Pra onde foi a raiva?

A onda grunge completa duas décadas e segue ignorado pela mania dos revivals

Por Diego Sartorato
@sartoratoato

Agosto, setembro e outubro de 1991, há distantes 20 anos: chegam às lojas nos Estados Unidos Ten, Nevermind e Badmotorfinger, três álbuns que definiram uma geração inteira de hardrockers e headbangers que se uniram sob o selo do grunge. É difícil imaginar o por quê –comparando apenas os autores dos discos citados acima (Pearl Jam, Nirvana e Soundgarden, respectivamente), tudo que parece colocá-los no mesmo gênero é uma preferência algo exagerada por camisas de flanela e jeans rasgados.

Digno de nota: no caso de Eddie Vedder, do Pearl Jam, o desleixo com a indumentária virou “uniforme”. Foram pelo menos três anos com a mesma camiseta verde-musgo-bosta do clipe de Even Flow, para os shows de promoção do Ten e do álbum seguinte, Vs.

Aqui:

Ah, e aqui. Foram 11 anos com a mesma camiseta, então:

Todo o resto parece colocar as bandas chamadas grunges em categorizações distintas: estilo musical e influências, estética, ativismo político, abuso de drogas, relacionamento com as gravadoras e a mídia, e tudo o mais que vai na receita de uma banda de rock. Com exceção, talvez, de um componente que parece nortear ao menos os três primeiros discos das bandas que integraram o grunge: a raiva.

Abaixo: raiva.

É justo atribuir ao punk os “direitos autorais” sobre o rock hidrofóbico, mas há uma grande diferença de contexto. Nas décadas de 70 e 80 do milênio passado, o mundo era dividido pela guerra fria, conceitos como tradição e moral ainda tinham algum peso e a juventude estava afogada por famílias e governos autoritários. Adolescentes, sendo adolescentes, escolhiam lados ou pregavam o “não-lado” do anarquismo; se não, ao menos o fim da hipocrisia.

A raiva dos grunges não tinha lado nem alvo, era emputecimento puro e simples: suco aborrescente. É até difícil entender o que querem dizer a maioria das letras –longas discussões pela internet têm tentado resolver isso, sem sucesso. Aqueles gringos magricelas berrando, berrando e a gente não entendendo nada, a não ser que eles estavam realmente bravos com sabe-se lá o que. E, pra dizer a verdade, quem é que não está? Tanto faz, soa tão bem.

Passada a chatice do fim dos anos 80, o grunge catalisou um sentimento generalizado de desencanto, tédio e falta de futuro de uma década que prometia Califórnia e entregou, bem, Seattle. E então, um grito –a inquietação dos músicos grunges era a mesma de todos que queriam mandar o status quo à merda, no berro e no chute.

Era tanta gente que o alternativo virou mainstream – de 1991 a 1994, o que mais vendia discos no mundo era aquela barulheira ranzinza. Mas talvez pra nunca mais. Não voltou nem com a mania dos revivals que cobriu praticamente todas as décadas anteriores: dos 2000’s pra cá, apareceram bandas que ressoam acordes dos anos 50, 60, 70, 80… E os 90? Ao que tudo indica, não está nem por vir.

A bem da verdade, a culpa não é nem da geração atual: quem viveu o tumulto grunge e hoje está engravatado no escritório esperando a aposentadoria chegar sabe bem. Mas a impressão que dá é a de que desaprendemos a ser desordeiros, desbocados e inconseqüentes. Olhamos para o grunge da mesma distância e com a mesma indiferença que a galera do início dos 90 olhava para a bicho-grilagem dos Doors (duas injustiças).

Uma coisa, pelo menos, não mudou nos últimos 60 anos: cada vez que a banda predileta de um adolescente não deixa os pais de cabelo em pé (não que o Restart não faça isso, mas por outros motivos), o rock morre um pouquinho. Pode ser exagero (esperemos que sim), mas, do jeito que vai, mais uns 10 anos e nos lembraremos do grunge como “o último suspiro do rock n’ roll” –assim, com o “n’ roll” que caiu em desuso e vai ver que é bem a parte que anda fazendo falta.

Iates, mulheres, dinheiro, mulheres… 80 anos de Serge Gainsbourg

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(Por Diego Sartorato)

Tudo parecia já começar mal, muito mal. Nos alto-falantes, a voz de um funcionário do SESC Paulista anunciou solenemente: “é proibido fumar durante o show”. Mas antes que a ira anti-tabagista coloque o leitor contra mim, explico: choca o contra-senso de sentar para ouvir os rocks e “chansons” de Serge Gainsbourg sem poder acender um cigarro e mandar pra dentro uns bons goles de vinho. Sinal dos tempos politicamente corretos. Os shows, que ocorreram em todas as quartas-feiras de julho e serão encerrados com uma festa no dia 31 (ingressos esgotados), são parte da comemoração do ano da França no Brasil – que coincidiu com o aniversário de 80 anos do cantor. No fim das contas, não decepcionaram nem um pouco.

Por mais que já tenha passado da hora de aproveitar o evento, vale a oportunidade para correr atrás de conhecer o legado de um dos cantores mais influentes e originais do século passado. Todo mundo conhece pelo menos uma, “Je t’aime mon non plus”, notória pelos sussurros e orgasmo (supostamente genuíno) da modelo e então namorada Jane Birkin. A parceria com beldades no estúdio e entre quatro paredes foi uma constante na vida do boêmio Gainsbourg, que namorou e gravou dois discos com Brigitte Bardot. “Charlotte é o grande amor da minha vida que eu não posso levar para a cama”, dizia da própria filha.

Serge Gainsbourg & Jane Birkin

Serge Gainsbourg & Jane Birkin

Filho de judeus russos que fugiram da revolução comunista e criado em uma França sob ocupação do exército nazista, Gainsbourg misturou sua formação em música erudita com uma profunda admiração pelo rock n’ roll norte-americano (e toda a cultura yankee, evidenciada em canções como “Comic Strip” e “Bonnie and Clyde”), e mais tarde incorporou elementos de reggae e rap. Parece a união de todos os ingredientes de um fracasso flamejante, mas é Gainsbourg. E é bom demais.


Gainsbourg, The initials BB

Tudo isso pôde ser observado – sem cigarro e sem vinho, mas com as musas de sempre – nos shows de Edgar Scandurra et Les Provocateurs (lês provocatérs, pra pronunciar sem passar vergonha). Bons músicos, convidados interessantes como Fausto Fawcett, Arnaldo Antunes e Guilherme Arantes, e todo o clima mezzo mod, mezzo cult que a coisa toda propicia. Destaque para a ala feminina, uma personificação em três tempos de Melody Nelson, personagem lolitesca do álbum conceitual de mesmo nome lançado em 1971. A voz da ninfeta fica a cargo da esposa de Scandurra, Andréa Merkel. A juventude propriamente dita com a menina Juliana R, e a sensualidade com Bárbara Eugênia – que merece atenção redobrada para suas apresentações solo no Studio SP.

Difícil mesmo foi convencer o público paulistano a soltar as amarras pra entrar no clima da contra-cultura francesa dos anos 60. Ok, talvez seja pedir demais. Mas vale a pena correr atrás de ouvir o melhor de Gainsbourg o quanto antes para o caso de, ano que vem, acontecer um show de 81 anos. Dá tempo de decorar as letras, mesmo não entendendo nenhum dos versos de rebeldia, alucinação e promiscuidade, e não cantar em coro um “acunbensurdaletrasit” embolado no lugar do “Aucun Boeing sur mon transit” do início do hit L’ananamour.

serge-gainsbourg-paris-1970Pra conhecer mais (torrents, ativar):
Initials BB (1968)
Jane Birkin/Serge Gainsbourg (1969)
Cannabis (1970)
Histoire de Melody Nelson (1971)
Rock Around the Bunker (1975)
Love on the Beat (1984)