Tiê cheia de amigos e um lançamento em parque aberto

Em entrevista dada ao Vitroleiros em setembro de 2010, a multitalentosa Tulipa Ruiz disse que estamos vivendo um momento de movimento na música. A pergunta era sobre as novas “panelinhas” do meio. “Não existe uma preocupação estética de um coletivo, mas existe um caráter colaborativo, que também não é uma coisa pensada, é completamente natural.”, responde a cantora.

Foto: Eduardo Gabriel | Focka.virgula.uol.com.br

Tiê – amiga de Tulipa – seguiu à risca o novo movimento. O álbum “A coruja e o coração”, lançado nesta sexta no Auditório Ibirapuera, traz grandes parcerias e regravações. Ela não é mais independente, em vários sentidos. A musa cresceu, virou mãe – da pequena Liz –, foi contratada pela grande Warner e agora tem uma banda de apoio.

A fase “Sweet Jardim”, disco de estreia da cantora lançado em 2009, parece ter ficado pra trás. De um disco voz, violão e piano, Tiê pulou para um segundo mais vivo e realmente colaborativo, como havia descrito Tulipa. Das onze músicas do novo álbum, somente duas são de autoria única de Tiê, diferentemente do primeiro disco, que era completamente autoral.

Três canções são regravações. Só sei dançar com você, que veio do primeiro disco da mesma Tulipa – “Efêmera” – é acompanhada lindamente pelo acordeon de Marcelo Jeneci. Mapa Mundi é do companheiro inseparável da moça, Thiago Pethit, de seu também disco de estreia, “Berlin, Texas”. E a terceira, um tanto mais inusitada, é Você não vale nada, clássico brega da banda Calcinha Preta, que ganha uma versão doce e comportada.

As parcerias não param por aí. O cantor uruguaio Jorge Drexler empresta sua voz em Perto e distante, uma das músicas que mais chama a atenção no novo disco, já que Tiê coloca o violão de lado pela primeira vez. E Hélio Flanders, o menino à frente do Vanguart, toca dobro em Hide & Seek. Sem contar com o coro de Tulipa e Pethit em diversas músicas.

LANÇAMENTO

No palco, os sete músicos – Plinio Profeta (guitarra), Gianni Dias (baixo), Naná Rizinni (bateria), André Henrique (violão), Karina Zeviani (backing vocal), Ana Eliza Colomar e Luciana Rosa (cellos) – festejavam a nova fase da moça de nome de passarinho.

Thiago Pethit e Tiê. Foto: Eduardo Gabriel | Focka.virgula.uol.com.br

O único de fora a participar foi Thiago Pethit, que cantou metade de sua própria canção. Ou melhor, Tulipa também deu sua contribuição. Ao Tiê apresentar a música que acabara de cantar, de autoria da amiga, e confessar não saber o que esta havia achado de sua versão, Tulipa gritou da plateia: “Amei!”.

Do primeiro disco, cinco canções entraram no repertório: Dois, Passarinho, Stranger but mine, Chá Verde e Assinado eu, nesta ordem. Mas o auge do show foi em Passarinho, em que a imensa porta por detrás do palco do Auditório do Ibirapuera se abriu, deixando todo o verde à mostra no fundo.

Quando fechou, três músicas depois, Tiê contou que ali começava a parte alegre do show. Revezando-se entre o piano e o violão e aproveitando o silêncio entre uma canção e outra pra fazer a plateia rir, a cantora embalou as divertidas Hide & Seek e Você não vale nada.

Os “bises”, como ela mesma pronunciou, vieram sem nem mesmo a banda sair do palco. “O salto é muito alto, vou economizar a caminhada”, soltou a sempre sincera Tiê. Assinado eu, hit do disco de estreia, deixou primeiro a plateia de coração aflito. O que fez A varanda de Liz – que já havia aberto o show – ressurgir com ainda mais contraste e alegria, fazendo jus aos inúmeros aviõezinhos de papel que enfeitavam o palco.

Assista abaixo a um trecho do espetáculo:

 

Meu nome é Tulipa

por Érika Kokay e Jessica Grant

Com vestido e bem à vontade, Tulipa Ruiz abre a porta de seu apartamento num pequeno prédio de três andares no centro de São Paulo. Ela começa a mostrar os cômodos: cozinha, sala, quartos, estúdio improvisado e banheiro onde grava algumas vozes. Os outros moradores não se incomodam com o som caseiro? “Sim, só podemos fazer música até às 22h30…”, conta. Tulipa é uma das raras artistas que abre a casa sem medo. Sua informalidade surpreende e avisa: ali mora uma artista tranquila.

Sentada na beira da sacada, fumando um cigarro, Tulipa conversou com o Vitroleiros sobre música infantil, panelinha e seu show carioca. Ela, que navega no cenário há alguns anos, mas só publicou seu álbum no começo deste, ganhou o público e a crítica com sua simpatia e originalidade. Filha de Luiz Chagas, jornalista e músico do Isca de Polícia, banda do Itamar Assumpção, Tulipa cresceu com a mãe e o irmão, em Minas Gerais, rodeada pelos discos do pai. Mas seguir a carreira familiar – o irmão Gustavo Ruiz também é músico – nunca foi óbvio para a cantora, que antes de se aventurar nas notas musicais trabalhou como jornalista e também como ilustradora, ofício que exerce até hoje. O trabalho dela pode ser visto no seu ateliê virtual, na capa de seu disco e de álbuns de bandas como Felixfônica e Esquema P.

A voz fina de sereia se complementa nas faixas do seu CD de estreia, Efêmera, com várias feras. O pai guitarrista toca e divide a composição de duas músicas. O irmão (que, vale dizer, também é guitarrista) cuidou da produção. O disco também conta com as Negresko Sis (Céu, Thalma de Freitas e Anelis Assumpção), Mariana Aydar, Tiê, Tatá Aeroplano, Donatinho, entre outros.

Com um álbum de apenas alguns meses de vida, Tulipa não pensa em um próximo lançamento por enquanto. “Quero fazer muitos shows do disco ainda”, diz. E eles não param mesmo: na próxima quinta-feira (29), a cantora se apresenta no Studio SP, em São Paulo à 1h da manhã. Dia 29 é a vez do SESC Bauru e 08 de outubro, do SESC Araraquara.

Abaixo, confira a variedade de Tulipa Ruiz no bate-papo com o Vitroleiros.

Você já escolheu em algumas playlists da vida a música “Bolacha de Água e Sal”, do grupo Palavra Cantada. Qual a sua relação com música para crianças?
Eu sempre gostei muito do grupo Rumo, que é da Ná Ozzetti e do Luiz Tatit. Era um grupo que estudava a melodia da fala. Daí surgiu o Palavra Cantada, do Paulo Tatit [e Sandra Peres], que também trabalha com isto. Eu lembro que eu fiquei louca quando eu ouvi o disco do Rumo pela primeira vez. Eu tinha uns 13 ou 14 anos e achei aquilo a coisa mais genial do mundo. E, na verdade, eu sempre tive vontade de fazer música para crianças, e acabou sendo tema do meu TCC [Tulipa se formou em Comunicação em Multimeios na PUC-SP]. O nome do projeto era “A Lenda do Rio Verde e Outras Brincadeiras”. Rio Verde é o nome do rio que passa em São Lourenço (MG), onde fui criada. E o TCC foi 12 músicas para crianças, incluindo essa lenda do rio. E fiquei muito tempo estudando o que é, como fazer, como seria um projeto gráfico de música para crianças. Tudo isso sempre me interessou muito. Além disso, antes de eu largar a Comunicação, eu trabalhei num projeto que criou o museu de cantigas de ninar do Auditório do Ibirapuera, chamado Acervo Acalantos. Tem um acervo lindo com cantigas de ninar do mundo inteiro. Então sempre foi uma coisa que me despertou muito interesse. “Bolacha de Água e Sal” é uma música que eu sempre escolho quando estou discotecando em algum lugar. E já virou até uma brincadeira entre amigos. O Dudu Tsuda, por exemplo, quando tá discotecando e eu chego no lugar, ele põe essa música [risos].

Você participa do Novos Paulistas [junto a Tiê, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda e Thiago Pethit]. Tem também uma música sua no projeto Geração SP, que reúne novos nomes da cena musical paulistana. Como você vê esse novo grupo na música de São Paulo? Acha que a é algo natural?
No meio do ano passado, um antropólogo americano estava fazendo uma pesquisa sobre a música brasileira e me ligou perguntando se ele podia me entrevistar. Achei engraçado porque eu não tinha nem disco. Perguntei: “Como você chegou até mim?”. E ele disse que chegou ao Brasil, pegou o Guia da Folha e chamou todas as pessoas que estavam no Guia. Então, eu não vejo a gente como um movimento, nem nada. É um momento dentro da história e da linha do tempo na música em São Paulo. Realmente, se você abrir um guia cultural dessa semana, vai estar toda essa galera que tá fazendo música aqui em São Paulo: Tiê, Tatá Aeroplano, Juliana Kehl, Luísa Maita, Karina Buhr… São pessoas que estão fazendo shows em São Paulo hoje, assim como tinha a galera dos anos 90. O que eu acho que tem hoje de diferente é que essas pessoas vivem em um universo colaborativo muito grande. Por mais que nossas músicas sejam diferentes, nós já fizemos shows juntos, somos todos amigos. Nossos músicos tocam nas bandas uns dos outros, e acaba tendo uma troca de figurinha muito grande.

A impressão de quem vê de fora é de que existem “panelinhas” na música. Você vê assim?
Eu não vejo, não. Apesar de eu vir de uma panelinha, já que fiz faculdade com o Dudu Tsuda e conheci o Tatá Aeroplano na mesma época. Daí eu apresentei o Dudu pro Tatá, e o Dudu me apresentou pra Tié, e por aí vai. Então tem essa coisa de círculo de amigos, mas que se encontram no cinema antes de pensar em fazer música. E tem encontros também que foram musicais. A Andreia Dias, por exemplo, é amiga porque meu irmão era da banda Dona Zica com ela. E eu percebo que o que tá rolando aqui tem uma conexão com o Rio de Janeiro também. E com Recife, Belo Horizonte… Então é um momento de movimento na música. Não existe uma preocupação estética de um coletivo, mas tem esse caráter colaborativo, que também não é uma coisa pensada, é completamente natural. Pode ser uma “panela”, mas é uma “panela” sem tampa, sabe? Que pode entrar mais gente a hora que quiser.

Quando você abriu o show do Otto, no Circo Voador (Rio de Janeiro – RJ), O Globo fez uma resenha sobre o show, mas falou basicamente de você. Sobre o Otto, tinha um parágrafo só no final. Como foi tocar no Rio?
Foi muito bom ter feito este show no Rio, logo depois do show no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, onde eu lancei o disco [Efêmera]. Eu acho que o disco disparou muito rápido, as pessoas lá no Rio já estavam ligadas no disco. E tem gente carioca participando dele: tem o Duani, que é do grupo Forróçacana e é um popstar no Rio, tem o Stephan San Juan, baterista da Orquestra Imperial e da Vanessa da Mata, e tem o Donatinho, que é o filho do João Donato. Então, o disco já havia chegado lá e, pra melhorar, eu cheguei com músicos cariocas. Por eu ter crescido em Minas Gerais, acho que meu som não é totalmente paulistano, embora eu seja filha de um cara da Vanguarda Paulistana [Luiz Chagas], guitarrista do Itamar Assumpção. Antes do show, o Donatinho e o Duani falaram pra mim: “Olha, o Circo Voador é difícil, o Rio é difícil. Não fica nervosa. Se você achar que a galera ta meio blasé, vira pra gente e vamos fazer um som a gente mesmo e se divertir. Não se preocupa”. O Duani ainda combinou comigo que a banda ia começar fazendo uma introdução grande e quando a galera tivesse mais perto do palco, eu ia entrar cantando. Mas quando eu entrei, todo mundo já tava cantando junto. E a gente ficava se olhando durante o show, impressionados, não esperávamos que isso fosse acontecer. Surpreendeu a gente mesmo, e foi um show totalmente quente e delicioso, com uma recepção linda. Então eu não entendo essa coisa que falam que o público carioca é frio e blasé.

Você diz que sua música é um “pop florestal”. O que é isso?
Acho que tem muito a ver com esse negócio de eu ter vindo de Minas e estar fazendo show aqui em São Paulo. Esse encontro da natureza com o concreto, do Clube da Esquina com a Vanguarda Paulistana, do chá com a coca-cola, e todos esses duplos. Meu som é violão e guitarra, é a natureza e a cidade juntas, é um cross-fade entre essas duas coisas. Mas é também uma brincadeira, porque é muito engraçada essa coisa de escolha de gênero. Um dia desses, eu tava vendo uma entrevista de 1965 com o Gilberto Gil, e perguntaram se ele era folk. Em 65, o cara já tava com preguiça de responder que gênero ele tocava. E é muito louco, porque você pode acordar um dia querendo fazer música caipira, e ao meio dia você é folk, às duas da tarde você acha que é forró e à noite você tá fazendo rock, entendeu? Então o pop florestal é a mistura de tudo isso. É forró, é baião, é rock, é música eletrônica e é meio que eu tirando um barato com todos esses gêneros. É uma porta de entrada: que entrem os gêneros todos.

Você lançou o disco, e fizeram várias resenhas sobre ele. Você lê todas? Você disse que acha difícil definir um gênero pra você, como você encara as formas como te definem na mídia?
Eu leio muito, sou super ligada nas coisas que saem e sou ativa nas redes sociais, estou sempre por dentro de tudo. É engraçado, você faz o seu trabalho, e cada pessoa vai decupar da sua maneira. Existe uma necessidade de comparar para conseguir definir. Então, “ah, parece Gal Costa, lembra Tropicália”. As pessoas precisam disso para poder entender. E a gente é um desdobramento de um monte de coisa, como a Gal é um desdobramento de um monte de coisa e a Carmem Miranda também. Só o Adão e a Eva saíram do zero, o resto é tudo um desdobramento. Eu acho sensacional ler as coisas que as pessoas escrevem. Tem um cara do Sul, eu acho, que escreveu que eu era uma “sereia boêmia”. Daí eu fiquei tentando imaginar o que seria isso e cheguei à conclusão de que metade pra baixo seria uma sereia, e metade pra cima seria a Rê Bordosa [personagem dos quadrinhos de Angeli] (risos). Então é bem divertido.
Hoje em dia você vive só de música ou ainda faz ilustrações?
Faço as duas coisas. Antes, o desenho estava um pouquinho na frente, agora a música está saindo na frente, mas ainda trabalho com as duas coisas. Eu consegui parar de trabalhar em horário comercial com o jornalismo. Mas a gente tem sempre que se reinventar, porque não é nada fácil viver de música. Hoje, eu tenho um ateliê virtual, por onde vendo meus desenhos. Acabei de fazer também a capa do disco de uma banda, que chama Esquema P, e deve sair no próximo semestre.

Você toca com seu pai e com seu irmão. Como é essa relação?
É bem tranquila, eles são meus professores. Eu cresci ouvindo os mesmos discos que o Gustavo, então nossas referências são muito parecidas. Os discos eram todos do meu pai. Então a gente curte o mesmo tipo de som, e eles são os meus mestres. Fica mais divertido do que qualquer outra coisa. A gente gosta de estar junto, fazendo música. Independente de sermos uma família, nós somos pessoas que gostam de coisas parecidas e se encontraram musicalmente.

E planos futuros?
Olha, eu tenho música pra vários discos. Mas disco novo eu vou pensar direito só no próximo ano. “Efêmera” tem só poucos meses de vida. Eu quero fazer muitos shows do disco ainda e tocar muita música nova antes de gravar.

No mais: vida de artistas

Talento vezes cinco, esta é a composição do projeto musical 5 a seco que leva ao palco do Auditório Ibirapuera, esta sexta, e ao Teatro Rival, dia 28, grandes compositores paulistas com 20 e poucos anos

“Acho que só o Pedro Altério que não faz direito… eu, o Pedro Viáfora e o Tó [Brandileone] nos viramos. O Dani [Black] é melhor tecnicamente”, comenta Vinicius Calderoni, um dos cantores, violonistas e compositores do projeto 5 a seco sobre seus parceiros. “Pode por isso aí, vou adorar”, completa Dani Black. Na brincadeira os dois não falam sobre o motivo que os une a trabalho numa quarta a noite, mas sobre os passes de futebol que gravaram para o vídeo-convite do show que vão apresentar esta sexta-feira no Auditório Ibirapuera, com ingressos já esgotados. Risadas a parte, quando o assunto é música, eles se levam a sério e a admiração tem um pelo outro é o principal motor do projeto que eles formam.

São brincalhões, até porque ainda são novos. Na faixa dos vinte e poucos anos, eles levam uma leveza surpreendente ao palco. Apesar da pouca idade, apresentam talento já maduro, criatividade, apuro técnico e levam com seriedade a carreira. Tocam com sintonia no olhar e nas risadas. Ao mesmo tempo, são quase perfeccionistas e coordenam tudo com cuidado. Meio moleques, meio gente grande sabendo o que faz.

Vinicius e se conheceram no colégio. Tó conheceu Dani depois, que já conhecia Pedro Altério e Pedro Viáfora. De uma apresentação a outra, tornaram-se amigos e parceiros. “Todo mundo se admirava e gostava, muitos já eram parceiros quando, no final de 2008, aconteceu um convite para todos menos eu se apresentarem num bar na [rua] Melo Alves.” Vinicius conta rindo que sentiu dor de cotovelo e encontrou na sugestão do projeto uma forma de “vingar-se”.

A primeira ideia já veio sem protagonismo, tendo os cinco cantores, violonistas e compositores o mesmo papel. “São amigos que fazem a mesma coisa e tem um trabalho anterior”, resume Vinicius. Eles também tocam outros instrumentos nas apresentações, para criar uma “sonoridade autossuficiente, que possa se bastar”. “Autossuficiência, economia, daí vem essa ideia do 5 a seco, que também tem a brincadeira com a lavanderia”, conta.

O que começou com caráter esporádico para somente alguns shows ganhou público e demanda. “A gente cortou alguns caminhos e usou o que já estava solidificado no trabalho de cada um”, explica Vinicius. “A medida que deu certo e fomos chamados para mais shows, começamos a criar uma sonoridade própria.” Esta sonoridade específica do conjunto tornou-se marca, ao lado da presença de palco. O palco, por sinal, não é só uma plataforma para apresentação, mas onde tornam-se quase atores e praticamente dançam ao tocar. “Desde o começo tem uma ideia cênica do show. Nós mesmos trocamos os instrumentos e fazemos um pouco de contrarregragem, e tem uma questão de criar pequenas cenas, criar movimento”, conta. Para ele, esta organização teatral serve para que não seja um “simples amontoado de canções”.

Para o palco do Auditório Ibirapuera, espaço para 800 espectadores, o 5 a seco cresceu. “A primeira coisa que a gente fez foi ter uma voz de comando, sempre as coisas foram decididas conjuntamente”, explica Vinicius. “Já tínhamos nossa estrutura que era a Isabel [Sachs], nossa produtora, junto com as assistentes [de produção] Renata Cavalcanti e Marcela Katzin, o engenheiro de som Adonias Souza Jr. e o iluminador Pedro Altman. Agora trouxemos o Rafael [Gomes] para dirigir, junto dele veio a Monica Palazzo, diretora de arte que sempre trabalhou com cinema, e a Mari Leone, figurinista.” A equipe cuida de detalhes preciosos, como lembra Dani Black: “Pelo fato do show ser cru, os poucos elementos ganham grande valor”.

Com o tempo o som também cresceu e ganhou mais instrumentos. Um integrante soma à canção do outro e surgem detalhes novos. “A gente começa a ter ideias de arranjo e não é muito instrumentista, então a gente vai achando soluções para achar texturas”, conta Dani Black. Vinicius exemplifica: “O Tó toca acordeão? Não é acordeonista. Toca clarinete, mas não é clarinetista. A gente sabe se virar, criar alguma coisa para aquela canção. Tocar com a competência necessária para somar”. Da percussão à panelinha de água, Vinicius conta que “isso ajuda a nos desenvolver musicalmente, engrossar nossa sensibilidade.”.

A identidade de grupo que criaram deve-se muito ao respeito profissional que um tem com o outro. Eles se tratam com seriedade e reconhecem que trocam figurinhas. “Da minha parte, sempre vi o 5 a seco agregando mais quatro caras que individualmente me interessavam, eu gostava, me entendiam e me alimentavam”, afirma Dani. O Tó concorda: “É a hora em que eu me alimento da influência desses quatro caras maravilhosos tanto como compositores, quanto como amigos”.

E nenhum deles quer deixar a empreitada pessoal. Dani Black acaba de terminar seu disco, Vinicius está pré-produzindo o segundo, Tó Brandileone já está terminando também seu segundo e o Pedro Altério e o Pedro Viáfora estão começando seus trabalhos. Juntar a agenda de cinco músicos ocupados com seus projetos pessoais, que vão além da música, é a complicada tarefa da produtora. Se eles sabem como lidar com tanta coisa? “A gente ainda tá descobrindo”, Vinicius tenta explicar. “Não dá para se seguir caminhos já estabelecidos. Todo artista é um pouco bandeirante do bem, capinando sua própria estrada.” Já Tó Brandileone vê as coisas também do lado prático e com simplicidade. “É só combinarmos tudo com antecedência. A gente é muito amigo, se respeita muito. Não tem nenhum galho”, conta.

Mas agora é temporada de 5 a seco. Depois do show esta sexta-feira no Auditório Ibirapuera, os meninos vão tocar dia 15 de setembro num show da Luiza Possi (Teatro Bradesco, São Paulo). Dia 28 eles viajam para o Rio de Janeiro e se apresentarem no Teatro Rival. “Depois de um ano de shows, sinto que é hora de correr com o 5 a seco com força total; tanto do ponto de vista artístico quanto comercial”, instiga Tó. Mas os cinco ainda não estão acostumados com a resposta positiva do público. Pergunto como é desde que estouraram: “Não sinto que estourou ainda….”, medita Vinicius. Porque, claro, vídeo com mais de 13 mil visualizações e lotar o Auditório Ibirapuera com uma semana de antecedência é comum. Além de talentosos, são humildes e pé no chão. Pensando bem, eles já chegaram lá.

+Mais: É uma banda? Não tem CD? Já viu eles no YouTube? Se inspirou com alguma letra? Pra vocês, um pouco mais do 5 a seco.

Começou como um projeto, hoje em dia vocês arriscam me dizer que são uma banda?
Vinicius: Eu digo projeto porque como cada um de nós tem uma carreira solo e vai continuar tendo. Na verdade essa é a força do projeto: a força do trabalho pessoal e a força específica desta junção. A questão de chamar de projeto ou banda muda um pouco a medida que o 5 a seco ganhou muito espaço nas nossas vidas. O tempo de dedicação e espaço que está ocupando nas nossas vidas é comparável a uma banda, não é um absurdo chamar por este prisma, mas eu prefiro projeto pelo caráter de ser um caminho paralelo da identidade de cada um.

Pretendem gravar um álbum como 5 a seco?
Vinicius:
Com certeza, [mas] tem duas questões que impedem que seja tão imediatamente. Uma é as carreiras pessoais de cada um e também acho que o disco deveria ter muitas canções inéditas compostas especialmente. Deveria haver uma ideia, um trabalho focado. No ano que vem começa a ser uma coisa mais certa.

E, tendo toda essa característica de palco, pensam em gravar DVD?
Vinicius:
Sim, estamos pensando, algo talvez próximo ao disco, conjugado. O disco é diferente, e o show nasceu no palco, é feito para ser visto.

E como é esta exposição do projeto pelos vídeos no YouTube? Foi a grande janela para vocês, né?
Vinicius:
Uma coisa que tem desde o começo são os vídeo-convites. Criou-se uma demanda e a gente fez para todas as temporadas. A gente adora. O primeiro vídeo da primeira temporada a gente fez na casa do Tó. É um super despretensioso da gente tocando em casa.
Dani: Já deu uma volta legal do público, acho que aproxima as pessoas. Quanto mais próximo você tá de quem se interessa por você passa a existir uma conversa. E ninguém tá aqui para tá no palco e olhar de cima a plateia, mas olhar da mesma altura, é uma conversa mesmo.
Vinicius: E todos os vídeos convites tem uma de colocar a gente numas situações cotidianas, corriqueiras, que no final das contas tira um pouco essa ideia que, não sei se ainda paira, do artista como um cara inatingível.
Dani: Nós somos vocês, nós somos mais um da nossa geração, só que fazendo música, fazendo a nossa arte. Pelo menos era o que eu pensava em passar [risos]. Você concorda com isso? [Risos]
Vinicius: Acho que nem é tão pensado racionalmente, mas claramente tem esse peso…
Dani: Claramente tem essa leveza.

Ao Tó Brandileone: queria perguntar um pouco das composições. Algumas delas falam de relacionamentos, mas de uma forma muito próxima. O que te inspira? Do que você tira inspiração da vida real para compor uma canção?
Tó: O que me inspira é tudo o que respira. A cidade, pessoas e seus questionamentos, minha vida, a sua e a de todo mundo que passa por perto. Algumas das minhas músicas são desabafos, outras conclusões, conselhos, outras só literatura – ficção. Compor é uma loucura; um exercício solitário para vencer a solidão. É se sentir menos só. É ver que tem gente que sente as mesmas coisas que a gente. É se descobrir – e se mostrar. Sempre me perguntam o que é compor na minha visão cada vez eu respondo uma coisa, talvez eu não saiba mesmo a resposta.