Ten, Pearl Jam
por Leandro Gabriel
@trecker
Quando me pediram pra escolher um álbum (um só, que é como me pedir pra escolher um órgão pra me sobrar no corpo) adorei a idéia. Cerca de quinze segundos depois minha vontade era dar com a cabeça de quem pediu na quina de alguma parede. Ou reproduzir a cena de ‘American History X’. Sim, aquela cena. Suponho que boa parte dos que atenderem ao pedido farão uma introdução parecida, mas acho importante fazer também, de modo que entendam de uma vez por todas que um pedido desses não se faz nem pro pior inimigo.
Dito isso, escolhi o álbum que mais ouvi. Não por ser o disco que mais amo, porque se fosse esse o critério ia gastar mais uns meses escolhendo e não sairia com texto nenhum. Era necessária uma lista que tivesse algum álbum no topo e odeio ordem alfabética, que não passa da eterna celebração da criança que aprende o alfabeto e repete pra mostrar a descoberta.
Ten. Posso assobiar todas as suas faixas. De trás pra frente. Debaixo d’água. E ainda assim não tenho muito o que dizer sobre ele. Na Wikipedia tem um monte de infos, ó só.
Pensei em fazer como o Renmero e contar uma história que de alguma forma envolvesse o disco. Não seria difícil. Amei ouvindo Ten, briguei, apanhei também, comprei meu primeiro ténis ouvindo Ten, com grana ganha trabalhando enquanto ouvia Ten. Cometi meu primeiro crime com Ten nos fones de ouvido. Destruí meu primeiro violão segundos depois de conseguir tocar Alive inteira pela primeira vez, sem o solo. Cantei Black no ouvido dela, no dela e no dela.
Quando éramos guris, o Dênis tinha um violão e não sabia tocar, mas aprendeu o baixo de Even Flow. Conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo (eu ainda não consigo) e era tão idiota e cheio de clichês quanto eu. Depois de uma festa, voltando pra casa não lembro de quem, sentamos ao lado de Sêo Pedro e tocamos Even Flow, em dueto violão, violaixo e voz. Nem morador de rua ele era, mas pelo menos não entendia inglês. Sorriu feliz e voltou pra dentro da casa que estava reformando. Sêu Pedro deve estar até hoje com cara de WTF, mas sem clichê babaca não se faz um adolescente, então I’ve been there, done that.
Enfim, não vou escrever um texto em que a relação com o disco é TRICKY, mas também não vou contar uma história pra cada faixa. Nem lembro de todas as histórias pra poder contar, mas acredite: quando se ouve um único disco quase o tempo todo, se tem história pra cacete.
O ponto é que o disco não termina. Até hoje ouço inteiro esperando que o disco termine. Até prometo que I’ll hold the pain, release me, mas it doesn’t and it goes right back to Once upon a time. Estou preso no repeat desde moleque.
O leitor que é mais babaca vai notar que não mencionei todas as faixas do disco, mas adianto que não sei falar de música. “Writing about music is like dancing about architecture – it’s a really stupid thing to want to do.” — Elvis Costello (thank you NIGGA* for giving me the perfect quote).
Se toda a história da indústria fonográfica estivesse a ponto de ser destruída e coubesse a mim escolher um disco pra salvar, seria o Ten. Não é me gabar, a ideia não é na esperança do mundo viver como eu vivi, é que a única vida que conheço é a minha e se ela foi boa o bastante em seus altos e baixos até o momento, foi em parte por conta desse disco. Ou no mínimo sob sua supervisão numa grande porção do tempo.
Já disse que sou cheio de clichês, então cabe um aviso: Erros de digitação, gramática ou qualquer outra coisa que passaram batidos foi porque parei a revisão quando terminou Master/Slave. Nada mais clichê que usar só o tempo do disco pra escrever sobre ele e revisar.
o desafiado
Trecker é do tipo que até tem cara de mau, mas não engana: constrói e destrói amores em poucas palavras, sofre de DOENÇA EDITORIAL no twitter, é apaixonado por comunicação & tecnologia e sempre tem referências bacanas sobre toda sorte de assuntos. Enquanto vocês lêem esse post e trabalham, ele se prepara para desbravar EL RELAMPAGO DEL CATATUMBO.
ten para ouvir
tracklist

1. “Once”
2. “Even Flow”
3. “Alive”
4. “Why Go”
5. “Black”
6. “Jeremy”
7. “Oceans”
8. “Porch”
9. “Garden”
10. “Deep”
11. “Release[I]”
//mais informações sobre o álbum (en)
//WTF #essencialbuns?
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March 5th, 2010 at 6:31 pm
eu tinha 13 e vinha tentando entender alguma coisa, e abria uns caminhos, Deep Purple de um lado, Sepultura do outro. então vi o clipe de Alive na MTV (recém chegada no Brasil) e fez *click* e era mais uma trilha, só que essa me colocava no mapa. ganhei o vinil, acho que ainda em 91. mergulhei em Alice in Chains, Soundgarden. entendi melancolia e raiva. deixei os cabelos crescerem e montei uma banda. vivi um verdadeiro GRUNGE GAUDÉRIO enquanto tudo à volta era Roxette e Legião Urbana e ria com ar superior na cara dos glam-posers quando eles reclamavam, sem qualquer razão. 91/92, o último período onde o rock teve sinceridade. peguei ela pra mim. Ten é um disco bastante simples, mas de um carisma absolutamente raro, e que não se repetiria (embora, puxa, até me deu saudades de Vitalogy agora, consigo lembrar da exata sensação e do arrepio daqueles primeiros acordes vindo em fade de Corduroy, e aye davanita, a-uhhh). assistir “Singles” em 93 aos 15 e sentir e prever toda uma vida de caos e horrores românticos me enxergando pela leitura do Cameron Crowe e reconhecer amigos e achar pedaços ali, nisso tudo; nenhum sentido na geografia, no contexto, mas apenas a linguagem, comum, de certo jeito até metafísico, um lugar. e se você é um adolescente você precisa de um disco pra te dar um lugar, cara, porque senão fica tudo muito duro, ou estéril, ou tudo isso. e eu ganhei uma cena, que não era minha, mas era de flanela, e era indiferente porque tudo tão complexo que depois disso só Woody Allen;
já tanto tempo passou, e obrigado pelos clichês do texto, que assim posso ser clichê no comentário, mas tudo começou com o clipe de Alive, e então o de Even Flow, e hold on to the thread, the currents will shift, in too deep, on a garden of stone.
March 5th, 2010 at 7:48 pm
Concordo, Ten é o álbum mais foda do Pearl Jam e tb é o que eu mais gosto! ;~
March 5th, 2010 at 8:02 pm
Sabe, estava pensando esses dias por que motivo bizarro eu gosto de certas músicas que, segundo o meu gosto musical, eu não deveria gostar. Bandas como Matchbox 20, Third Eye Blind ou Goo Goo Dolls. Daí cheguei a conclusão que está bem ai no seu post, momentos fodásticos que vivi ouvindo essas músicas. De uma forma ou de outra eu lembro de tudo o que vivi quando ouço.
Tá certo que isso acontece com qualquer música, mas o que desencadeou o raciocínio foras essas bandas bobas que eu gosto e até então não sabia o por que.
Coidilôco. Boa viagem, guri.
March 5th, 2010 at 8:18 pm
Completou o texto, tiagón putaqueopariu
Quase choro aqui.