“Eu escapava em meus devaneios enquanto trabalhava. Ansiava por entrar na fraternidade dos artistas: a fome, o modo de vestir, o processo e as orações. Eu me gabava de que um dia seria amante de um artista. Nada parecia mais romântico para minha cabeça de jovem.”

Assim que entrei na livraria, uma capa prateada me chamou a atenção. As surpresa veio quando peguei a obra nas mãos e constatei que sua autora era ninguém menos que Patti Smith, uma das grandes musas da contracultura a que me apeguei quando ainda guria de tudo. Desejei demais, e comprei-o sem hesitar, mesmo com receio. É que biografias são o único tipo de livro que costumo abandonar. Revisito-as infinitas vezes até chegar ao fim, como se, por mais interessante que tenha sido uma vida, poucos fossem aptos a retratá-la.
Felizmente, Só Garotos é uma louvável exceção. Contando sobre a sua relação com o artista Robert Mapplethorpe e a boemia em Nova Iorque nos anos 60 e 70, as palavras de Patti fluem rapidamente, capturam-nos e permitem que nos apaixonemos também. Conhecer a artista desde sua infância — e a síndrome de Peter Pan –, construir o seu desenvolvimento com as fotos e a narração incrível e apreciar a doçura e a rebeldia dela são, pelo menos aos meus olhos, objeto de profunda identificação. Às vezes, no meio de uma de suas histórias, os desejos artísticos se acendem dentro e fora da obra. É encantador acompanhar sua passagem entre ilustrações, poesia e então, a música.
“Nós nos víamos como os Filhos da Liberdade com uma missão de preservar, proteger e projetar o espírito revolucionário do rock and roll. (…) Nós também pegaríamos em armas, as armas de nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone”
Mais do que vidas, o que há em “Só Garotos” é a arte. Os seus heróis — também meus — surgem nas páginas como personagens marcados principalmente por uma singeleza até então desconhecida. Dylan, Warhol, Hendrix, Joplin, Ginsberg, Burroughs, Morrison, todos nos fazem desejar viver a vida de Patti e Robert, sua miséria, sufoco e seu amor por tudo isso. É estar permeada de elementos da nossa bagagem que faz dela uma obra deliciosa. Terminei amparada por lágrimas, questionamentos e curiosidade, feliz por saber que essa inquietude na minha alma é comum.
“Quem entende o coração de um jovem senão ele mesmo?”
Com “Só Garotos”, Patti Smith recebeu esse ano o National Book Award na área de não ficção.
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SÓ GAROTOS
Patti Smith
Brochura, 16 x 23 cm
280 páginas
Companhia das Letras
Na onda de listas com dicas imperdíveis, que tal um livro com toda a discografia que você não pode deixar de ouvir em vida, prontinho? Sim: existe e é bom. Na verdade, já faz algum tempo que o “1001 discos para ouvir antes de morrer” tem sido comentado por todos os cantos.


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