Andreia é que é mulher de verdade

A cantora Andreia Dias, aposta da MPB quando surgiu em 2007, aparece mais forte e intensa no segundo álbum de sua trilogia solo

Por Érika Kokay e Jessica Grant

Intensa, forte, repentina, imprevisível, teatral e talvez até exagerada, no bom sentido. Esta é Andreia Dias, em cima e atrás dos palcos. A cantora de 37 anos lançou em 2010 seu segundo álbum solo, intitulado Vol. 2, continuação de uma trilogia bem particular – tanto no sentido de única, quanto no sentido de pessoal. Sucessor do Vol. 1, lançado em 2007, o disco traz participações de músicos como Zeca Baleiro e Arrigo Barnabé.

A teatralidade, este aspecto praticamente ficcional da Andreia, transborda a música para dentro da vida real. A história desta paulistana é repetida em tudo quanto é lugar que aparece. O blablablá de sempre tem razão de ser: sua história parece explicar sua música (ou seria o contrário?). Saiu de casa ainda menor de idade, contrariada pelos pais evangélicos linha-dura que não aceitavam uma filha roqueira. Depois de passar por Ubatuba, foi para o Rio de Janeiro, onde passou fome e conheceu Seu Jorge, então morador de rua. Os dois montaram a Farofa Carioca, banda de qual Andreia saiu logo depois de alguns shows. Um tempo depois, voltou para São Paulo e engatou o grupo DonaZica, com Iara Rennó, sua parceira na música até hoje.

Mas é ainda de muitos outros casos que Andreia é feita. Além das bandas citadas e de algumas outras de que já participou, ela já construiu um bom caminho como cantora solo. Tida como uma aposta da MPB em seu primeiro projeto solo, a artista voltou mais roqueira e densa depois destes três anos. Mais intensa e caótica, a ponto de cantar sem pudor os versos de sua canção “Mulher”: “Feiticeira encurralada/Que a Santa Igreja assou/Fêmea excomungada/Que até o inferno voou”. Andreia confessou, inclusive, ter se inspirado na música “Ave Dor Maria”, de Tom Zé, para escrevê-la.

Sua ideia é lançar um terceiro álbum no próximo ano, finalizando a trilogia. Com composição mais madura, ela própria reconhece que mudou ao longo das gravações: “[O final da trilogia] será a conclusão de uma fase existencial intensa e de grande amadurecimento”. Para quem quiser conferir, as músicas estão disponíveis no seu site e, abaixo, um pouco mais desta forte voz da música contemporânea brasileira.

Teu álbum traz um aspecto teatral quase circense tanto na força da interpretação quanto na combinação de alguns elementos sonoros. Por quê? Qual foi o objetivo?
Porque minha vida é um teatro e sou uma palhaça. Tudo muito natural, nada calculado.

Apesar de parecer muito “teatral”, teu CD soa bem autobiográfico. Esta mistura foi proposital? O que tem da sua história lá? Qual é tua relação com esta exposição pessoal das canções?
Minha vida é um CD aberto. Minha relação com essa exposição? Pornográfica, quase incestuosa.

Qual é a diferença na Andreia do Vol. 1 para o Vol. 2? O visual está mais escuro, mais pesado, mas o que mudou em você e na sua música na sua opinião?
A essência é a mesma. O visual reflete a sonoridade, e a sonoridade reflete meu estado de espírito, que anda mais contestador e antenado.

E quando vem o Vol.3? Já tem as músicas? Como imagina que será o álbum?
Julho do ano que vem fecho a trilogia. O Vol. 3 está composto e vamos começar a gravar em breve. Será a conclusão de uma fase existencial intensa e de grande amadurecimento, tanto nas relações pessoais como no processo de individuação.

Você também fez e faz parte de outras bandas. Como você lida sua carreira solo paralela aos outros grupos que participa?
Todas as bandas que toco e toquei estão paradas no momento,  nunca tive problemas em conciliar carreira solo e bandas, tenho tempo livre, disposição e muito tesão no que faço. Com jogo de cintura vou levando

O Rock vindo de cima

Por Rosana Villar de Souza

No final do ano passado um amigo fotógrafo me convidou para assistir a um show no Sesc Pompéia. Esse amigo havia trabalhado no festival Porão do Rock, que rolou em setembro em Brasília, e era só elogios para uma banda que tinha visto por lá, uns goianos chamados Black Drawing Chalks.
Os caras iriam se apresentar ao lado da também goiana MQN, de Fabrício Nobre (dono do maior selo independente do Brasil, a Monstro Discos), e da pernambucana AMP, no festival 666, que rolaria na choperia do Sesc, um dos lugares mais bacanas para se ver um show em sampa.
Pode ter sido o clima, o público (super seleto), a noite agradável, a acústica do lugar ou só o puta talento de todas as bandas mesmo. Mas sei que a noite foi sensacional, todos os shows, e saí de lá um bocado embasbacada com aquilo tudo, afinal, fazia tempo que não ouvia um rock com tanta “paudurisse” como o daquela noite.

Fiquei um tanto obcecada, em especial, pelos Black Drawings. Os sujeitos tinham uma energia no palco que seria capaz de abastecer Itaipu! Nunca vou esquecer a performance daquele baixista, uma mistura de Cheech, de Cheech e Chong, com Slash e uma pitada de pica-pau de meias, alucinado em cima do palco, ou em baixo dele, vestindo indefectíveis botas vermelhas. Genial!

E não é só a performance, o som é de arrepiar os cabelos. Pesado e sacana. Lembra de leve Queens of the stone age, mas sem a parte dos efeitos disso e daquilo. Só rock, puro e muito bem tocado.

O grupo canta e inglês e lançou sem primeiro CD, Big Deal, em 2007, pela Monstro. No final do ano passado lançaram Life is a Big Holiday for us, que tem o single/clipe mais bacana do rock nacional atual. Não tem como ouvir My Favorite Way e não se apaixonar imediatamente por ela.
O clipe é um show alucinógeno de animação e tem ilustrações de dois componentes da banda, que também são designers, Douglas Castro (sr baterista) e Victor Rocha (sr vocalista e guitarra). A produção foi uma parceria entre o coletivo Bicicleta sem freio, do qual os músicos fazem parte, e o Nitrocorpz Design Studio.

Na premiação piada VMB 09, da Music (not!) Television, o Black Dawing Chalks chegaram a concorrer nas categorias Aposta do ano e Rock alternativo, mas, numa piada de muito mal gosto, não levaram nada.

Na terça (19/01) tive a chance de assistir a outro show do grupo, no Tapas, e foi só para ter certeza. Agora eu entendia a empolgação do Sr baixista e pulei e me sacudi como ele, a ponto de acabar com um olho roxo!

Black Drawing Chalks vai ser MINHA aposta para este ano, que corrobora mais ou menos com uma outra aposta que faço: o fim da supremacia sudeste na música.
O rock anda cada vez mais bunda mole, principalmente em São Paulo, que deveria ser a Meca do gênero, e quando surgem bandas como esta, de lugares geralmente negligenciados quando o assunto é rock’n roll, a gente se toca que esse Brasil é um mundão velho sem porteira e que nossa cultura vai muito além do que possa pensar nossa consciênciazinha medíocre.

A banda é:
Denis de Castro – Baixo
Douglas de Castro – Bateria
Renato Cunha – Guitarra
Victor Rocha – Guitarra e vocal
Visite e ouça: http://www.myspace.com/blackdrawingchalks