
(Por Diego Sartorato)
Tudo parecia já começar mal, muito mal. Nos alto-falantes, a voz de um funcionário do SESC Paulista anunciou solenemente: “é proibido fumar durante o show”. Mas antes que a ira anti-tabagista coloque o leitor contra mim, explico: choca o contra-senso de sentar para ouvir os rocks e “chansons” de Serge Gainsbourg sem poder acender um cigarro e mandar pra dentro uns bons goles de vinho. Sinal dos tempos politicamente corretos. Os shows, que ocorreram em todas as quartas-feiras de julho e serão encerrados com uma festa no dia 31 (ingressos esgotados), são parte da comemoração do ano da França no Brasil – que coincidiu com o aniversário de 80 anos do cantor. No fim das contas, não decepcionaram nem um pouco.
Por mais que já tenha passado da hora de aproveitar o evento, vale a oportunidade para correr atrás de conhecer o legado de um dos cantores mais influentes e originais do século passado. Todo mundo conhece pelo menos uma, “Je t’aime mon non plus”, notória pelos sussurros e orgasmo (supostamente genuíno) da modelo e então namorada Jane Birkin. A parceria com beldades no estúdio e entre quatro paredes foi uma constante na vida do boêmio Gainsbourg, que namorou e gravou dois discos com Brigitte Bardot. “Charlotte é o grande amor da minha vida que eu não posso levar para a cama”, dizia da própria filha.

Serge Gainsbourg & Jane Birkin
Filho de judeus russos que fugiram da revolução comunista e criado em uma França sob ocupação do exército nazista, Gainsbourg misturou sua formação em música erudita com uma profunda admiração pelo rock n’ roll norte-americano (e toda a cultura yankee, evidenciada em canções como “Comic Strip” e “Bonnie and Clyde”), e mais tarde incorporou elementos de reggae e rap. Parece a união de todos os ingredientes de um fracasso flamejante, mas é Gainsbourg. E é bom demais.
Gainsbourg, The initials BB
Tudo isso pôde ser observado – sem cigarro e sem vinho, mas com as musas de sempre – nos shows de Edgar Scandurra et Les Provocateurs (lês provocatérs, pra pronunciar sem passar vergonha). Bons músicos, convidados interessantes como Fausto Fawcett, Arnaldo Antunes e Guilherme Arantes, e todo o clima mezzo mod, mezzo cult que a coisa toda propicia. Destaque para a ala feminina, uma personificação em três tempos de Melody Nelson, personagem lolitesca do álbum conceitual de mesmo nome lançado em 1971. A voz da ninfeta fica a cargo da esposa de Scandurra, Andréa Merkel. A juventude propriamente dita com a menina Juliana R, e a sensualidade com Bárbara Eugênia – que merece atenção redobrada para suas apresentações solo no Studio SP.
Difícil mesmo foi convencer o público paulistano a soltar as amarras pra entrar no clima da contra-cultura francesa dos anos 60. Ok, talvez seja pedir demais. Mas vale a pena correr atrás de ouvir o melhor de Gainsbourg o quanto antes para o caso de, ano que vem, acontecer um show de 81 anos. Dá tempo de decorar as letras, mesmo não entendendo nenhum dos versos de rebeldia, alucinação e promiscuidade, e não cantar em coro um “acunbensurdaletrasit” embolado no lugar do “Aucun Boeing sur mon transit” do início do hit L’ananamour.
Pra conhecer mais (torrents, ativar):
Initials BB (1968)Jane Birkin/Serge Gainsbourg (1969)Cannabis (1970)Histoire de Melody Nelson (1971)Rock Around the Bunker (1975)Love on the Beat (1984)
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