O Mezanino e o ataque maciço
Por Adriano Trotta
Quando fui convidado a escolher um único álbum definitivo, que considero essencial, pensei: F*DEU. Não só porque é tarefa difícil pra qualquer um que goste de música, mas porque geralmente eu gosto de canções isoladas e faço minhas próprias coletâneas. Como se não bastasse, escrever sobre essa escolha é uma tarefa não menos complicada.
Tentando facilitar, pensei em álbuns que funcionam como uma música só. Explico: O The Wall do Pink Floyd, por exemplo, costuma ser classificado como uma ópera. Não no sentido clássico, claro! Mas porque uma música termina emendada na outra, e as letras se complementam para contar uma história. Por isso, as canções até podem ser ouvidas separadamente, mas foram feitas para serem apreciadas na sequência do disco.
Tá, eu não gosto de Pink Floyd. Mas consigo pensar em outros álbuns que funcionam desse jeito. Embora as músicas não sejam conectadas, nem contem uma história única, o sentimento que elas provocam parece bem linear. Eu poderia citar o clássico álbum Ten do Pearl Jam, todos da banda canadense Arcade Fire, o disco MCMXCL do finado grupo Enigma, ou ainda o Exile on Main Street dos Rolling Stones. Qualquer um desses discos pode ser ouvido inteiro na sequência, e você vai entender o que eu quero dizer. Mas, seguindo essa linha, o álbum essencial que eu escolho é o Mezzanine, do coletivo londrino Massive Attack.
O grupo reuniu gente conhecida da cena underground da Inglaterra, em 1983: Andrew Mushroom, Tricky, e Daddy G são os DJs compositores das músicas, enquanto o grafiteiro 3D faz os vocais da maioria delas. Mas não todas, já que uma das coisas mais legais do grupo é ter vários vocalistas diferentes! O álbum Mezzanine contou com os convidados Horace Andy, cantor jamaicano de reggae, e Elizabeth Fraser, da banda de pop rock inglês Cocteau Twins.
A combinação parece confusa, eu sei. Mas fica perfeita nas mãos desse que é um dos melhores times de produtores da música eletrônica. E embora não tenham sido os criadores do trip-hop — que nasceu da fusão de diferentes tipos de hip-hop, dub, grooves, guitarras e bateria —, os DJs do Massive Attack foram os pioneiros do estilo. A sensualidade densa e hipnótica desse som, que se tornou sucesso graças a eles, influenciou muito do que veio depois, durante a era do poperô putz-putz dos anos 90. Na trilha deles, também vieram o Portishead, o Morcheeba, e outros nomes famosos do trip-hop e do lounge. Hoje o álbum Mezzanine é cult. O maior sucesso do Massive Attack já tem 12 anos de idade, e muitas das músicas ainda aparecem em filmes e séries de sucesso.
Andrew Mushroom deixou o grupo logo depois do Mezzanine. Daddy G, além de compositor, continua por trás da voz mais grave das músicas. Tricky canta em algumas delas, com seu sotaque caribenho inconfundível, mas seguiu carreira solo. E o ex-grafiteiro 3D ainda é o vocalista principal do coletivo. Depois de 6 anos sem novidades, eles estão pra lançar o novo álbum Heligoland, ainda em 2010. Mal posso esperar pra ouvir!
o desafiado
O Trotta, dentre muitas de suas funções, comanda o Trottolices. Foi o primeiro convidado porque recentemente publicou por lá as 30 músicas que marcaram sua vida e babamos na série. Hoje é Analista de Mídias Sociais da Polvora! Comunicação, mas já trabalhou como designer, ilustrador, redator, ator, tradutor, dublador, músico, tradutor…
E ainda arranja pique pra fazer piadas ruins diariamente. =P
Mezzanine pra ouvir
tracklist

1. “Angel”
2. “Risingson”
3. “Teardrop”
4. “Inertia Creeps”
5. “Exchange”
6. “Dissolved Girl”
7. “Man Next Door”
8. “Black Milk”
9. “Mezzanine”
10. “Group Four”
11. “(Exchange)”
mais informações sobre o álbum aqui.