#musicmonday: Bob Dylan, por outros

Textos sobre o Bob Dylan sempre chamam minha atenção. Foi assim que no fim de semana passado li o artigo “Bob Dylan e o grande segredo da indústria da música”, de Pedro Alexandre Sanches, no Opera Mundi. O texto fala de como o biógrafo do cantor e compositor, Colin Escott, expôs no encarte da coletânea The Witmark Demos: 1962-1964 um detalhe importante da indústria fonográfica: o trabalho – e lucro – das editoras. Quando Bob Dylan começou, antes de virar o que virou, suas canções foram levadas pela editora para outros interpretarem-nas. Com o maior número de versões, mais ela lucraria, mais ou menos assim.

Hoje em dia, com a internet, esta indústria está mudando. Seja lá qual for o seu futuro, o texto do Sanches me lembrou das inúmeras versões de Dylan que existem por aí… Por hoje, fica a dica: confira o texto, ao som da nossa playlist de Dylan [por outros].

Especial Bob Dylan – Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo

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Em 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos viram 200 mil pessoas marcharem sobre a capital Washington, invadirem o espelho d’água e declamarem discursos que entrariam para a História – tudo em nome da igualdade racial. O evento ficou conhecido como “Marcha sobre Washington por empregos e liberdade”. Organizado por ativistas dos chamados “direitos civis” e por grupos religiosos, a marcha pressionou o Governo Kennedy a encaminhar o “Ato dos Direitos Civis” ao Congresso. Porém, o assassinato de JFK em 22 de novembro do mesmo ano acabou atrasando a aprovação da emenda pelos congressistas americanos, feita em 1964 por Lindon Johnson e seguida pelo “Ato de Direito de Votos”, em 1965.

“I had a dream” – o mais famoso discurso do líder Martin Luther King Jr. -  foi ouvido pelos milhares aglomerados nas escadarias do Memorial Lincoln e por Bob Dylan, que participou do evento acompanhado pela cantora e ativista Joan Baez, apresentado como “um cantor de Nova York”. Bastante envolvido com a agitação política da época, Dylan cantou “Only a Pawn in Their Game”, do seu terceiro e mais politizado álbum “The Times they are a-changing”.

Escrita sobre o assassinato do ativista Medgar Evers, a música apresenta o algoz, Brian de La Beckwith como “apenas um peão no jogo deles” e também uma vítima “do sistema que ensina o ódio”:

“O deputado, o xerife, os soldados, os governadores são pagos / E os delegados e policiais recebem o mesmo / Mas o pobre homem branco é usado / Nas mãos de todos estes como uma ferramenta/ Ele está preso em sua educação / Desde o inicio pela regra / Que a lei está com ele para proteger sua pele branca / E manter o seu ódio para que nunca pense direito / No estado que ele está / Mas não é ele o culpado / Ele é apenas um peão no jogo deles”

Outra canção de 1963, “Blowin’ in the wind” tornou-se o hino da luta pela igualdade racial. Os famosos versos “how many roads must a man walk down/ before you can call him a man” transformaram Dylan em uma espécie de líder espiritual, um profeta dos tempos modernos, cujas músicas carregavam implicações e alusões políticas em cada palavra – um papel que o jovem cantor nunca se sentiu apto a desempenhar. “Eu não penso quando escrevo. Eu só reajo ao que está a minha volta e coloco no papel. O que há em minhas músicas é um chamado à ação”.


Leia também:

Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie