Eu nunca ligo o rádio em casa. O hábito de sintonizar emissoras se perdeu em algum lugar dos anos 2000, quando a 89 FM deixou de ser a rádio rock para virar a rádio qualquer coisa. As zilhões de músicas disponíveis no iTunes, a incrível coleção de cds da minha tia e o fato de eu ser uma usuária do transporte público de São Paulo também não me animam a cultivar o hábito. Só que hoje eu liguei o som da sala sem querer e estava tocando “Another Brick in The Wall”, do Pink Floyd. Aí eu lembrei do quanto esse disco - “The Wall” (1979) – me marcou.

“The Wall” é um projeto que flerta com a megalomania de Roger Waters. Também é considerado o álbum duplo mais vendido de todos os tempos – 30 milhões de cópias espalhadas pelo mundo. “The Wall” (“A Muralha”), fala sobre isolamento, solidão e desespero. O filme, estrelado por Bob Geldof e dirigido por Alan Parker, é uma daquelas brisas existenciais e passionais. Ou você entra no clima e pira nas transições malucas com desenhos animados psicodélicos ou vai ficar o filme todo achando que o personagem Pink é um emo dos anos 80 com sérios problemas freudianos.
Ao lado de Raul Seixas, Pink Floyd foi o amor musical da vida do meu pai. Ele se gabava, num exagero que me arregalava os olhos, de ter assistido ao filme mais de 20 vezes no cinema. Na cena mais famosa, transformada posteriormente em videoclipe, um grupo de crianças usando máscaras assustadoras anda em fila e para cair fatalmente num moedor de carne. Depois, num incêndio revolucionário, rasgam uniformes e cadernos e tocam fogo na escola. Confesso que, ao longo do Ensino Fundamental e Médio, esse foi meu sonho secreto. Como todo bom adolescente, eu odiava o colégio e sonhava em provocar o caos com meu lápis de olho preto. Eventualmente, esse tipo de pensamento foi embora junto com as espinhas, mas ficaram canções como “The Thin Ice”, “Mother” “Comfortably Numb” e “Hey You”.
O disco é feito para ser ouvido à moda antiga: deitar no chão com almofadas, acender seu tipo de cigarro favorito e decidir se somos ou não apenas mais um tijolo na parede.
PS: A rádio em questão tocou a versão completa de Another Brick in The Wall, que reúne as três faixas homônimas e mais “The Happiest Days of Our Lives”. Eu estava sintonizada na Kiss FM (102, 1 FM) de São Paulo no programa Rock Cine, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 9h, às 13h e às 16h e aos sábados, às 19h. =)