“Bah”, talento do sul

Em turnê de lançamento do primeiro disco, Apanhador Só é uma banda que traz inovação e variedade sem deixar a sintonia de lado. Conheça o quarteto de Porto Alegre, que conversou com o Vitroleiros nas mesinhas do CCSP.

Felipe, Alexandre, Fernão e Martin se completam

Noite fria, casa cheia. O pequeno espaço da Funhouse estava lotado de pessoas, todas atentas e apertadas quando os primeiros acordes começaram a soar. Na segunda música, uma garota que não conhecia a banda virou e falou: “foda”. Outros garotos concordaram. Vindo de Porto Alegre (RS), o Apanhador Só logo conquistou o público da primeira noite da fatia paulistana da turnê de lançamento de seu primeiro disco, homônimo. Alexandre Kumpinski (vocal, guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria) formam o quarteto que vai ficar mais quinze dias por São Paulo, passando pelo CCSP, pela Livraria da Esquina e pelo SESC Santana.

A banda começou há alguns anos, quando Alexandre, Fernão e o então baterista Drusko começaram a tocar juntos. Depois entrou Felipe na guitarra, Carina Levitan participou por um período na percussão e Martin, na bateria, foi o último a entrar. Em 2005, como prêmio do festival do Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia, eles gravaram duas músicas que, junto com outras três, formaram o EP Embrulho Pra Levar, lançado no início de 2006. A arte do EP era carimbada por eles mesmos, e Felipe lembra bem do trabalho manual. “Era contraditório, a gente depende da mão para tocar mas tinha de passar um tempão carimbando”, ri.

“Na época estava começando o Trama Virtual e um amigo nosso mostrou o site”. Com o EP online, a banda foi ganhando público e espaço no cenário de Porto Alegre (“é uma mini-São Paulo”, compara Martin; “tu tem de cuidar do que faz nas festinhas”, alerta Alexandre). Em 2006 ganharam o Festival Trama Universitário e, desde 2007, começaram a pensar em montar o álbum, buscando financiamento. “Não queríamos fazer de qualquer jeito”, o vocalista explica a dedicação. Quatro anos depois do EP (e com um de três músicas lançado no meio sem muito alarde), em abril deste ano surgiu o primeiro CD do Apanhador Só, com treze faixas de canções antigas, como Maria Augusta, até faixas mais novas, como Nescafé.

Com produção de Marcelo Fruet, o álbum apresenta um grupo completo, que, ao longo das faixas, mostra variedade com traços que vão desde MPB até o rock mais pesado. O quarteto reconhece a importância do produtor no processo. “Ele trouxe essa visão de fora”, destaca Martin. Já Alexandre explica que o trabalho do produtor foi focado na formação antes do estúdio.“O Marcelo foca mais na pré-produção, tanto que em algumas gravações ele nem foi.”

O disco traz ainda a presença da ex-integrante da banda que foi para Londres, Carina Levitan, com sua percussão divertidíssima, que engloba de balão de festa à já clássica roda de bicicleta. Veio passar um mês no Brasil gravando sua parte, sem quase nada a mais feito. Mesmo fora da banda (“quando ela saiu, paramos para repensar”), Carina levou novidade e variedade ao CD. “Cada vez que a pessoa ouve o álbum encontra algo novo”, explica Alexandre. “Acho que traz textura para o disco”, acrescenta Felipe. Alexandre logo argumentou que, em algumas canções, a presença dos instrumentos de Carina foram mais pontuais.

Dos objetos-intrumentos da percussão, que eram difíceis de captar nos shows, a roda de bicicleta acabou ficando. “O som era legal, ficava bonito no palco, acabou ficando e virou uma espécie de símbolo”, explica sucintamente Fernão.

O baixista, por sinal, fala poucas vezes, mas, quando fala, sempre tem algo a dizer, sem gastar a lábia. Como quando estavam divagando sobre a diferença do som de seu baixo:

Alexandre: “O Fernão, por exemplo, não tocava baixo, né?”
Fernão: “É?”
Alexandre: “É, você veio do violão, da guitarra, não? Então trouxe coisa deles.”
Fernão: “Não sei, é? Se você está falando…”

Já Martin, tagarela, se perde nas histórias e os companheiros brincam com seu devaneio, como sobre a vez que ouviu a banda ao vivo pela primeira vez e, tendo tocado antes deles, queria desmontar logo a bateria enquanto os outros continuavam numa espécie de jam session.

Os meninos são bem diferentes uns dos outros, várias vezes mostram opiniões diferentes sobre os mesmos assuntos e possuem influências musicais bem variadas. “No MP3 meu e do Alexandre você não vai encontrar nada em comum”, destaca Martin. Ele, por sua vez, participa de outras bandas e traz um histórico de gosto mais ligado ao instrumental. “Foi difícil no começo aprender a conter a bateria um pouco, a fazer os arranjos certos para o Apanhador.” O quebra-cabeça de vários estilos e a sintonia do quarteto é o que forma a música típica da banda, o que faz dela tão diversa e, ao mesmo tempo, completa.

O formato final do Apanhador Só é reflexo de todo processo de criação. Com o nome em quase todas as canções, Alexandre costuma escrever e apresentar para o grupo num formato quase voz e violão. “Então cada um vai tocando naturalmente, é bem natural”, pensa Felipe. Às vezes, Alexandre pára uma letra no meio e pede ajuda. Em algumas destas vezes e em histórias com amigos surgiram diversas parcerias no disco, desde poetas gaúchos até o Estevão do paulistano Bazar Pamplona. “Eu acho ele um dos grandes compositores desta geração”, diz o vocalista e compositor. Mais uma influência brota quando se ouve o sujeito feminino de “Bem Me Leve”. Chico Buarque? “É, eu ouvia e tocava muito Chico, tocava aqueles songbooks, era natural. E acho que veio também pela rima.”

Das canções antigas algumas não entraram pela evolução do grupo. “Não tocávamos mais”, explica Alexandre, “as outras eram melhores”, contrapõe Martin, “talvez algum dia até volte”, completa Felipe sobre a faixa do primeiro EP, “Damas”. “Balão-de-Vira-Mundo”, por sua vez, ganhou um tango sugerido pelo produtor e logo aceito pelo animado Felipe. “Sempre quis fazer algo do tipo”, diz o guitarrista enquanto Fernão e Alexandre brincam, “sempre foi nossa influência”, riem. De influência, eles trazem muita coisa da música do Rio Grande do Sul, e acabam sendo mesmo uma banda gaúcha de Porto Alegre, que reflete até o ambiente roqueiro da cidade. “Se não tivesse isso em Porto Alegre, não teríamos comprado nossas guitarras aos 15 anos”, conta Alexandre.

Para quem quiser baixar, o álbum está disponível na internet. Mas vale adquirir o disco físico pela qualidade. Para fazê-lo, chamaram o designer Rafael Rocha que, baseado em algumas indicações do que eles queriam, fez o álbum. “Inclusive foi dele a ideia de pessoas ligadas ao disco, como os compositores, escreverem as letras no encarte”, explica Alexandre. O álbum é mesmo bonito e criativo, ainda demonstra algumas características da banda, vale para colecionar.

Bem sulistas, os meninos do Apanhador Só trazem este clima de Porto Alegre em suas canções. Além disso, são uma das bandas que transpiram sintonia. As influências e as manias de cada um deles aparece no resultado final em harmonia, mesmo as de Fernão, que não gravou o CD. Daí que se monta o som do Apanhador, variado e completo, do tipo que te conquista na segunda canção.

Próximos Shows

4/maio – Tapas Club (sp)
6 e 7/maio – CCSP (sp)
7/maio – Livraria da Esquina / com Bazar Pamplona (sp)
8/maio – Sesc Presidente Prudente (pres. prudente)
8/maio – Trip Music Bar (maringá)
16/maio – James Bar / com Banda Gentileza (curitiba)
27/maio – Sesc Santana (sp)

Para baixar: www.apanhadorso.com

Para ver:


Fora do Post – nosso Backstage – O Vitroleiros coleciona algumas falhas na nossa história. Uma entrevista de duas horas com a maravilhosa Lulina arquivada, um repórter que esqueceu e perdeu uma conversa com uma banda nova e, agora, a tecnologia dando de 10 a 0 na Jessica. Graças à ótima memória, pude lembrar até de aspas dos rapazes, mas, infelizmente, as falas não estão exatamente iguais. O áudio do gravador emprestado de nossa também vitroleira Tory foi deletado depois que ele travou. Então, peço desculpas por qualquer frase diferente no texto, mas desta vez a tecnologia ganhou de mim…

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