a love supreme, john coltrane
por Renmero Rodriguez
@renmero
quando conheci stella eu tinha quatorze anos. havia mudado de turma no colégio e ela era a mais linda guria de toda a sala. uma sala em que entrei como objeto estranho. era difícil não encará-la. cabelos loiros longos. olhos azuis. um cheiro incrível. um dos maiores que já senti até hoje. observá-la conversando com alguém era um passatempo que cultivei por um bom tempo – ou qualquer medida de de tempo que seja “um bom tempo” quando se tem quatorze anos.
um dia, ela me pegou. começou a me encarar também. havia ali um pequeno prêmio para mim. como se ela dissesse tudo bem, você não precisa mais fazer isso. agora eu quero ver o que mais você sabe fazer. nossa primeira conversa foi mais ou menos assim:
oi.
oi.
vi que você me pegou ali te olhando.
é, por que você estava fazendo isso?
é difícil não fazer.
hum, é bom, não é?
muito.
eu gostei também.
a primeira vez que me despedi de stella foi numa tarde quente de novembro há seis ou sete anos. na frente de sua casa. eu iria me mudar de cidade. apesar de anos convivendo em colégios, nunca havíamos realizado nada de mais entre nós. sabíamos que havia algo muito bom ali. mas deixamos coisas bestas entrarem no caminho. eu era muito diferente do que sou agora, ela era praticamente outra pessoa. desperdiçamos uma grande chance e estávamos percebendo isso. mas já era tarde.
a segunda vez que me despedi de stella foi numa noite chuvosa de dezembro há menos de algumas semanas. nos detalhes do seu corpo pude perceber o que havia acontecido com ela nos últimos anos. uma marca na nuca. um furo extra na orelha. o modo como olhava para ao chão. a força com que segurava a minha mão. nos anos em que ficamos distantes, em que abandonamos um ao outro, aconteceram coisas tristes com ela. eu queria resolver todas, queria curá-las. queria os olhos azuis do mesmo jeito que eram. queria agora a mulher que ela era. stella, eu te amo e dessa vez não vou te deixar. foi você que me ensinou a apreciar as mulheres. mas nunca apreciei você.
o jeito errático como ela montava suas respostas entregava uma ferida nova. uma grande. tinha chegado nos olhos, nas unhas, em todo o corpo. estava consumindo a guria mais linda que já conheci. e eu não podia fazer nada. com tudo que aprendi, estudei, ensinei. tudo inútil. mais uma despedida longa e silenciosa.
ela me disse, antes de entrar num táxi: aqueles minutos em que você ficava me encarando na sala de aula.
a love supreme.
o desafiado
Renmero Rodriguez é comandante do Bunker, não cansa de fazer sentido no twitter e também colabora no impop. Após três anos treinando em um dojo no sul do japão, Renmero agora mora na Vila Madalena e escreve histórias todo o dia para pagar o aluguel. Fontes confiáveis afirmam que ele nutre um certo rancor pela editora da coluna porque ela demorou muito pra publicar esse texto.
a love supreme pra ouvir
A Love Supreme, John Coltrane @ Grooveshark
tracklist

1. Part I – Acknowledgement
2. Part II – Resolution
3. Part III – Pursuance
4. Part IV – Psalm
// sobre o álbum (artigo da Wikipédia, em inglês)
Minha mãe leu e falou “Esse menino leu muito a Clarice Lispector”. Disse que isso era bom. Depois mandou dizer a você, Renmero. haha
Céus, que texto lindo! Quanta sensibilidade…! Fiquei boba de ler.
Congrats, boy, congrats!
RT @vitroleiros: O #essencialbuns dessa semana é do @renmero: http://migre.me/jtxM
em tempo: texto meu sobre a love supreme no @vitroleiros: http://migre.me/jtxM
http://migre.me/jtxM — não é meu e era só pra amanhã, mas gostei muito e vou mostrar primeiro pra vocês. amanhã divulgo oficialmente. =X
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Seria estranho se eu escrevesse “sem comentários” no meu comentário???
Texto para pensar, se apaixonar… muito bom! Parabéns, Renmero!
#tearsmodeon
wow *o*
que texto mais lindo e apaixonante! muuuuuuuuito bom!
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