Independente de idade e estilo musical favorito, não há no Brasil quem nunca tenha ouvido ou cantarolado os famosos versos de “Trem das Onze”, eternizados na voz do grupo Demônios da Garoa, ou ainda os versos de “Tiro ao Álvaro” conhecidos na voz da Pimentinha, Elis Regina. Essas, entre tantas outras músicas interpretadas por diferentes artistas, foram escritas por alguém que tinha uma íntima relação com São Paulo: conhecia cada canto, cada história, identificava e relacionava a cidade, suas transformações e sua população.
João Rubinato, apresentado a nós como Adoniran Barbosa, filho de imigrantes italianos, nasceu em 1910 na cidade de Valinhos. Nos anos 30 mudou-se para a capital, onde adotou o pseudônimo pelo qual se tornou conhecido. Seu primeiro trabalho no meio artístico foi no rádio onde fez programas humorísticos de sucesso como “Histórias de Malocas”. No cinema atuou em filmes como “O Cangaceiro” e na televisão fez algumas telenovelas na Record e TV Tupi, mas o reconhecimento veio com a música.
Adoniran foi um artista completo e único nos seus 50 anos de carreira, seja na televisão, no rádio ou nas rodas de samba dos bairros boêmios de São Paulo. Destacou-se pela capacidade de relatar através de suas criações a realidade dos paulistanos de forma bem humorada e sarcástica. E não só falou da cidade como utilizou uma linguagem própria dela e de suas transformações, composta por vários grupos responsáveis pela criação de uma cultura urbana. Canções como “Saudosa Maloca”, “Iracema”, “Viaduto Santa Efigênia” e “Conselho de Mulher” são alguns exemplos do retrato da metamorfose paulistana por ele exposta.
No fim da vida já não reconhecia a cidade que tanto o inspirou: “Me mandaram achar São Paulo e eu não achei. Me mandaram achar o Bexiga e não existia mais, a não ser alguma coisinha ali pela 13 de Maio, rua Fortaleza. O Brás é quem te viu e quem te vê. Mas já não sofro mais, estou calejado”. Se estivesse vivo completaria 100 anos em 2010 e, com certeza, acharia que estava em qualquer lugar menos em São Paulo – mas a voz da cidade não morreu, não se calou, ela vive através de nós a cantarolar “Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”…
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January 19th, 2010 at 6:47 pm
Mais um gênio com reconhecimento aquém do que deveria.
Belo post!