Notas sinceras

A banda JudeAirplane, de São Carlos, leva um estilo alternativo com letras que falam sobre fé, provando que é possível, sim, fazer música cristã de qualidade e diferente

As músicas trazem um ritmo gostoso, que lembra o alternativo, indie e até o ska. São boas para acompanharam tanto uma manhã tranquila, quanto um dia corrido. Ao prestar atenção na letra, parece que sai da alma do músico, o som parece ser a nota que transmite a vida dele.

E ele fala muito de “fé”, mas de uma forma humana. É como compartilhar o que acredita, de forma sincera e íntima. Mesmo com seu tom espiritual, não é música tradicional do louvor cristão, nem aqueles clichês gospel que, por mais que possam ser feitos com o coração, são repetitivos. JudeAirplane é a fé cantada com sinceridade e inovação. Eles cobrem uma lacuna da música contemporânea tanto no estilo musical, quanto nas palavras, que refletem um olhar humano e humilde sobre o cristianismo.

Alan Dias (vocal, guitarra e o responsável pelas composições), Davi Aono (baixo e vocal) e Israel Aono (bateria e backvocal) se conhecem há mais ou menos 15 anos. Na adolescência, Alan e Davi tinham uma banda que Israel sempre acompanhava e apoiava. “Após o término [desta banda] eu, que era somente guitarra solo, e o Davi, o primeiro vocal e violão, continuamos ainda pra matar o tempo e a vontade de tocar, pois crescemos com isso”, conta Alan. Logo Israel passou a acompanhar a dupla na bateria e, com o tempo, formaram um novo grupo. “Decidimos que o Davi seria o novo baixista e, sinceramente, foi a melhor decisão”, lembra o vocalista, que assumiu este posto de surpresa. “Devagar tentava encaixar essa minha voz – estranha – nas nossas músicas.”

Há pouco mais de um ano na estrada, JudeAirplane já lançou seu EP Um no MySpace. As tiragens físicas são vendidas por dez reais depois dos shows. A gravação, corrida e conciliada entre o estudo e o trabalho dos meninos, juntou as primeiras músicas do trio. “Elas trazem lembranças boas, lembranças de como era difícil fazer algo diferente, lembrança de como foi bom passar por certas coisas”, conta o compositor, Alan.

Ainda sozinho nas letras, o vocalista espera poder contar um dia com seus amigos. “Escrevo desde os 11 anos, já fui ajudado em algumas músicas pelo Israel e Davi. Mas espero um dia letras inteiras, seria interessante, conheço a capacidade deles.” O agregado da banda, Gabriel, já estava presente no teclado e trompete, mas o álbum leva também outros instrumentos, que trazem diversidade e variedade às músicas. E eles não param: “logo logo vai chegar o EP 2, acho que essa experiência amadureceu um pouco a gente e vamos fazer melhor”.

Nas influências, os músicos contam com muita qualidade e quantidade, incluindo Elvis para todos. A variedade de gostos talvez explique a dificuldade que até eles tem para definir seu som. “Hoje em dia tudo que é diferente é influência, tudo que renova e evolui a música”, tenta explicar Alan. Falando em estilos musicais, o trio vai além do que se usa atualmente para denominar as músicas ligadas ao cristianismo. “Com certeza não estamos muito encaixados no padrão atual de artistas gospel”, afirma Israel. “Não gosto de todas as bandas gospel, assim como não gosto de muitas não-gospel. [Mas] tem muita banda cristã aí me surpreendendo, com letras e mensagens que realmente me inspiram”, diz Alan que, como Davi lembra, fala do grupo Crombie. Davi ainda menciona da banda Palavrantiga, que Israel também destaca.

Fé e arte é uma dupla natural para JudeAirplane. Alan, o “cara das ideias”, como define o baixista, explica: “Arte, pra mim, é onde tem alguma música boa, várias luzes, muitas cores ou esses três juntos. E, por final, tem uma simples mensagem em meio a tudo isso. A fé é uma arte, ou se torna uma arte talvez. Acreditar no que você não vê e cantar sobre isso, fazer o possível pra construir um processo criativo e atrativo pra mostrar uma simples mensagem, pra mostrar no que temos fé, é uma arte.”

Esta arte da banda leva a bandeira da fé deles. “Devemos utilizar tudo o que temos e sabemos fazer para expressar a nossa fé, e a arte é isso mesmo!”, se empolga o baterista Israel. “Pra mim viver é uma grande oportunidade que Deus me deu, e mostrar que essa oportunidade não foi em vão é o meu propósito”, explica Davi. “E pra levar isso pra música só com inspiração.”

Nos planos futuros dos rapazes, está viver da música. E, conta Davi, “continuar com o projeto, sempre inovando, sempre descobrindo coisas novas”. Virão para shows? “São Paulo? Claro.” Israel já lembra a próxima data: “Temos um evento agendado para o dia 14/08, o LOVE2010 no Carioca Club”. O evento, um festival de música que tem por objetivo “promover o Amor através da arte”, é do LOVE7, um projeto idealizado por Rafael Amaral, que também cuida da carreira do JudeAirplane. Ao lado do trio, também tocará o americano Shawn MacDonald, a banda Palavrantiga e o Crombie. “Esperamos que seja o primeiro [festival] de vários”, se anima Israel, que, junto com seus amigos, ainda tem muito caminho pela frente.

Gospel não! Cristão.

O cenário musical cristão brasileiro anda bem mal… As melhores produções surgem com tão pouco apoio que muitos não ouvem falar delas. Já aqueles que conseguem chegar ao amplo público que estas músicas podem ter, costumam ter uma qualidade baixa. Sejam questões técnicas, problemas nas composições e letras e até mesmo inconsistências teológicas! Quase sempre são uma versão (ruim) de Gospel Pop, e figuram como “tudo o que há de música cristã por aí”. Certo? Errado.

Embora seja complicado de receber estas boas notícias, há músicos cristãos de qualidade tentando chegar ao público. Muitos destes ainda tem a consciência de que não necessariamente todas as músicas precisam ser aquelas “bem crentes” e “de igreja”, mas sabem que se canta o que está no coração e, assim, a religião e fé deles passa naturalmente e não forçadamente, garantindo a qualidade e autenticidade.

Há nomes também já conhecidos que seguem este panorama, como João Alexandre, Marco Neves, Carlinhos Veiga, entre outros (e são nomes da boa música brasileira). Mas na nova geração poucos figuram neste cenário. Alguns anos atrás eu destacaria o Oficina G3, como estilo rock, mas mesmo eles andam mudados. Mas, calma lá, nem tudo está perdido!

(Dica número 1:) Para quem quer se manter atualizado, há um site ótimo que exibe programas semanais sobre a boa música cristã brasileira, com entrevistas e um artista tocando sua música. É o Plataforma, produzido com muita qualidade (mesmo!). Essa semana ele fala da música “Amor Incondicional” de Jorge Camargo. E ainda há muita coisa guardada no arquivo, de entrevistas passadas.

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(Dica Número 2:) Além disto me encaminharam uma banda “nova” (na verdade ela nasceu em 2006) que foi entrevistada pelo alforria (que passa o contato e o download autorizado de faixas do disco deles) e CristianismoCriativo (leiam estas matérias, acho que valem a pena para os interessados). É o Crombie, um grupo de Niterói que não toca, na minha opinião, música gospel, mas sim uma mistura de alternativa, nova mpb, reggea e indie.

Suas letras, também, são muito mais, digamos, “pé-no-chão, sem abrir mão do que está no coração”. Como eles mesmo dizem, ou melhor, cantam, na música “Canto”, “Canto a esperança que não morre,/A paz que sinto no meu coração”. E o bom é que eles não cantam somente músicas que falam de Deus, do cristianismo, etc. diretamente, mas do dia-a-dia, da rotina, cantam poesia, fazem a coisa bonita! Para muitos cristãos cansados de música pop, gospel e, muitas vezes, hipócrita, a banda expressa o que é ter esta fé e demonstrá-la mesmo no que parece que não tem nada a ver. Lembrando mais uma letra deles, “Eu não te falei teoria/Eu quis viver pra mostrar”.

Na entrevista publicada no site alforria, eles falam até do limite no mercado atual: “O nicho da música cristã no mercado fonográfico brasileiro tem se fechado muito para outros segmentos, acaba criando uma linguagem própria e ficando incomunicável. Gostamos da comunicação”. Condordo.

Portanto, para quem quiser, acho que vale a pena ouvir a Crombie e buscar saber mais sobre eles. Os outros sites, também, passam informações interessantes mostrando que a boa música cristã brasileira ainda está por aí. Graças a Deus!

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