The Damned reaviva punks apaixonados em São Paulo

Por Gabriel Daher

Falar sobre o Damned não é falar sobre qualquer banda de punk rock. Além de sua imensa contribuição para o estilo de três acordes, a banda londrina tem em seu currículo uma grande contribuição para o que viria a se tornar o gótico, estilo difundido e imitado à exaustão nos anos 80.

Tudo começou em meados dos anos 70, em Londres, quando, embalados pela atitude de bandas americanas como Ramones e Dictators, formam o grupo e lançam aquele que é considerado o terceiro álbum punk da história: Damned Damned Damned, de fevereiro de 1977. Para pesquisadores, os dois primeiros seriam o homônimo dos Ramones, de abril 1976, e Teenage Depression, da banda Eddie & The Hot Rods, lançado em novembro do mesmo ano.

Ao longo dos anos, a formação da banda mudou consideravelmente, mantendo-se apenas o guitarrista Captain Sensible e o vocalista Dave Vanian. O primeiro, um magrelo excêntrico e caricato, capaz de criar riffs divertidos e agitados, tal qual sua personalidade. O segundo, um vampiresco vocalista de voz grave e marcante, trajando sempre roupas pretas, cabelos penteados para trás com gel e maquiagens soturnas, uma versão punk do Conde Drácula, mais famoso personagem do escritor irlandês Abraham “Bram” Stocker.

Além de seu primeiro álbum, dois outros álbuns igualmente simbólicos se destacam na discografia do Damned. Machine Gun Ettiquete, de 1979, mostra a banda já reformada, sem a presença do antigo guitarrista Brian James (membro chave da composição dos dois primeiros álbums), e traz clássicos do grupo, como “Love Song” e “I Just Can’t Be Happy Today”.

The Black Album, de 1980, foi a grande jogada de Vanian . Assumindo o controle das composições e a liderança do grupo, o vocalista colocou suas ideias em pauta e criou um álbum marcante para o estilo gótico, tornando o álbum um clássico cult para punks e darks.

Visitando o Brasil pela primeira vez desde sua formação, a banda não decepcionou os poucos e fanáticos fãs que estiveram na Clash Club, em São Paulo, na última quinta-feira, dia 12. A simbólica data – véspera de uma sexta-feira 13 – contribuiu para que o show da banda ganhasse ares ainda mais assustadores. Mas quem estava com medo de ver no palco um bando de velhos desesperados atrás de dinheiro – fato cada vez mais recorrente em shows de bandas punks da leva original – respirou aliviado quando o Damned subiu ao palco, abrindo sua apresentação com a empolgante “Wait For The Black Out”.

Toda e qualquer desconfiança sobre a banda acabava logo ali, no início do show. Vestindo calças de risca, camiseta a là Wally (com um Freak bem grande no peito, assumindo sua condição esquisitóide), óculos brancos e sua inconfundível boina vermelha, o guitarrista Captain Sensible fazia caretas para o público, arracando riffs simples e ritmados de sua guitarra. Bastou o soturno Vanian entrar no palco – cabelos para trás, roupa social típica da Transilvânia – para o cenário estar completo.

Punks pogando e pulando, garotas dançado, fãs se emocionando. Se a estrutura e o som abafado da Clash Club não ajudavam, os fãs faziam sua parte, e o apresentação do Damned começava com pé direito – e esquerdo, e os braços, no caso do pogo.

A partir dali, o Damned fez o que se esperava da banda. Do delírio do público em músicas como “New Rose” (maior sucesso de sua carreira), “Love Song”, “I Just Can’t Be Happy Today” e “Fan Club”, passando pelas pouco empolgantes “Shadow Of Love” (de Phantasmagoria, álbum lançado em 1985), “13th Floor Vendetta” e “Eloise” (de The Black Album), o grupo marcou sua passagem brasileira com empolgação e simbolismo dignos de sua história.

Na noite em que Thurstoon Moore se apresentava no Cine Jóia e Carl Barat fazia os indies dançarem no Beco 203, o Damned mostrou que ainda há espaço para os fãs de punk rock em São Paulo. Poucos em número, muitos em animação, os gatos pingados que estiveram na Clash não se arrependeram de desembolsar os cerca de R$100 que estavam sendo cobrados pelo ingresso, valor um tanto quanto fora dos padrões da cena underground brasileira.

Se para estes fãs é cada vez mais raro ver suas bandas favoritas ao vivo, – e ainda mais raro ver estes shows serem executados com qualidade – o Damned é a prova de que os chamados “punks 77” da cidade ainda podem se manter esperançosos quanto ao futuro próximo.

Se estão presos a uma lacuna do tempo e apaixonados por discos que já chegam aos 35 anos de lançamento, os jovens de calças justas e jaquetas de couro ainda podem se vangloriar de ter a oportunidade de ver bandas honestas como o Damned , mesmo que o público seja composto apenas por outros e poucos apaixonados como eles. E, pra falar a verdade, eles preferem assim. Ou vai dizer que você viu algum punk passeando pelo Lollapalooza Brasil?

Acredito que não.

*Este texto é dedicado aos meus amigos Thig e Erick Martorelli, irmãos e fanáticos pelo Damned, e ao pai deles, Zé, que mostrou que o punk rock não tem idade e mesmo com seus mais de cinquenta anos foi ao show e agitou mais do que muitos garotos de vinte.

40 anos de Let It Bleed

let it bleed cut

No próximo dia 28 de Novembro completam-se 40 anos do lançamento de Let It Bleed, oitavo disco de estúdio dos Rolling Stones e segundo disco que compõe a chamada “trindade de ouro” dos Stones, sucedendo Beggars Banquet (1968) e precedendo Sticky Fingers (1969).

Gravado nos Olympic Studios em Londres entre novembro de 1968 e novembro de 1969, Let It Bleed se mostrou o disco mais country dos Stones e se firmou como um clássico em sua discografia. Let It Bleed também é o último disco dos Stones com o guitarrista Brian Jones como membro do grupo. Apesar de ainda fazer parte da banda, Jones contribuiria apenas tocando arpa em You Got The Silver e percussão em Midnight Rambler. (Em julho de 1969 Brian Jones seria encontrado morto na piscina de sua casa, em Hartfield, em um caso que ainda é misterioso até os dias de hoje). Antes da conclusão do disco o guitarrista seria substituído por Mick Taylor, que gravaria apenas duas faixas do álbum. Todas as outras guitarras foram gravadas por Keith Richards, e todas as músicas do disco são de autoria da dupla Jagger/Richards, com exceção de Love In Vain, de Robert Johnson.

Há quem defenda a teoria de que o nome do disco seria uma provocação aos Beatles e à gravação de seu último disco de estúdio, Let it Be, que apesar de estar sendo gravado desde fevereiro de 1968 ainda não fora lançado, mas não há nenhuma declaração ou fato que comprove isso.

Segundo pesquisadores, a faceta country do disco teria sido influenciada pela amizade entre Keith Richards com Gram Parsons, músico de country norte-americano e ex-membro das cultuadas bandas Flying Burrito Brothers e The Byrds. A este também é creditado o arranjo country da música Honky Tonk Women, do álbum Through the Past, Darkly (Big Hits Vol. 2); e lançada em Let It Bleed com o nome Country Honk. Vale citar uma curiosidade sobre Honky Tonk Women: A música foi escrita por Jagger e Richards no Brasil, entre dezembro de 1968 e Janeiro de 1969, influenciados por gaúchos que tocavam músicas gaudérias no rancho em que a dupla esteve hospedada, em Matão-SP.

Outro aspecto marcante e curioso é a capa do álbum. Projetada pelo designer Robert Brownjohn, contém uma peculiar escultura que consiste no Let It Bleed numa antiga vitrola, onde no meio se apóia uma barra que abriga de baixo para cima: uma lata de filme, um relógio de parede, uma pizza, um pneu de bicicleta e um bolo enfeitado com miniaturas dos cinco Stones no topo. Na parte de trás do disco pode se ver a mesma escultura toda destruída, com os bonecos caídos, uma fatia da pizza sobre o disco, a agulha da vitrola quebrada, o filme puxado, uma fatia do bolo faltando, o pneu com um grande furo e o relógio manchado e sujo. A ordem das músicas contidas na parte de traz da capa não condiz com a ordem correta do disco. A alteração fora feita por Roberto Brownjohn apenas por questões visuais.

 

stones 1969
Os Rolling Stones em 1969

 

A faixa de abertura do disco é Gimmie Shelter, que se tornaria um clássico dos Stones. A música fora inspirada na guerra do Vietnam, e em entrevista à Rolling Stone americana em 1995, Jagger a descreveria como “uma música do fim do mundo”. A segunda faixa é Love in Vain, versão dos Stones para o blues do lendário Robert Johnson, seguida da já citada versão de Honky Tonk Women que aqui aparece como Country Honk. A quarta faixa é a agitada Live With Me, marcante pelo baixo, aqui executado por Keith Richards. As faixas três e quatro seriam as duas únicas faixas do disco gravadas pelo novo guitarrista Mick Taylor.

Let It Bleed é a quinta e última faixa do lado A, e consiste em um rock and roll que marca pelos solos de guitarra de Keith Richards e o piano, gravado por Ian Stewart. Para muitos, a letra de Let It Bleed faz aversão a sexo e drogas, e talvez este seja um dos motivos para a canção não ter sido lançada como single.

O lado B começa com Midnight Rambler, um fantástico blues de pouco mais de seis minutos com uma incrível gaita de Mick Jagger. A letra é contada na perspectiva de um estuprador e assassino, e parte dela foi tirada da confissão do americano Albert DeSalvo, que entre junho de 1962 e Janeiro de 1964 estuprou e assassinou treze mulheres em Boston, ficando conhecido como “O estrangulador de Boston”.

You Got The Silver é a oitava faixa; uma balada honky-tonk que marcaria a estreia solo de Keith Richards nos vocais. Antes o guitarrista já havia dividido os vocais com Jagger em outras músicas, mas nunca gravado uma música dos Stones como cantor principal. Contam as lendas que a música teria sido escrita por Richards para sua então namorada, Anita Palenberg. A nona faixa é Monkey Man, blues rock agitado que marca pela levada com piano e os solos de guitarra de Keith Richards aliados aos gritos finais de Mick Jagger.

O disco é fechado com You Can’t Always Get What You Want, uma das mais fantástiscas músicas já gravadas pelos Rolling Stones. Assemelhada com um hino, a canção tem uma das letras e um dos refrões mais belos de todos os tempos: “You can’t always get what you want, But if you try sometimes you might find, You get what you need”.

Gravada nos dias 16 e 17 de novembro de 1968, You Can’t Always Get What You Want contou com diversas participações especiais. A abertura e o final da música foram gravadas pelo The Bach Choir de Londres, um dos mais importantes e numerosos coros do mundo. O piano, o órgão e a trompa foram gravados por Al Kooper, o mesmo que gravou a lendária intro de órgão em Like A Rolling Stone,de Bob Dylan. A bateria ficou por conta do então produtor dos Stones, Jimmy Miller, que assumiu as baquetas de Charlie Watts, pois este não conseguia fazer o “groove” necessário para a  música. Rocky Dijon tocou Conga e Maracás, e a atriz norte-americana Nanette Workman gravou os back vocals.

A letra fala sobre a atmosfera social dos anos 60, abordando temas como sexo, drogas e movimentos políticos, ilustrando seu otimismo inicial e suas seguintes frustrações. Em 2003 Jagger disse que You Can’t Always Get What You Want  era uma música que ele gostava de tocar no violão, e definiu-a como uma “bedroom song”.

 

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Cartaz da "The Rolling Stones American Tour" de 1969.

O disco não teve uma turnê de divulgação, mas algumas faixas foram tocadas durante os shows da lendária The Rolling Stones American Tour, que aconteceu entre Novembro e Dezembro de 1969 em 17 cidades dos Estados Unidos. Em dezembro de 1969 o disco atingiu o #1 de vendas no Reino Unido, desbancando Abbey Road dos Beatles da posição. No mesmo ano o disco também atingiu o #3 do Top da Billboard nos Estados Unidos.

Let It Bleed ficou com a 32ª posição na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos feita pela Rolling Stone em 2002, e no mesmo ano foi relançado remasterizado em CD e Digipak junto com dezenas de outros álbuns dos Stones pela Decca/ABKCO, braço da gravadora Universal.

Let It Bleed é o marco de uma das mais criativas e fantásticas fases dos Stones e da dupla Keith Richards/Mick Jagger, e é um item indispensável para todo fã da banda. Dentro do encarte da primeira edição do disco um aviso podia ser encontrado: “This record should be played loud”.

 

No palco com Iggy Pop

Gabriel esteve no show de Iggy & The Stooges no Planeta Terra e conta como foi assistir a este espetáculo da plateia – e, de quebra, subir ao palco e apertar a mão da maior lenda viva do Punk.

O início

O relógio marcava 00:03 quando o baterista Scott Asheton, o baixista Mike Watt, o saxofonista Steve Mackay e o guitarrista James Williamson subiram ao palco Sonora Main Stage, do Planeta Terra 2009, montado no enorme espaço de entrada do Parque de Diversões paulistano Playcenter, na Barra Funda. Do lado direito, uma grande área vip abrigava jornalistas e personalidades que esporadicamente eram entrevistadas pela equipe jornalística do Terra e mostradas nos telões espalhados pelo festival. Em frente ao palco, centenas de fãs se amontoavam e se empurravam tentando chegar mais perto da grade que separava o chiqueirinho dos fotógrafos do espaço destinado a platéia. Uma chuva fina caía na cidade – nada que desanimasse os roqueiros que presenciavam o evento.


A entrada dos integrantes despertou no público um burburinho de excitação para o que viria a acontecer. Faltava o convidado mais ilustre da noite, a lenda viva do punk, Iggy Pop. O cantor entra vestindo apenas uma calça preta e botas, deixa à mostra a barriga um tanto quanto flácida, mas nada mal pra um senhor de 60 anos. Enquanto a banda toca as primeiras notas de Raw Power, Iggy anda de um jeito peculiar até o microfone, que segura enquanto faz movimentos frenéticos com os quadris, e canta os primeiros versos do clássico, que batiza o terceiro e mais pesado disco do grupo. Outra atração especial da noite é a volta de James Williamson, que não tocava com os Stooges desde a dissolução do grupo, em 1974. O guitarrista não participara da reunião da banda em 2003, e retorna agora para substituir o também lendário Ron Asheton, falecido em janeiro deste ano. Williamson é voraz. Sua guitarra é pesada e seus riffs, contínuos, diferente da clássica wah-wah de Asheton, mas não menos boa.

Iggy está com tudo. Ao final da primeira música, talvez confundindo o português com o idioma italiano (onde usa-se a mesma saudação para o cumprimento de encontro e despedida), diz um “Tchau Paulistas”. Sem pausas, a banda engata na seqüência Kill City, música que também nomeia o disco feito em dupla por Iggy e Williamson em 1975. Mal a música acaba, a banda segue com Search and Destroy, outro clássico lendário de Raw Power. A plateia está atônita, pula, ergue os braços. Iggy corre e se agita pelo palco. Jovens com idade três vezes menor que a de Iggy olham perplexos enquanto entoam os versos do refrão.

Um jovem pula para o chiqueirinho dos fotógrafos, que divide a platéia do palco, e prontamente é agarrado por um segurança que tenta devolvê-lo para a platéia. Outro segurança vê e agarra o garoto de volta para o chiqueirinho. Logo se juntam quatro outros seguranças, totalizando seis, que dão pontapés e, de maneira excessivamente bruta, retiram o garoto do palco pela lateral. Era só a primeira prova da violência desnecessária que os seguranças iriam praticar até o final do show. Iggy vê a cena e ainda cantando se indigna, aponta para os seguranças e diz um “let him off” que é ignorado.

A banda dá seqüência ao show com Gimme Danger, também de Raw Power, e Cock in My Pocket, música dos Stooges presente apenas no álbum Metallic KO, um disco ao vivo não-oficial que contém diversas músicas que provavelmente originariam um quarto álbum da banda antes de sua dissolução: quarto álbum este que acabou sendo The Weirdness, de 2005, com músicas totalmente novas e sem James Williamson no grupo. O álbum não fez muito sucesso entre público e crítica – talvez este seja mais um dos motivos da banda não ter executado nenhuma música deste durante o show.

“Just a few guys”

É então que Iggy convoca as pessoas para subirem ao palco, tomando o cuidado de dizer para subirem “apenas alguns caras”.  A chamada surte efeito, mas o aviso não. Aos poucos os fãs vão subindo.


“Just a few guys”: Será que alguém obedeceria?

Estou próximo à grade do público, frontal ao palco. Pessoas me empurram para tentar subir e outros incentivam e ajudam os corajosos que se arriscam. Meu amigo resolve subir. Com minha ajuda e a de outros fãs que estão na mesma área, ele consegue passar a grade e ir em direção ao palco. A banda toca o início de Shake Appeal. Uma atmosfera de caos, rebeldia e êxtase toma conta do concerto. Os fãs que chegam primeiro ao palco pulam, dançam e tentam chegar perto de Iggy, nesta hora cercado por dois seguranças. Resolvo ir também. Me apoio em fãs que estão ao lado e consigo aos poucos transpassar a grade e cair meio de lado no chão do chiqueirinho. Iggy tenta cantar a música, mas já são tantas pessoas que ele mal consegue segurar o microfone. Os seguranças ajudam e Iggy se recompõe e recomeça a cantar. Corro até a escada que leva ao palco. Seguranças bloqueiam a entrada e tentam evitar com que mais pessoas subam. Neste momento, já são diversos fãs por ali. Algumas poucas garotas se arriscam na aventura. Vejo fãs subindo pelas caixas de som do lado direito. Corro até lá e vejo um segurança tirar uma das caixas que serviam como escada para o palco. Consigo pular até uma caixa de som maior, apoiar o pé e encostar a mão na beira do palco. Fãs de cima ajudam os de baixo a subir. Finalmente estou em cima. Olho para a multidão na platéia. Dezenas de jovens dançam e pulam no palco. Vou até o baixista Mike Watt e agito os punhos, demonstrando estar realmente gostando daquilo. Ele se anima, faz uma cara de êxtase e se agita enquanto toca. Vou até o baterista Scott Asheton e o chamo. Ele continua tocando com seu boné e óculos escuros e não me dá a mínima. Ia pedir uma baqueta, mas desisto. Percebo que o guitarrista James Williamson foi para o fundo do palco e toca protegido por seguranças. Iggy canta a música enquanto diz várias vezes “thank you” e literalmente abençoa os paulistas com um “bless you”.

Decido que preciso ir até Iggy. Quase que irracionalmente corro na direção de onde a voz surge. Não consigo vê-lo pelo número de pessoas que estão em sua volta. Abro caminho no meio da multidão do palco com empurrões e desvios de ombro e logo estou perto de Iggy. Tudo isso dura poucos segundos. Me sinto nervoso e emocionado. Vou até Iggy, onde seu segurança pessoal faz uma barreira humana para que ele consiga cantar sem ser constantemente abraçado e ter o microfone arrancado de suas mãos. Alguns jovens tentam se aproximar a todo custo. Estico minha mão para Iggy para cumprimentá-lo. Ele retribui o aperto de mão e me arrepio. Estou apertando a mão de uma lenda viva do rock. Estou apertando a mão do cara que rolou sobre cacos de vidro e andou sobre as mãos da plateia lambuzado de manteiga de amendoim no lendário show de Cincinnati em 1970. Hesito em soltar sua mão. O segurança afasta meu braço e solto. Estou extremamente feliz. Pulo do palco em direção a escada comemorando e agitando minha camiseta preta e antiga com uma foto de Iggy e o logo dos Stooges. Pulo no chão e tento voltar para a platéia.

Fãs invadem o palco e se aproximam de Iggy - Foto: Lucas Lima/ UOL

O troféu: registraram o aperto de mão. [ Foto: Lucas Lima/UOL ]

Os seguranças distribuem sopapos e carregam os invasores pra fora com rispidez. Querem esvaziar o palco e abusam da truculência e do excesso de força. Tento voltar para meu lugar antigo, mas é impossível. Corro até o lado direito da grade, um pouco mais afastado de onde eu estava, mas ainda perto do palco. Os fãs me ajudam a voltar, sob meus argumentos de que se continuasse ali acabaria apanhando dos seguranças. A música rola a toda no palco enquanto alguns fãs saem por conta própria. O palco vai se esvaziando aos poucos. A música se acaba e o saxofonista faz um solo enquanto os últimos fãs são retirados. Iggy pergunta se pode seguir em frente “como uma sex machine”, parafraseando James Brown. É então que um jovem cabeludo chega perto de Iggy, o agarra e beija. Instantaneamente diversos seguranças o separam de Iggy, e o garoto cai desmaiado. (Mais tarde, em uma comunidade do Orkut, descobri que o jovem desmaiara por fingimento, para não apanhar dos brutos seguranças).

Finalmente a multidão é controlada. A coisa toda dura menos de dez minutos, mas parece uma eternidade. Com o palco livre, a banda começa Loose, também de Raw Power. Na seqüência atacam de 1970, do segundo álbum dos Stooges, Funhouse. Os versos iniciais da música dizem “Out of my mind, Saturday night”. É exatamente o que acontece naquela noite de sábado com todos esses fãs. E Iggy continua: “Baby oh baby, burn my heart, fall apart, all night ‘til I blow away… I feel alright, I feel alright”. É a música perfeita para descrever o que acontece naquele show.

A banda continua com Funhouse, do segundo disco, e Night Teme. Na seqüência Skull Ring, música do homônimo disco solo de Iggy de 2003, e Johanna, outra das músicas que estão no Metallic KO e não saíram em nenhum álbum oficial.  O show continua com I Got a Right, que não consta em álbuns de estúdio, mas pode ser encontrada em discos ao vivo dos Stooges e da carreira solo de Iggy. Em seguida, ele puxa o microfone e diz que a próxima música será para o falecido Ron Asheton, e então grita “DOG!” bem alto; o suficiente para todos perceberem que a próxima música seria o clássico absoluto dos Stooges – I Wanna Be Your Dog – única música do primeiro disco tocada no show. A banda inicia a música e a platéia se inflama. Iggy incita o público e corre pelo palco. É uma grande apoteose do rock.Wanna Be Your Dog é um verdadeiro hino punk. Iggy canta e, na hora do refrão, aponta o microfone para a platéia cantar junto. Ao meu redor, diversos jovens pulam. Garotas sobem nos ombros dos amigos e namorados e mãos seguram câmeras que registram o momento histórico. Iggy se ajoelha e continua cantando. Joga o microfone e rola pelo chão. Levanta as mãos e anda de quatro enquanto a banda toca e incendeia o palco. A platéia volta a cantar alto conforme Iggy aponta o microfone para eles. A música desacelera, e Iggy canta alguns versos como se estivesse pregando, para na seqüência dar vazão a um estouro sonoro que dura do último refrão até o final, com a batida nos pratos de Scott Asheton. O público grita “Iggy, Iggy” e o Iguana soca o ar e anda pelo palco enquanto faz pose. Aos poucos, a banda sai do palco e os roadies chegam para arrumar as coisas. Era muito óbvio que haveria o bis: cerca de três minutos depois, a banda retorna e a platéia vibra. Iggy diz “I Love You” e distribui beijos. A música da seqüência é Five Foot One, canção da carreira solo de Iggy presente no disco New Values, de 1979.

Gran finale

A música acaba e Iggy berra para os Stooges tocarem a “maldita” Passenger. Williamson dá os primeiros acordes e o público parece não acreditar. A música faz parte de Lust For Life, segundo disco solo de Iggy, feito em parceria com David Bowie. A platéia delira. Percebo que estou realmente emocionado por ouvir uma das músicas mais bonitas da história executada ao vivo por uma lenda. Todos olham com atenção e cantam trechos da música. O público canta em uníssono com Iggy no clássico refrão (“la la la la la la la la”). A música acaba e Iggy bate com o pedestal no chão do palco, enquanto grita e anuncia que a próxima canção é Death Trip, última faixa do Raw Power, mas não a última do show.

gran finale fica por conta de um dos maiores clássicos de Iggy em carreira solo, e ele faz questão de berrar e anunciar “Lust for life” a plenos pulmões. A bateria e o baixo iniciam os acordes e Iggy canta sobre “Johnny Yenn com a bebida e as drogas”. Sua calça já está quase toda caída, na altura dos pelos pubianos. Sua bunda está praticamente inteira de fora e seus famosos cabelos loiros na altura do queixo estão completamente molhados, como também está ele, enquanto canta seu “tesão pela vida”.

Esse provavelmente também era o pensamento de cada um daqueles fãs presentes ali naquele show de sábado, 07 de Novembro de 2009. Era esse o sentimento geral após a banda tocar a última nota da noite e fechar a série de shows do festival Planeta Terra com chave de ouro. Iggy anda pelo palco com as calças caindo, agradece ao público de braços abertos e saí de cena, seguido pelo resto da banda. As drogas e a bebida podem ter diminuído ou cessado, mas Iggy Pop com certeza ainda tem muito tesão pela vida.