No mais: vida de artistas

Talento vezes cinco, esta é a composição do projeto musical 5 a seco que leva ao palco do Auditório Ibirapuera, esta sexta, e ao Teatro Rival, dia 28, grandes compositores paulistas com 20 e poucos anos

“Acho que só o Pedro Altério que não faz direito… eu, o Pedro Viáfora e o Tó [Brandileone] nos viramos. O Dani [Black] é melhor tecnicamente”, comenta Vinicius Calderoni, um dos cantores, violonistas e compositores do projeto 5 a seco sobre seus parceiros. “Pode por isso aí, vou adorar”, completa Dani Black. Na brincadeira os dois não falam sobre o motivo que os une a trabalho numa quarta a noite, mas sobre os passes de futebol que gravaram para o vídeo-convite do show que vão apresentar esta sexta-feira no Auditório Ibirapuera, com ingressos já esgotados. Risadas a parte, quando o assunto é música, eles se levam a sério e a admiração tem um pelo outro é o principal motor do projeto que eles formam.

São brincalhões, até porque ainda são novos. Na faixa dos vinte e poucos anos, eles levam uma leveza surpreendente ao palco. Apesar da pouca idade, apresentam talento já maduro, criatividade, apuro técnico e levam com seriedade a carreira. Tocam com sintonia no olhar e nas risadas. Ao mesmo tempo, são quase perfeccionistas e coordenam tudo com cuidado. Meio moleques, meio gente grande sabendo o que faz.

Vinicius e se conheceram no colégio. Tó conheceu Dani depois, que já conhecia Pedro Altério e Pedro Viáfora. De uma apresentação a outra, tornaram-se amigos e parceiros. “Todo mundo se admirava e gostava, muitos já eram parceiros quando, no final de 2008, aconteceu um convite para todos menos eu se apresentarem num bar na [rua] Melo Alves.” Vinicius conta rindo que sentiu dor de cotovelo e encontrou na sugestão do projeto uma forma de “vingar-se”.

A primeira ideia já veio sem protagonismo, tendo os cinco cantores, violonistas e compositores o mesmo papel. “São amigos que fazem a mesma coisa e tem um trabalho anterior”, resume Vinicius. Eles também tocam outros instrumentos nas apresentações, para criar uma “sonoridade autossuficiente, que possa se bastar”. “Autossuficiência, economia, daí vem essa ideia do 5 a seco, que também tem a brincadeira com a lavanderia”, conta.

O que começou com caráter esporádico para somente alguns shows ganhou público e demanda. “A gente cortou alguns caminhos e usou o que já estava solidificado no trabalho de cada um”, explica Vinicius. “A medida que deu certo e fomos chamados para mais shows, começamos a criar uma sonoridade própria.” Esta sonoridade específica do conjunto tornou-se marca, ao lado da presença de palco. O palco, por sinal, não é só uma plataforma para apresentação, mas onde tornam-se quase atores e praticamente dançam ao tocar. “Desde o começo tem uma ideia cênica do show. Nós mesmos trocamos os instrumentos e fazemos um pouco de contrarregragem, e tem uma questão de criar pequenas cenas, criar movimento”, conta. Para ele, esta organização teatral serve para que não seja um “simples amontoado de canções”.

Para o palco do Auditório Ibirapuera, espaço para 800 espectadores, o 5 a seco cresceu. “A primeira coisa que a gente fez foi ter uma voz de comando, sempre as coisas foram decididas conjuntamente”, explica Vinicius. “Já tínhamos nossa estrutura que era a Isabel [Sachs], nossa produtora, junto com as assistentes [de produção] Renata Cavalcanti e Marcela Katzin, o engenheiro de som Adonias Souza Jr. e o iluminador Pedro Altman. Agora trouxemos o Rafael [Gomes] para dirigir, junto dele veio a Monica Palazzo, diretora de arte que sempre trabalhou com cinema, e a Mari Leone, figurinista.” A equipe cuida de detalhes preciosos, como lembra Dani Black: “Pelo fato do show ser cru, os poucos elementos ganham grande valor”.

Com o tempo o som também cresceu e ganhou mais instrumentos. Um integrante soma à canção do outro e surgem detalhes novos. “A gente começa a ter ideias de arranjo e não é muito instrumentista, então a gente vai achando soluções para achar texturas”, conta Dani Black. Vinicius exemplifica: “O Tó toca acordeão? Não é acordeonista. Toca clarinete, mas não é clarinetista. A gente sabe se virar, criar alguma coisa para aquela canção. Tocar com a competência necessária para somar”. Da percussão à panelinha de água, Vinicius conta que “isso ajuda a nos desenvolver musicalmente, engrossar nossa sensibilidade.”.

A identidade de grupo que criaram deve-se muito ao respeito profissional que um tem com o outro. Eles se tratam com seriedade e reconhecem que trocam figurinhas. “Da minha parte, sempre vi o 5 a seco agregando mais quatro caras que individualmente me interessavam, eu gostava, me entendiam e me alimentavam”, afirma Dani. O Tó concorda: “É a hora em que eu me alimento da influência desses quatro caras maravilhosos tanto como compositores, quanto como amigos”.

E nenhum deles quer deixar a empreitada pessoal. Dani Black acaba de terminar seu disco, Vinicius está pré-produzindo o segundo, Tó Brandileone já está terminando também seu segundo e o Pedro Altério e o Pedro Viáfora estão começando seus trabalhos. Juntar a agenda de cinco músicos ocupados com seus projetos pessoais, que vão além da música, é a complicada tarefa da produtora. Se eles sabem como lidar com tanta coisa? “A gente ainda tá descobrindo”, Vinicius tenta explicar. “Não dá para se seguir caminhos já estabelecidos. Todo artista é um pouco bandeirante do bem, capinando sua própria estrada.” Já Tó Brandileone vê as coisas também do lado prático e com simplicidade. “É só combinarmos tudo com antecedência. A gente é muito amigo, se respeita muito. Não tem nenhum galho”, conta.

Mas agora é temporada de 5 a seco. Depois do show esta sexta-feira no Auditório Ibirapuera, os meninos vão tocar dia 15 de setembro num show da Luiza Possi (Teatro Bradesco, São Paulo). Dia 28 eles viajam para o Rio de Janeiro e se apresentarem no Teatro Rival. “Depois de um ano de shows, sinto que é hora de correr com o 5 a seco com força total; tanto do ponto de vista artístico quanto comercial”, instiga Tó. Mas os cinco ainda não estão acostumados com a resposta positiva do público. Pergunto como é desde que estouraram: “Não sinto que estourou ainda….”, medita Vinicius. Porque, claro, vídeo com mais de 13 mil visualizações e lotar o Auditório Ibirapuera com uma semana de antecedência é comum. Além de talentosos, são humildes e pé no chão. Pensando bem, eles já chegaram lá.

+Mais: É uma banda? Não tem CD? Já viu eles no YouTube? Se inspirou com alguma letra? Pra vocês, um pouco mais do 5 a seco.

Começou como um projeto, hoje em dia vocês arriscam me dizer que são uma banda?
Vinicius: Eu digo projeto porque como cada um de nós tem uma carreira solo e vai continuar tendo. Na verdade essa é a força do projeto: a força do trabalho pessoal e a força específica desta junção. A questão de chamar de projeto ou banda muda um pouco a medida que o 5 a seco ganhou muito espaço nas nossas vidas. O tempo de dedicação e espaço que está ocupando nas nossas vidas é comparável a uma banda, não é um absurdo chamar por este prisma, mas eu prefiro projeto pelo caráter de ser um caminho paralelo da identidade de cada um.

Pretendem gravar um álbum como 5 a seco?
Vinicius:
Com certeza, [mas] tem duas questões que impedem que seja tão imediatamente. Uma é as carreiras pessoais de cada um e também acho que o disco deveria ter muitas canções inéditas compostas especialmente. Deveria haver uma ideia, um trabalho focado. No ano que vem começa a ser uma coisa mais certa.

E, tendo toda essa característica de palco, pensam em gravar DVD?
Vinicius:
Sim, estamos pensando, algo talvez próximo ao disco, conjugado. O disco é diferente, e o show nasceu no palco, é feito para ser visto.

E como é esta exposição do projeto pelos vídeos no YouTube? Foi a grande janela para vocês, né?
Vinicius:
Uma coisa que tem desde o começo são os vídeo-convites. Criou-se uma demanda e a gente fez para todas as temporadas. A gente adora. O primeiro vídeo da primeira temporada a gente fez na casa do Tó. É um super despretensioso da gente tocando em casa.
Dani: Já deu uma volta legal do público, acho que aproxima as pessoas. Quanto mais próximo você tá de quem se interessa por você passa a existir uma conversa. E ninguém tá aqui para tá no palco e olhar de cima a plateia, mas olhar da mesma altura, é uma conversa mesmo.
Vinicius: E todos os vídeos convites tem uma de colocar a gente numas situações cotidianas, corriqueiras, que no final das contas tira um pouco essa ideia que, não sei se ainda paira, do artista como um cara inatingível.
Dani: Nós somos vocês, nós somos mais um da nossa geração, só que fazendo música, fazendo a nossa arte. Pelo menos era o que eu pensava em passar [risos]. Você concorda com isso? [Risos]
Vinicius: Acho que nem é tão pensado racionalmente, mas claramente tem esse peso…
Dani: Claramente tem essa leveza.

Ao Tó Brandileone: queria perguntar um pouco das composições. Algumas delas falam de relacionamentos, mas de uma forma muito próxima. O que te inspira? Do que você tira inspiração da vida real para compor uma canção?
Tó: O que me inspira é tudo o que respira. A cidade, pessoas e seus questionamentos, minha vida, a sua e a de todo mundo que passa por perto. Algumas das minhas músicas são desabafos, outras conclusões, conselhos, outras só literatura – ficção. Compor é uma loucura; um exercício solitário para vencer a solidão. É se sentir menos só. É ver que tem gente que sente as mesmas coisas que a gente. É se descobrir – e se mostrar. Sempre me perguntam o que é compor na minha visão cada vez eu respondo uma coisa, talvez eu não saiba mesmo a resposta.