Um NxZero muito mais maduro aparece no especial da Multishow, lançado no dia 25 de janeiro desse ano. Longe de mostrar a imagem repetitiva em que focam as reportagens saídas até hoje (especialmente as de grandes veículos) a respeito dos meninos, Sete Chaves – Registro dá voz a todos os membros da banda, agora mais familiarizados com o sucesso durante turnê e gravação do último álbum, Sete Chaves.
Imagens de quatro anos de estrada comentadas por Diego Ferrero, Conrado Grandino, Daniel Weksler, Filipe Ricardo e Leandro Rocha, que transformam as horas maldormidas na estrada, as viagens pelo Brasil, o difícil processo de divulgação e “defesa” dos discos e o dilema da repetição de perguntas por parte da mídia em um material emocionante para fãs e, por que não, não-fãs da banda. O segredo é deixar os preconceitos de lado desde o início e curtir o vídeo como se fosse parte da tal “família NX”.
a propósito: Eu mesma, depois de assistir ao programa e ao making of das gravações do disco, resolvi dar mais uma chance ao álbum – que, na maior das vibes xiita rock’n'roller, não havia conseguido ouvir por inteiro nenhuma vez.
NXZERO – SETE CHAVES
Multishow Registro
Direção de Daniel Ferro e produção de Rick Bonadio, com imagens de César Ovalle.
DVD com Programa + Clipes + Making Of das gravações
Arsenal Music + Multishow + Universal Music
120 minutos – LIVRE
Em 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos viram 200 mil pessoas marcharem sobre a capital Washington, invadirem o espelho d’água e declamarem discursos que entrariam para a História – tudo em nome da igualdade racial. O evento ficou conhecido como “Marcha sobre Washington por empregos e liberdade”. Organizado por ativistas dos chamados “direitos civis” e por grupos religiosos, a marcha pressionou o Governo Kennedy a encaminhar o “Ato dos Direitos Civis” ao Congresso. Porém, o assassinato de JFK em 22 de novembro do mesmo ano acabou atrasando a aprovação da emenda pelos congressistas americanos, feita em 1964 por Lindon Johnson e seguida pelo “Ato de Direito de Votos”, em 1965.
“I had a dream” – o mais famoso discurso do líder Martin Luther King Jr. - foi ouvido pelos milhares aglomerados nas escadarias do Memorial Lincoln e por Bob Dylan, que participou do evento acompanhado pela cantora e ativista Joan Baez, apresentado como “um cantor de Nova York”. Bastante envolvido com a agitação política da época, Dylan cantou “Only a Pawn in Their Game”, do seu terceiro e mais politizado álbum “The Times they are a-changing”.
Escrita sobre o assassinato do ativista Medgar Evers, a música apresenta o algoz, Brian de La Beckwith como “apenas um peão no jogo deles” e também uma vítima “do sistema que ensina o ódio”:
“O deputado, o xerife, os soldados, os governadores são pagos / E os delegados e policiais recebem o mesmo / Mas o pobre homem branco é usado / Nas mãos de todos estes como uma ferramenta/ Ele está preso em sua educação / Desde o inicio pela regra / Que a lei está com ele para proteger sua pele branca / E manter o seu ódio para que nunca pense direito / No estado que ele está / Mas não é ele o culpado / Ele é apenas um peão no jogo deles”
Outra canção de 1963, “Blowin’ in the wind” tornou-se o hino da luta pela igualdade racial. Os famosos versos “how many roads must a man walk down/ before you can call him a man” transformaram Dylan em uma espécie de líder espiritual, um profeta dos tempos modernos, cujas músicas carregavam implicações e alusões políticas em cada palavra – um papel que o jovem cantor nunca se sentiu apto a desempenhar. “Eu não penso quando escrevo. Eu só reajo ao que está a minha volta e coloco no papel. O que há em minhas músicas é um chamado à ação”.
Bob Dylan chegou em Nova York em janeiro de 1961, com os objetivos de se apresentar na cena local e também visitar o músico que mais o influenciou, do sotaque às letras engajadas tudo foi emprestado de Woody Guthrie.
Guthrie era, junto com Peter Seeger, o principal representante da chamada “canção de protesto” (topical song) dos anos 40 e 50: música socialmente engajada, feita com arranjos de folk e fortemente influenciada pelo pensamento de esquerda. Uma década depois, a canção de protesto perdeu parte da sua orientação política esquerdista e adquiriu um espectro mais amplo, englobando as noções de “direitos iguais para todos” e “paz”. Tal mudança ocorreu também nos movimentos sociais como um todo.
E foi no Greenwich Village dos anos 60, em meio ao burburinho de conversas, poesia e fumaça dos cafés, que a lenda de Bob Dylan foi construída. Fervilhante de juventude, política e arte, o bairro era o principal reduto da boemia intelectual da época, que não fazia muita distinção entre platéia e artista – praticamente qualquer um poderia subir no palco e fazer um discurso, declamar um poema ou cantar suas canções. Jack Kerouc, Allen Ginsberg e Dylan Thomas beberam e escreveram nos balcões do Greenwich Village, os quatro membros do “Mamas and the Papas” se conheceram e começaram a carreira no Village, bem como o Velvet Underground, Joan Baez e Jimi Hendrix.
Inicialmente conhecido no meio musical por “cantar músicas do Woody”, Dylan logo começou a delinear seu próprio repertório e estilo. Apesar e talvez exatamente por isso, a primeira música do seu primeiro álbum – “Bob Dylan”, de 1962 – seja “Song to Woody” (Canção para Woody):
“Hey, hey Woody Guthrie, I wrote you a song/ ‘Bout a funny ol’ world that’s a-comin’ along./ Seems sick an’ it’s hungry, it’s tired an’ it’s torn,/ It looks like it’s a-dyin’ an’ it’s hardly been born./ Hey, Woody Guthrie, but I know that you know
/ All the things that I’m a-sayin’ an’ a-many times more./I’m a-singin’ you the song, but I can’t sing enough,/’Cause there’s not many men that done the things that you’ve done.”
Poeta, beatnik, porta-voz do inconsciente coletivo, bardo, ídolo do folk, profeta, gênio, louco, cantor de protesto, traidor, aquele-que-canta-like-a-rolling-stone. Todos os rótulos acima cabem em Robert Allen Zimmermann, neto de judeus-russos nascido em Dulluth, Minnessota, em 1941.
Todos e nenhum, já que Bob Dylan, forjado na efervescência cultural novaiorquina dos anos 60, despreza rótulos. O certo é que Dylan traduziu em muitas de suas letras o espírito de uma geração. Utilizando-se de uma sonoridade tradicional, profundamente enraizada na cultura musical americana, Dylan cantou sobre episódios contemporâneos: a Crise dos Mísseis (1962) entre Cuba e EUA, a luta pelos Direitos Civis, cujo expoente máximo foi Martin Luther King e, em um nível maior, sobre as profundas mudanças sociais, culturais e comportamentais da época.
Sua infância, nos anos 50, foi marcada pela paranóia nuclear da Guerra Fria. Mesmo na pequena cidade de Hibbing, perdida nas planícies do Meio-Oeste, pessoas construíam abrigos e crianças realizavam treinamentos em escolas, esperando pelo apocalipse nuclear que nunca veio. Anos depois, no mesmo ano da chamada “Crise dos Mísseis” em Cuba, Dylan compôs “A hard rain’s a-gonna fall” (Uma chuva forte vai cair)
“And what did you hear, my blue-eyed son?/ And what did you hear, my darling young one?/ I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’/Heard the roar of a wave that could drown the whole world/ Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’/ Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’/ Heard one person starve, I heard many people laughin’/ Heard the song of a poet who died in the gutter/ Heard the sound of a clown who cried in the alley / And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard /And it’s a hard rain’s a-gonna fall.”
A chuva seria, para o entendimento da maior parte dos que viveram naquela época, negra e radioativa:“Em 1963, Dylan escreveu “A Hard Rain’s a-gonna fall”, que descrevia a situação vivida pelo público naquele momento – medo, antecipação, preocupação, amargura e temor. O próprio Dylan disse que aquela era “uma música de terror. Linha após linha tentando capturar aquele sentimento de desolação”. Sua música traça paralelos entre o que acontecia nos EUA e o imaginário usado pelos profetas bíblicos para descrever “destruição e desolação” (BLANTON, Amy, Bob Dylan: An impact on American Society in the 60′s, 2001.)
Em uma de suas famosas coletivas de imprensa, Dylan mais tarde desmentiu a versão de que a música fosse sobre uma hecatombe nuclear. Na verdade, “A hard rain’s a-gonna fall” foi lançada quase um mês antes que John F. Kennedy fosse à televisão, em rede nacional 1 anunciar a crise com Cuba. Apesar de irritar-se com o sentido profético atribuído a muitas de suas canções, Dylan tinha o raro dom de sentir o pulso da sociedade da época, fazendo com que letra e música escapassem do controle autoral e se tornassem obras coletivas.
Para ir além:
Blanton, Amy. Bob Dylan: An Impact on American Society in the 1960’. 2001.
Hobsbawn, Eric. Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SCADUTO,Anthony. Bob Dylan. New York: Grosset & Dunlap, Documentário “No Direction Home”, Martin Scorsese. 2005.
Documentário “Bob Dylan: Don’t Look Back”, D.A. Pennebaker, 1965.
Artigo “À procura de Bob Dylan”, Eurípedes Alcântara, Revista CULT, Março de 2008.