#essencialbuns VIII: Nola, Down

NOLA, Down

Por Tiago Casagrande
@bereteando

O ÚLTIMO ÁLBUM

A vida não é assim. Existem muitos sabores. Muitos cheiros. Muitas pedras. Rios. Nuvens. Grama. Um único disco. Não é assim que funciona. Mesmo na prisão o pensamento jamais desacelera. Mesmo em três cachimbadas de haxixe as imagens não cessam. E que dizer do sono. A natureza não pode ser combatida e a música é a mais primeva das expressões artist- Um disco só. Um só. Um disco sozinho, eu sozinho, o armagedon antes de cortar fora as orelhas pra jamais localizar de onde vem os ruídos. La batalla del Armagedón se llevará a cabo justo antes del milenio. Já estamos perdidos.

Um único disco são tantos. De tantos, um? Os caminhos que me levam, o único que traço enquanto sigo. Um que seja infinito enquanto lado A e lado B, ou 74 minutos. Retorno longe: penso nas origens, but I’m experienced. I’ve been to a black sabbath. I was a fireball flaming the houses of the holy. My way is a silent way, with bitches brewing supremely in love. Minha mochila já tão carregada. Penso que precisaria de estímulo intelectual infindo e posso entender a ilimitude do jazz, mas ele não me compreende. Inteiro. Porque sozinho; um único, e por isso eu certamente frustrado. Se apenas um, que contenha não só a melodia, mas também a raiva. Harmonias para energizar lenhador, machadadas em coqueiros; todo homem é uma ilha. Há esquinas, mas todo caminho mostra que inevitavelmente estamos sozinhos.

I leave my woes at
stranger’s road dispose;
and let the sun back on my face.

~.~

No meu panteão, Black Sabbath reina soberano. Não apenas sentimento pessoal, também louvor histórico: sem o álbum homônimo de 1970, quarenta anos, não haveria qualquer heavy metal, quarenta anos. Tanto me acompanham que já faz parte da pele. Diz o nome de uma música e eu canto. HD informatável. Seus filhotes, hellspawns, são muitos; no meu altar, New Orleans, Louisiana vem logo depois de Birmingham, West Midlands, porque de lá veio o doom pantanoso e magnífico de Crowbar, e também a casa de máquinas com nome felino e guitarrista assassinado. 1995: New Orleans não era Seattle nem nunca será, mas a botecagem e camaradagem e as jams; tanto quanto. 1995 e as esquinas de New Orleans: “Le Bon Temps Roule” é o nome do bar que Pepper Keenan mantem lá. Um bom guitarrista, mas não exatamente grande; ou senão gigante por um disco; pelo trabalho que fez com Kirk Windstein e Jimmy Bower e Todd Strange, 3/4 de Crowbar à época, mais o imbecil-odiado-mas-irmão Phillip Anselmo — em NOLA, que outro nome poderia ter o primeiro disco do Down.

Anselmo ainda gritava pelo Pantera. Lá o clima andava tenso. Anselmo estava enfurnado no ópio e, no ano seguinte, 1996, teria uma overdose de heroína. O Corrosion of Conformity de Keenan, tanto quanto o Crowbar, eram (são) puro, e mero, underground. Elenco contextos, mas não é possível explicar: COMO foi possível que compusessem um disco TÃO brilhante. Não que não sejam dignos, mas tanto…? Do início ao fim, os riffs de Keenan são absolutamente brilhantes, memoráveis; provindos diretamente de oferendas a pai Tony Iommi. O vocal rouco e correto como jamais outra vez, seguindo o baixo como Ozzy havia ensinado. O baixo fora do caminho da bateria compassada, como que a de Bill Ward. Down não imitava Black Sabbath, mas nunca esteve tão próximo; o Sabbath nunca pôde ser tão raivoso, e raramente conseguiu aliar melodias tão simples, e honestas, e grudentas, numa obra fechada como em Nola. Audições comprovam o DNA do godfather Kirk Windstein, um gordo careca imenso de barba idem que não tem vergonha de admitir que tira suas harmonias das canções pop dos anos 60. Listo referências, mas é inútil, porque o amálgama único, e o timing correto, e as esquinas; Nola é um disco de stoner, flerta com o death, tem sludge em perfeita medida (que não se repetiria nos discos posteriores), e é colante e cantável como o groove metal desenvolvido no Pantera, e arrolo estilos e pouco importa, porque é exatamente isso que acontece quando se ousa descrever obras verdadeiramente únicas; sozinhas, últimas. Mesmo que haja uma equação, ela desaparece no ar. Os trabalhos mais perfeitos parecem perenes, como que sempre estivessem ali, aguardando apenas um avatar. É o caso. Em 19 de setembro próximo Nola faz 15 anos, e eu escuto como quando tinha 17, e posso cantar qualquer faixa, me arranca a tampa da cabeça que tenho backups nas unhas. Na minha igreja o teste do tempo é aplicado semestralmente em Nola, e os riffs não enfraquecem. E não trato de nostalgia. Tenho uma pilha de outros discos que poderiam ser mais significativos e evocar lembranças, e esse não evoca nenhuma, a não ser a sensação que tive ao escutá-lo pela primeira vez: ora incessante, ora demolidor, ora cativante e sensível e lisérgico, Nola seria uma coleção de ostras de titânio criadas a 15 mil metros de profundidade, se isso fizesse sentido. Não tenho disco que me cause prazer repetido e urgente e arraigado como esse, ou com letras que poemem tanto e em tantos períodos diferentes em mim; poderia escrutinar planilhas e encontrar similares rodando algoritmos, mas se único, se um só, é aquele que veio e não permitiu dúvida, e diante dela, riu.

No final de Swan Song, a última faixa do disco a ser gravada, Anselmo diz “Thanks”. Keenan responde, “No, thank you”. Eu tenho vontade de mandar os dois à merda, com toda gratidão que isso encerra.

~.~

Layne Stanley, um grande mestre que aceitou pagar o preço de uma vida de sangue obnubilado por substâncias tóxicas para realizar sua obra, deixou diversos bilhetes de suicida em suas músicas. Houvesse justiça poética, ou fossem estes os anos 20, e Anselmo teria morrido naquela overdose. (E Ozzy, em 1981.) O legado não é tão grande, ou comparável, aos de toda aquela conhecida casta que morreu drogada aos 27 anos; mas se ele, filho da puta, sobreviveu, também eu posso emprestar alguns, ou tantos versos. E mesmo prever grafado em lápide, a minha:

Dont regret the rules I broke
When I die bury me in smoke.

Porque se for pra escolher um só, que seja múltiplo, e pleno, e confuso e energético como eu planejei um dia ser. Como obra, estou longe. Enquanto ser vivo, aqui espelho.

o desafiado

Tiago Casagrande vive bereteando por aí. Impressiona com all your gardening needs, sua jardinagem ambient/eletronica, e cacto-liptus, um experimento de música, fotografia e poesia. Uma das cabeças do impop, tiago foi o responsável pela maior thread já vista no mailing dos vitroleiros, com o post sobre a gangue do Casca. E nem sabe disso.

nola para ouvir


se você acompanha via feed ou email, clique aqui para ouvir.

tracklist

1. “Temptation’s Wings”
2. “Lifer”
3. “Pillars of Eternity”
4. “Rehab”
5. “Hail the Leaf”
6. “Underneath Everything”
7. “Eyes of the South”
8. “Jail”
9. “Losing All”
10. “Stone the Crow”
11. “Pray for the Locust”
12. “Swan Song”
13. “Bury Me in Smoke”

//mais informações
//wtf essencialbuns?