
Poeta, beatnik, porta-voz do inconsciente coletivo, bardo, ídolo do folk, profeta, gênio, louco, cantor de protesto, traidor, aquele-que-canta-like-a-rolling-stone. Todos os rótulos acima cabem em Robert Allen Zimmermann, neto de judeus-russos nascido em Dulluth, Minnessota, em 1941.
Todos e nenhum, já que Bob Dylan, forjado na efervescência cultural novaiorquina dos anos 60, despreza rótulos. O certo é que Dylan traduziu em muitas de suas letras o espírito de uma geração. Utilizando-se de uma sonoridade tradicional, profundamente enraizada na cultura musical americana, Dylan cantou sobre episódios contemporâneos: a Crise dos Mísseis (1962) entre Cuba e EUA, a luta pelos Direitos Civis, cujo expoente máximo foi Martin Luther King e, em um nível maior, sobre as profundas mudanças sociais, culturais e comportamentais da época.
Sua infância, nos anos 50, foi marcada pela paranóia nuclear da Guerra Fria. Mesmo na pequena cidade de Hibbing, perdida nas planícies do Meio-Oeste, pessoas construíam abrigos e crianças realizavam treinamentos em escolas, esperando pelo apocalipse nuclear que nunca veio. Anos depois, no mesmo ano da chamada “Crise dos Mísseis” em Cuba, Dylan compôs “A hard rain’s a-gonna fall” (Uma chuva forte vai cair)
“And what did you hear, my blue-eyed son?/ And what did you hear, my darling young one?/ I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’/Heard the roar of a wave that could drown the whole world/ Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’/ Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’/ Heard one person starve, I heard many people laughin’/ Heard the song of a poet who died in the gutter/ Heard the sound of a clown who cried in the alley / And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard /And it’s a hard rain’s a-gonna fall.”
A chuva seria, para o entendimento da maior parte dos que viveram naquela época, negra e radioativa:“Em 1963, Dylan escreveu “A Hard Rain’s a-gonna fall”, que descrevia a situação vivida pelo público naquele momento – medo, antecipação, preocupação, amargura e temor. O próprio Dylan disse que aquela era “uma música de terror. Linha após linha tentando capturar aquele sentimento de desolação”. Sua música traça paralelos entre o que acontecia nos EUA e o imaginário usado pelos profetas bíblicos para descrever “destruição e desolação” (BLANTON, Amy, Bob Dylan: An impact on American Society in the 60′s, 2001.)
Em uma de suas famosas coletivas de imprensa, Dylan mais tarde desmentiu a versão de que a música fosse sobre uma hecatombe nuclear. Na verdade, “A hard rain’s a-gonna fall” foi lançada quase um mês antes que John F. Kennedy fosse à televisão, em rede nacional 1 anunciar a crise com Cuba. Apesar de irritar-se com o sentido profético atribuído a muitas de suas canções, Dylan tinha o raro dom de sentir o pulso da sociedade da época, fazendo com que letra e música escapassem do controle autoral e se tornassem obras coletivas.
Para ir além:
Blanton, Amy. Bob Dylan: An Impact on American Society in the 1960’. 2001.
Hobsbawn, Eric. Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SCADUTO,Anthony. Bob Dylan. New York: Grosset & Dunlap,
Documentário “No Direction Home”, Martin Scorsese. 2005.
Documentário “Bob Dylan: Don’t Look Back”, D.A. Pennebaker, 1965.
Artigo “À procura de Bob Dylan”, Eurípedes Alcântara, Revista CULT, Março de 2008.
Para Ouvir:
The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)
Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie
Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo
Parte 4: Não sou eu, Baby
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