de som e da produção, além de um show, fotografias e aulas – ou seja, da criação ao produto final – qualquer um pode incluir nas histórias para os netinhos sua página no mundo do rock. Os produtores executivos da idéia brilhante são Todd Kasten e Zak Einstein.

A partir de US$ 7999 os dias entre 7 e 11 de outubro em Honolulu, no Havaí, se tornarão a realização deste sonho. Incluso a hospedagem em hotel de luxo – porque astros do rock não ficam em qualquer lugar -, que serão 5 noites no New Designer Boutique Hotel. Também conta no preço a passagem aérea (para o Havaí, ou seja, não do Brasil para lá), traslado privativo (er… isso quer dizer, limosine exclusiva) e os melhores restaurantes. Se quiser ir em um grupo de amigos, melhor ainda, você ainda pode economizar 500 dólares. Agora se puder desembolsar um pouco (muito) mais, é possível jogar golfe com os astros e até curtir um spa. Ainda há vagas para os dispostos a gastar e serem astros do rock por alguns dias.

Nem todas as presenças estão fechadas, mas entre os astros garantidos está Al Jardine, guitarrista e um dos fundadores do Beach Boys. Para os punks, a presença marcada é de Glen Matlock, um dos adolescentes do Sex Pistols e, portanto, um dos fundadores do movimento. Ele é nada além de autor de Never Mind the Bollocks, Anarchy in UK e God Save the Queen. Expulso da banda, formou o Rich Kids, tocou com Sid Vicious e se uniu a banda de Iggy Pop, além de muito mais de lá prá cá.

Gerald V. Casale é outros dos grandes músicos confirmados. Marco na música new wave e dos anos setenta, a “Devo” (diabo…) também foi um dos pioneiros da revolução dos vídeo-clipes e do surgimento da MTV nos anos oitenta. Wayne Kramer, cofundador do inovador MC5 e, pela Rolling Stone, um dos 100 melhores guitarristas, também participará destas férias peculiares.

Earl Slick, um dos “deuses da guitarra”, vai estar por lá. Ele toca com David Bowie desde os setenta e, nos 80, foi recrutado por John Lennon e Yoko Ono para tocar no album Double Fantasy (Grammy para Album do Ano). Tocou com vários outros nomes desde então, contruindo uma carreira de sucesso. Para os bateristas, há Steve Ferrone na lista. Foi da Average White Band (1974) e atualmente toca no Tom Petty & The Heartbreakers desde 94. Tocou com craques como Eric Clapton, Steve Winwood, Paul Simon, Michael Jackson, Aretha Franklin, Diana Ross, Duran Duran, Johnny Cash, George Harrison, Stevie Nicks, The Bee Gee’s, só para citar alguns… Clem Burke é outro grande nome presente. Sucesso nos anos 70 e 80, participou da Blondie e, depois, tocou com váários artistas, entre eles Bob Dylan e The Ramones.

Mais informações no site www.rockandrollexperience.com.

Alô! Alô?! Planeta Terra chamando!

Das 17 horas do último dia 8 até algo por volta de 3:40 da madrugada do dia 9, o Main Stage do festival Planeta Terra 2008 dominou o público. Os ingressos vendidos por R$65,00 valeram a pena. Nas próximas linhas, tentarei descrever minhas impressões desse grande evento. Mais do que uma matéria ou resenha, esse texto será apenas minha visão dos acontecimentos desse dia, elegido por mim como um dos melhores do ano.

Localizado na Avenida Nações Unidas, número 20003, a Villa dos Galpões comportou cerca de 15 mil pessoas que foram ao festival que mais prometia desse ano (pelo menos para mim). O local era bem grande e dividido em três grandes palcos: Main, Indie e DJ stages. Placas ajudavam na sinalização de lugares de uma forma, digamos, suficiente para bêbados encontrarem o que queriam. Os balcões dos bares eram extensos, então não havia tanto problema para comprar uma cerveja por R$4,00. A comida era cara como tudo lá dentro, mas mesmo assim, depois de mais de 10 horas lá dentro aquela fome bateu e tive que apelar para um hot-dog, R$6,00. Os banheiros pareciam uma árvore de natal, lotados de galhos de pinheiros no chão para deixar o cheiro um pouco melhor, o que, pelo visto, funcionou até o fim do evento.

Ao entrar no evento, praticamente todos ganhavam um guia, com um mapa do lugar e as atrações com seus respectivos horários e um “porta-bitucas”, para não sujar o chão com os cigarros já fumados. Alguns já fizeram um uso diferente para o tubinho: lança-perfume. Alguns baseados também rolavam soltos em alguns grupinhos. Durante os shows, telões anunciavam os nomes das músicas tocadas pelos artistas, conseguindo, quase sempre, errar. Esse foi o maior erro que consegui perceber no Planeta Terra 2008: enquanto tudo estava perfeito, apenas escolheram as pessoas erradas para nomear as músicas do telão. Mesmo assim, foi um problema apenas para quem não conhecia as diferentes bandas. Nos intervalos dos shows, reprisavam imagens do último e passavam entrevistas (que para nós do palco principal eram transmitidas sem som).

Mas vamos ao que realmente o festival se propunha: a música!

Mallu Magalhães - Foto: Reinaldo Marques

Dos quatro shows que assisti, o primeiro foi de Mallu Magalhães. Antes dela, o Vanguart havia se apresentado. O show da Mallu correspondeu ao esperado. Tocou alguns de seus sucessos, como Tchubaruba, Vanguart e J1. Pelo que parece, Mallu está evoluindo bem rápido no campo musical. Em alguns outros shows que vi e ouvi, desafinava algumas vezes, mas, nesse, foi impecável. Trocando várias vezes seu figurino e tirando e colocando a cartola com a qual se apresentou e agindo com aquele seu jeito meigo e um pouco ingênuo de ser, ela conseguiu atingir o público com Town of Rock’n Roll, que foi a que mais animou o público. Tocou também covers dos Beatles e de Cash. Entretanto, a música que mais me chamou atenção (e que eu mais gostei) foi Noil, com Mallu tocando sua escaleta no começo e usando bastante a voz, com altos e baixos, para criar um clima melancólico para a música.

The Jesus and Mary Chain - Foto: Reinaldo Marques

Meu segundo show, logo após o da adolescente prodígio, foi o dos veteranos do The Jesus and Mary Chain. Esse foi um show que, me arrisco dizer, foi um dos melhores do festival. Mesmo sem conhecer muito da banda dos anos 80, as músicas tocadas eram boas e, apesar de não muito animadas, conseguiram prender o público. Mesmo assim, grande parte das pessoas que dominavam a grade eram jovens com a camiseta do Offspring, que seria o próximo show. Para mim, o ponto alto do show foi algo que me pegou de surpresa: a interpretação de Just Like Honey, a música final da trilha sonora de Lost in Translation (Encontros e Desencontros), de Sophia Coppola (um de meus filmes preferidos e, com certeza, um dos melhores finais de filme que já vi, favorecidos pela música). Antes mesmo da melodia começar, apenas com as batidas da bateria, o público já gritava e aplaudia.

Dexter Holland, vocalista - Foto: Reinaldo Marques

O Offspring foi, para muitos, o show do festival. Eu mesmo estava indo principalmente para vê-los, mas não me surpreendi. Tocaram alguns dos seus maiores sucessos como All I Want, Gone Away e The Kids Aren’t Allright, que animaram muito a platéia. Mesmo assim, pelo que percebi (e senti) enquanto estava em uma roda punk, Bad Habit causou grande furor nos quase violentos jovens que pulavam loucamente. Ao que me parece, a música mais cantada pelo público foi Hit That, mas não posso nunca afirmar, já que mudei de lugar várias vezes. Provavelmente mais perto da grade, a maioria conhecia quase todas as músicas da banda e acompanhava as canções. Greg K teve seu momento de glória em Have You Ever, na qual luzes de seu baixo acenderam como uma espécie de neon azul. Dexter ainda fazia piadinhas como sempre, e Noodles apareceu com a camisa 9 da seleção brasileira e brincou mostrando a barriga. Ao acabar o show, a banda se retirou e esperou o encore (bis). Mesmo não sendo tão clamada pelos fãs, percebe-se que em poucos minutos a banda seguiu o script e voltou aos palcos (como anteriormente combinado, provavelmente). Parece que foi aí que o público se tocou que não veria o Offspring por mais um bom tempo e resolveu aproveitar pra valer as três últimas músicas: Can’t Get My Head Around You, Want You Bad e, finalmente, Self Esteem, que fechou com chave de ouro para os antigos fãs.

Após o Offspring, foi a vez de Bloc Party, show que não tinha a mínima vontade de conferir, já que estava cansado, com sede e com fome, depois de três shows seguidos próximos à grade. Mesmo assim, depois do fracasso no VMB, parece que a banda conseguiu restituir sua reputação com o festival, tocando suas músicas ao vivo.

Wilson com boina de fã - Foto: Reinaldo Marques

O último palco da noite foi do Kaiser Chiefs, que conseguiu reunir grande platéia por ser o último palco a apresentar alguma atração. Todos pareciam acabados, mas foram revitalizados pela presença de palco do vocalista Ricky Wilson em um show com uma interatividade marcante com a platéia. A agitação da banda transpirava aquela vontade de estar ali, como nenhum outro teve no festival todo. Tentando falar em português várias vezes e arremessando as coisas no palco e até no público, como as baquetas que havia usado, o vocalista pulava do palco para conseguir proximidade com seus fãs. Chegou a colocar uma boina cedida por um deles e a subir em um amplificador fora do palco. Wilson pediu para cantarem Na Na Na Na Naa e todos atenderam, levantando folhas de papel com Na, Na e Naa. Uma das mais conhecidas da banda, Ruby, agitou bastante o público cansado e fez todo mundo esquecer que já estava em pé e pulando por algumas horas. Mas foi The Angry Mob que fez o povo ir mais alto: como último grande acontecimento da noite, a platéia inteira esgotou suas últimas energias restantes. A banda finalizou o show com Oh My God.

Depois disso, as pessoas só procuravam pensar em como ir para a casa depois de um dia cansativo, mas que tinha valido a pena. O festival todo foi – arrisco dizer mesmo só tendo estado no Main Stage o tempo todo – ótimo. Tenho certeza que algumas das bandas que se apresentaram para um público desconhecido ganharam novos fãs. Além disso, renovaram o espírito de que ainda hoje temos qualidade musical. Isso é tudo uma questão de gosto, claro, mas gosto não se discute.