#playlist: um adeus a Dio

Ronnie James Dio morreu no último domingo (16/05) depois de um intenso combate contra um câncer estomacal. Já não deve ser muita novidade para muitos de vocês. Lendo o comunicado da agora viúva Wendy Dio – encontrado no site oficial do músico – dá para notar que o fim do vocalista, prostado em uma cama sob a manhã californiana e o peso de seus 67 anos, não foi a coisa mais Heavy Metal possível. Mas o essencial é que o bom e velho James Dio se foi, amado como um bom esposo, filho e um estrondoso vocalista por todo mundo que fez a mínima parte de sua vida. Muitas coisas das quais muita gente nem sequer pode se orgulhar de ter alcançado em seu leito final.

O que fica como lembrança pessoal em minha mente não é tanto a genial colaboração entre James Dio e o lendário guitarrista e ex-Deep Purple Ritchie Blackmore (que deu cria ao Rainbow), tampouco sua fase no comando do Black Sabbath, responsável por criar uma banda com uma cara muito diferente da época de Ozzy Osbourne – muita gente jura de pé junto que o ex-Rainbow fez muito melhor do que o príncipe das trevas jamais teria alcançado. E não serei eu quem dirá não. Mas o que fica em minha mente é de fato algo um pouco bobo. Enfim. As capas da banda Dio, que o vocal criou em 1983, – e mais exatamente o álbum Holy Diver – foram as primeiras a levarem meus pais a acreditarem que o que eu ouvia era “música do capeta”. Lembrem-se que há coisa de 7 anos atrás, baixar música via Kazzaa ou emule ainda era algo complicado, e o Napster ainda era um vermezinho nos piores pesadelos do Metallica, o que nos obrigava a buscar cópias em pequenas espeluncas piratas e lojinhas questionáveis – uma baita aventura alternativa para minha turma do fundamental. As capas destes “piratones” eram de fato tão odiáveis em qualidade quanto o pior dos anéis infernais.

Fazer passar a mensagem que seu passatempo vai te levar à danação eterna é um rito de passagem comum a qualquer headbanger que se preste, e um fenômeno ao qual devo, em grande parte, ao bom e velho James Dio. Com respeito ao vocalista, nada mais justo do que deixar a playlist contar o resto da história.

Paranoid

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Estava eu secando o cabelo pra poder ir dormir (é, amigos, não durmam com seus cabelos gigantes molhados, sério!) quando, de repente, me vieram à cabeça os acordes de Paranoid. É, os primeiros e repetidos acordes do riff que preenche a música toda. Enfim, eu não sei por que cargas d’água me lembrei de Paranoid àquela altura, mas lembrei. E aí, (o melhor de tudo!) eu me fiz apenas uma pergunta: “Por que diabos eu havia me esquecido disso?”. E continuei cantarolando a música e competindo, no quesito “pior barulho”, com o ruído do secador.
Quer dizer, quando eu digo “esqueci”, não quer dizer que eu tenha me esquecido completamente. Se pegar a Neguinha ali no quarto e gastar algum tempinho nela, certamente eu lembro como tocá-la inteirinha de novo. E de novo. É simples, até. Mas a questão não é essa. A questão é: onde foi que eu deixei meu lado rocker? Sim! Fez todo o sentido pensar nisso agora.
Eu era pequena e a minha casa era cheia de fitas dos meus pais. Infestada de Beatles, Rolling Stones, Raul Seixas, Pink Floyd, BeeGees, Abba, Queen, um monte de coisa boa – e bizarra também (tinha umas fitas do Zezé de Camargo, mas essas a gente abafa!). Eu pirava no Raulzito, mas eventualmente também saia bradando por aí “We don’t need no education… We don’t need no thought control”. Porra, aprendi a falar inglês cantando, isso você pode perguntar pra qualquer um que me conheceu nova. E pode confirmar me ouvindo cantar por dois segundos e falando por dez. Eu ainda sou muito melhor no inglês cantado. Mas divago.

Eis que eu, ainda pequena, já era uma garota do rock. Tinha lá meus vinis da Xuxa, da Angélica, da Mara Maravilha, da Eliana, do Fofão, mas nunca fui muito da turma dos dedinhos. A única coisa que eu curtia de verdade além do Raul e daqueles caras que começavam a música com um puta som de avião fudido e moedas caindo era Zezé de Camargo um vinil do Vinícius de Moraes e do Toquinho. As fitas deram lugar a um CD player e eu, então lá pelos dez anos, ouvia Miucha, Tom Jobim, Chico Buarque… Mas preferia o Cazuza, Mamonas Assassinas, Raul, mais Raul, Raul de novo. Ouvia muita coisa quem nem sabia o que era, CDs loucos de rock que meu pai trazia e eu ouvia sem nem querer saber o que era, só querendo mesmo mais.
Foi assim que um dia meu pai chegou com um DVD player, quando isso não era nem comum. Tudo bem, ele trabalha com audiovisual, extremamente aceitável ter um treco desse em casa. Eu não via sentido naquele aparelho, afinal, O Rei Leão, que era meu vídeo favorito (shame on me, eu chorava com esse filme!) só funcionava no meu pré-histórico videocassete. Não foi difícil, no entanto, fazer com que o DVD passasse a fazer todo o sentido do mundo. Isso porque, junto com ele, meu pai criou uma coleção de clássicos duca. Elvis, Beatles, Rolling Stones, Jimmy Hendrix, Santana, Police… E, dentre os vários disquinhos, lá estava ele, o glorioso. Não tinha nome, ele mesmo havia gravado. Cheia de clipes antigassos de fazerem qualquer um mijar de rir. Eu ria. Até que dei de cara com um canhoto féladaputa. Ele segurava uma guitarra preta, chifrudinha, com cruzes nas casas. O cara era animal. E eu nem vou comentar minha reação diante do Ozzy gritando “Can you help me? Occupy my brain? Oh, yeaaaah”. É desnecessário descrever isso pra qualquer um que já teve uma mínima paixão por Black Sabbath. Pra quem não teve, é simplesmente indescritível, desculpe. Enfim, eu assistia àquilo várias vezes. Incansavelmente. Eu devorava Paranoid. Daí vieram as más influências, a vontade de integração, a Sandy e o Júnior gritando “vamo pulá!” e eu passei por uma fase negra chamada pré-adolescência, que nem comentarei aqui.
Um dia, exorcizadas essas minhas crises de pré-adolescente, decidi que aprenderia a tocar. Não queria um violão, queria uma guitarra. “Violão não é rock’n’roll”, minha inocência dizia. Coisas de menina. Caminhando pela Teodoro Sampaio, cabelos castanhos abaixo da cintura com suas pontas rosa-pink, sainha de sarja, regatinha roxa-halloween, olhos exageradamente contornados com o lápis preto, coturnão com cara de all-star, eu me deparei com ela. A Neguinha. Uma Epiphone SG Signature do Tony Iommi. Ninguém menos que o cara mais féladaputa do mundo. O cara que eu mais admirava. Um dos guitarristas mais fodas que eu já ouvi. Lá estava a guitarra toda pretinha, com as cruzinhas brancas gravadas nas casas e um preço que minha mãe certamente não pagaria – já que era suficiente pra comprar, no mínimo, 4 guitarras “normais”. Carinha de “por favor”, súplicas infinitas, um mimimi com a minha mãe – que tinha esperanças de que eu fosse aprender música pra tocar na igreja (hahaha!) – tentando explicar que aquela guitarra não significava nenhum pacto com o demo, pelo menos nenhum pacto meu.
Agora a Neguinha vive pedurada, dentro de sua bag, na lateral do guarda-roupas. No meu player não há nem sinal de algo parecido com Black Sabbath. A última vez que toquei Paranoid, gloriosa e perfeitamente, foi há incontáveis anos, numa banda só de meninas, “noite do Metal” lá no conservatório. Eu cresci e mudei pra caralho. Todo mundo muda. Eu não sou nem de longe xiita como eu era. Não. Já não brado Wasted Years por aí. Não consigo mais pensar em Sonata Arctica como a trilha sonora da minha vida (é, eu já pensei nisso!). Eu ouço Luiz Melodia, Mart’nália, eu morro por um bom samba hoje em dia. Mas não é que – eu descobri hoje – eu ainda gosto do bom e velho rock’n’roll? Tem mais, inclusive – eu acho que é isso que está faltando. Está faltando rock’n’roll na minha vida. Está faltando rock’n’roll no mundo, na atualidade. Já não se faz mais música como antigamente. Pelo menos eu acho que não. E eu tenho dó de quem nasce e não tem a chance de ouvir as coisas que eu ouvia. O Raulzito. Pink Floyd. Sabbath. Ozzy em toda sua glória. Não, hoje em dia eu não vejo nada disso por aí… Não há mais rock’n'roll como o de antigamente.

Mas quem tiver sugestões pra me provar o contrário, to aceitando. O que eu quero mesmo é agitar essa minha vida. Quem sabe eu não descubro a esperança pra contá-la pros meus filhos?

Enquanto isso, o clipe que me fez me apaixonar pela Neguinha: