Ela conquistou a atenção de Cazuza, conversou com seus ídolos como Cássia Eller e era uma das poucas que falava com Itamar Assumpção. Levando o melhor da música nacional para quatro estados brasileiros, além da internet, a jornalista Patricia Palumbo faz o trabalho de crítica como “curadora” no Vozes do Brasil, acha que não é digna de falar mal do trabalho de ninguém e toca só o que gosta
por jessica grant – edição guilherme assen e bruno guerrero
“Não venham me dirigir!”, determinou Patricia Palumbo quando assumiu pela primeira vez o microfone na programação musical na 92,9 FM. Naquela sexta-feira, não tinha ninguém na rádio Eldorado para substituir o locutor que fora demitido sumariamente na noite anterior por ter repetido o dial errado no ar. “Ficamos enlouquecidos pensando em quem poderia fazer o horário dele, que era sábado e domingo das seis da manhã ao meio-dia.” Sem opções, Patricia assumiu a mesa, com essa ressalva: não ser dirigida.
Às seis da manhã do sábado, lá estava ela, com os jornais do dia e o livro que estava lendo em seu colo, pronta para mudar o estilo da rádio. “Entrei no ar comentando a programação, coisa que na Eldorado, até aquele momento, era totalmente proibido, ninguém fazia. E mais: ainda comentando o que eu estava lendo!” O ineditismo de associar as notícias do dia às canções e mencionar algo sobre o produtor ou compositor daquela faixa foi aprovado e presenteou Patricia com o programa que a faria ganhar o prêmio de melhor âncora e apresentadora da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 1999, A Hora do Rush. A organização a premiou também em 1998 como coordenadora de programação da Eldorado FM e em 2000 pelo programa com o qual ela é mais conhecida, o Vozes do Brasil, o vitrolão que assumiu enquanto estava na Musical FM e deu “personalidade”. Sua personalidade.
A jornalista já havia trilhado um bom caminho. Para quem nem pensava em prestar o curso, convencida pelos amigos, ela encontrou prazer na profissão. Estreou na Cultura AM, passou cinco anos em São Sebastião onde apresentava um programa aos finais de semana e onde, depois, tornou-se correspondente para a rádio Eldorado, até que foi convidada pelo diretor-geral João Lara Mesquita para tornar-se coordenadora de programação em São Paulo. Patricia ficava nos bastidores, e um dia o locutor errou “92,9″ pela enésima vez. Depois do episódio, ainda alcançou o sucesso com A Hora do Rush, foi para a Musical FM, voltou para a Eldorado com o Vozes do Brasil e tornou-se uma das jornalistas musicais mais respeitadas do país. Além do programa, hoje ela participa de diversos projetos de curadoria, como no Natura Musical e no Projeto Prata da Casa, do SESC Pompéia, além da apresentação do Instrumental SESC Brasil no canal SESC TV.
Ela dá os créditos de sua sorte à generosidade da vida, mas a simpatia com certeza levou Patricia para muitos lugares. Em sua casa, ela dá a entrevista enquanto brinca com sua cadela Cacau e se prepara para sair correndo para a cerimônia Viva a Mata no Ibirapuera. Conselheira da Fundação SOS Mata Atlântica, Patricia divide suas paixões entre a música e o meio-ambiente. Às vezes, como no programa Baleia Azul, o que apresentava em São Sebastião, ela junta ambos. Mesma união é possível verificar nos livros bem organizados em longas estantes de seu apartamento em São Paulo.
O imóvel é reflexo da jornalista: ao fundo toca um lançamento, “O Fino da Bossa” está na parede escrito sobre sua escrivaninha lotada de CDs. Do outro lado, uma foto com Rita Lee. Acima da foto de uma criança brincando com um violão pequeno, uma imagem do Buda. Patricia é assim: tranquila e simpática. Acha que o jornalista tem de estar preparado a qualquer hora e trata com muito respeito seus entrevistados, entre os quais estão nomes como Cássia Eller, Arnaldo Antunes, Elba Ramalho e, recentemente, Marisa Monte. Só toca o que gosta, mas, também, só gosta de coisa boa. É Patricia Palumbo quem, mesmo sem querer, determina os grandes novos artistas da música brasileira.
Por que você escolheu jornalismo?
Foi meio que por acaso. Eu era muito menina ainda quando sai da minha cidade, São Sebastião, no litoral de São Paulo, e vim estudar. Na época que eu morava lá minha vida era muito livre, então eu andava de bicicleta, saia para mergulhar, velejava, nadava, aquela coisa de vida de adolescente caiçara. Então quando eu pensei em fazer faculdade, pensei em me formar professora rápido e voltar logo para a praia e dar meio período [de aula]. Aí quando cheguei no cursinho e fui fazer a inscrição, meus amigos vieram me dizer que eu precisava prestar outra coisa, que se não entrasse em uma, entrava em outra. ‘Então presta Jornalismo que é a sua cara.’ Prestei e entrei nas duas faculdades. Quando me dei conta, Jornalismo era tudo que eu queria, juntava as coisas todas pra mim. Eu sempre tive muita curiosidade com histórias de maneira geral, mas eu sou virginiana e tenho este lado mais prático, e a História é muito teórica. Fui me descobrindo muito mais jornalista do que historiadora, e logo entrei em rádio… Quer dizer, me apaixonei pela coisa, fiquei extremamente alucinada pela possibilidade de fazer programação para milhares de pessoas ouvirem. E foi isso, virou um vício.
E como que você começou na Cultura AM?
Comecei com um título daquela época que era Apoio de Produção. Ganhava uma merreca por mês e fazia de tudo. Eu comecei atendendo telefone dentro do estúdio para o programa do Walter Silva, o Pica-Pau, que foi um cara importantíssimo na história da rádio e da música brasileria. Falava de música antiga, tocava Custódio Mesquita, Orestes Barbosa… Ele foi me mostrando tudo aquilo e aquilo foi lindo pra mim. Eu atendia as velhinhas que pediam música pra ele e eu fui aprendendo, com um cara que fez rádio nos anos 40, 50 e 60, o que era a rádio bem feita, a interatividade com o ouvinte e o cuidado com a programação. E dali eu comecei a fazer, devagarzinho, programação musical e produção de programas, sempre atendendo telefone, carregando fita. Na época, a gente fazia com fita rolo que a gente editava na gilete e grudava, não tinha essa onda de computador, a gente batia programação numa máquina gigante, que demorou pra ser elétrica, era batendo mesmo a programação. Eu tive meu primeiro programa lá na rádio Cultura mesmo, o Radiografia.
Como foi?
Tinha aquela coisa de você estar em casa ouvindo música: eu comprava muitos LPs e, às vezes, eu entrava numas de pegar um artista e comprar tudo que eu podia dele. E mergulhava naquela obra. Fiz isso com Sylvia Telles, Dulce Quental, Cazuza… que era o graaande amor da minha vida naquela época. E eu estava em casa ouvindo Renato Borghetti numa destas brincadeiras, um sanfoneiro gaúcho maravilhoso, e daí tinha no LP: ‘Contatos’, o telefone. Eu falei ‘quer saber? Vou ligar pra esse cara e marcar uma entrevista’. Liguei, atendeu o irmão, que era o produtor: ‘Oi, como vai? Eu sou Patricia Palumbo, trabalho aqui na rádio Cultura AM de São Paulo, queria fazer uma entrevista com o Borghettinho.’ Ele falou: ‘Bah, ótimo! Vem aqui, a gente toma um mate, come um churrasco, tu conversa com ele quando tu quiser!’ Fiquei super empolgada e me imaginei já lá. No dia seguinte, chegando na Cultura, estava entrando na Fundação e encontrei o Roberto de Oliveira no caminho, diretor da rádio e da TV naquela época. Parei e disse: ‘Oi Roberto, como vai? Então, estou indo para Porto Alegre fazer uma entrevista com o Renato Borghetti, quer que eu faça pra rádio também?’ Ele olhou e perguntou: ‘Mas você vai fazer pra quem?’ ‘Ah, estou fazendo uns freelas…’ Inventei, joguei o maior blefe! [Risos] Ele falou: ‘Vai, adoro o Renato Borghetti! Pede para a secretária te arrumar passagem, equipamento, vai lá e faz para mim.’ Eu amei, né? Cara, deu super certo. Fui para Porto Alegre, dravei uma entrevista imensa e comecei a trabalhar o que seria o Radiografia. Gravei uma entrevista com o [instrumentalista] Sivuca e uma com o [João Carlos] Botezelli Pelão, produtor de música de raiz. Fui abrindo um monte de arquivinhos. Ninguém tinha realmente encomendado este programa, então eu tinha todo o tempo do mundo pra fazer o que eu quisesse.
Caprichou?
Caprichei muito. Eu lembro que no primeiro programa que eu coloquei no ar eu lia o que eu escrevia [risos], hoje em dia eu nem que a vaca tussa leio alguma coisa, de jeito nenhum! Mas foi muito emocionante. Daí virou uma série de programas que estão lá na Rede Cultura até hoje arquivados.
Quantos anos você tinha então?
Eu comecei na cultura com 17 anos, fiz o Radiografia com 19, 20 ou 21, por aí.
Como era fazer o programa jovem? Porque jovens tem gostos diferentes…
Mas eu sempre fui uma garota com gosto diferente. Eu fui jovem nos anos 80, e era o rock brasileiro: Titãs, Paralamas [do Sucesso], aquele povo todo de Brasília. E destes roqueiros todos de quem eu gostava mesmo era o Cazuza, porque eu achava que as letras eram mais legais, me identificava mais com a temática. Gostava muito de jazz norte-americano, dos standards de jazz, e dos clássicos da música brasileira que minha mãe cantava em casa e nem sabia que eram os clássicos. Minha mãe era muito festeira, ela contava causos, fez nosso bloco de carnaval lá em São Sebastião durante muitos anos, [era] ela [quem] escrevia o samba-enredo. Então eu achava que “Chiquita Bacana”, por exemplo, era uma invenção dela. Meu repertório foi formado muito por isso, pelos clássicos, através da minha mãe, e pelo pop do meu pai, um carioca da Tijuca, que foi amigo de Erasmo Carlos, gostava de Tim Maia, Roberto e Erasmo. E meu pai, viciado em rádio: foi ator de rádio-novela no Rio de Janeiro um tempo, ele que me ensinou o que era zapiar um dial, ouvir ondas curtas, até hoje a gente divide essa mania de ter vários equipamentos.
E depois do Radiografia, que rumo você tomou?
Eu fiquei bastante tempo na Cultura AM até que eu cheguei à diretora de programas, que era um cargo bacana. Eu era bastante jovem, tinha uns 25 anos, mas tive minha filha e fiquei cansada de São Paulo. Me separei do pai dela um ano depois que ela nasceu e resolvi voltar para a praia. Aquela ideia de dar aula meio período virou fazer um programa de rádio aos finais de semana, e, no resto de tempo, eu cuidava da minha filha. Virei uma caiçara de novo. Deixei o cabelo comprido até a cintura, andava de bicicleta… E fiz um programa de rádio muito bacana chamado Baleia Azul, que era um programa de música e meio ambiente, pioneiro no tema no rádio. A moçada se juntava para fumar uma e ouvir o programa, porque eu colocava o canto da baleia Jubarte junto com o som do Alpha Blondy e juntava com Itamar Assumpção, que nunca ninguém tinha ouvido lá. Tocava umas coisas bem malucas, e fazia o programa ao vivo, toda semana. Levava meus LPs numa sacola de praia e as gravações das reportagens que eu fazia andando pela Mata Atlântica ou saindo de barco gravava num cassete e soltava no microfone, porque não tinha muito como editar. Era uma delícia de fazer. Eu que mexia na mesa, fazia o programa todo em pé, era uma hora que eu fazia um show, dançava…
Ficava brincando de DJ…
Brincando de DJ! [risos] E passando o recado do meio ambiente e informação sobre música. Virou um entreposto ecológico, fazia festas com a música do Baleia Azul, os meninos que pegavam onda andavam com “Atleta Baleia Azul” [mostra escrito de camiseta] e um monte de baleia diferente nas camisetas. Foi uma viagem! Fiquei cinco anos lá até que acabou a grana, minha filha estava com seis anos e eu queria colocar ela numa escola bacana. Passei a ligar para os amigos de São Paulo e dizer ‘quero voltar’. Aí me disseram: ‘vai para [a rádio] Eldorado que é a sua cara’. Eu trouxe o projeto do Baleia Azul, eles não quiseram o programa, mas me quiseram. Então eu virei repórter de meio-ambiente. Foi muito divertido, porque eu passei uma temporada como correspondente no litoral. Foi pouco tempo, seis meses, mas foi uma farra. Eu ia para a praia com o namorado a tarde, jogava uma raquetinha. ‘Opa, três da tarde, eu tenho de entrar no ar’. Ia para um orelhão e ligava. [Faz voz mais narrada:] ‘Olá, aqui é Patricia Palumbo em São Sebastião. Hoje a gente vai falar sobre as canoas de voga que existiam aqui há não sei quantos anos e piriri e pororo…’ E nesta altura, eu já tinha uma cancha do ao vivo, então eu ficava pensando nas coisas e na hora de ligar já tinha tudo pronto. Até que eu fiz uma reportagem especial e tive que editar na rádio. Passei uma semana trabalhando em São Paulo e o coordenador de programação foi demitido. Aí o João [Lara Mesquita, diretor-geral da rádio Eldorado] passou no corredor e me perguntou: ‘vem cá, o que você conhece de música?’ [risos] Eu falei: ‘ah, João, isso não é coisa que se pergunte no corredor, né?’ ‘Não, mas você já trabalhou com música?’ ‘Já, você sabe disso, fiz programação na Cultura.’ ‘Não, mas você gosta de música, gosta de jazz? Música clássica?’ ‘Sim!’ ‘Quer ser a coordenadora de programação aqui da rádio?’ ‘Meu, preciso pensar!’ [rindo] ‘Tá bom, você tem o feriado de 7 de setembro, quando você voltar, me diz.’ Aí fui para a Serra da Bocaina fazer um especial. Voltei e… Imagina… dizer ‘não’ para um negócio destes?
E você aceitou.
Comecei a fazer a programação e algumas entrevistas para o Canta Brasil. Até que aconteceu uma coisa [pausa]… A vida tem sido muito generosa comigo, porque as coisas meio que acontecem, assim, e vão dando certo. Bem, era uma quinta-feira à noite e o locutor do horário foi demitido sumariamente porque disse pela décima quinta vez o dial errado no ar. [Conta a história de como assumiu a locução comentando as músicas e as notícias do dia.] Então falava: ‘Estou aqui com o Caderno 2 [suplemento de cultura do Estadão] e saiu uma matéria sobre o Federico García Lorca, poeta incrível que estudou guitarra flamenca, falando nisso vamos logo tocar o sax de Lucia’ [provavelmente referindo-se ao instrumento na canção "Paco de Lucia"], e entrava a programação [risos]. Os caras adoraram, acharam uma delícia e mudou o estilo de programação da Eldorado a partir daquele momento. Eu ganhei A Hora do Rush para fazer. Foi a primeira FM a prestar serviços sobre o trânsito no final da tarde. Um programa que eu fazia atendendo o telefone, pondo música no ar, falando com o ouvinte, com o helicóptero. Começou com uma hora, duas horas, três horas… foi um sucesso, a Eldorado bombou de audiência naquela época, a gente estourou, foi o pico. E assim rolou, todo mundo hoje faz um final de tarde com prestação de serviço e interatividade.
E essa relação com o ao vivo, como é?
Isso é o melhor.
Você acha que todo jornalista tem de ter esta habilidade?
Eu acho porque o jornalista tem de estar preparado sempre para o que ele faz. Eu, jornalista de música e de meio-ambiente, eu passo a minha vida ouvindo discos e lendo sobre música, músicos, biografias, cantores e tudo isso. Quando eu vou fazer uma entrevista, não quer dizer que o dia antes eu tenho de ler alguma coisa, eu venho fazendo isso a minha vida toda! A gente esquece um pouco que o jornalista é formador de opinião. Então a gente tem, ainda por cima, o privilégio de ter um microfone, e você tem a possibilidade de falar para milhares de pessoas, é uma responsabilidade gigante. Se você falar merda por aí, desculpe o palavrão, neguinho vai repetir e vai acreditar naquilo. E é uma pena, às vezes eu vejo muito jornalista inconsequente neste sentido, sabe? Independente de idade e de geração, acho que é uma formação equivocada, esquece o principio básico da coisa. Nós somos conhecidos como formadores de opinião. Isso é até jargão…
E daí como foi até o Vozes do Brasil?
Eu estava dirigindo a rádio, fazendo A Hora do Rush, o maior sucesso. Saí de férias com todo mundo me amando e quando voltei alguma coisa muito louca tinha acontecido para que as vontades virassem ali. Percebi que não ia mais rolar, liguei para alguns amigos e perguntei se tinha algum lugar pra mim lá e falaram: ‘claro, vem aqui amanhã!’ Fui pra Musical e fui fazer esportes radicais na ESPN Brasil, foi uma delícia, fiz viagens incríveis! E na Musical eu assumi o mesmo horário que eu tinha, [num programa] que chamava Vozes do Brasil. Só que era um vitrolão, uma programação corrida sem locutor. Eu peguei este horário e transformei num programa de personalidade, num programa com comentário e entrevista feita ao vivo quando eu não estava viajando para escalar montanha… [risos]. Só que eu peguei o último ano da Musical, que foi arrendada por um grupo religioso. O diretor da Eldorado me chamou de volta, porque aqueles 50 mil ouvintes por minuto se transformaram em 19 mil logo depois que eu saí. Mas em rádio você não recupera audiência tão rápido como quando ganha. Ganhar audiência é um fenômeno, quando perde, para recuperar, leva bem uns dez anos. É quase como romper um contrato de fidelidade: o ouvinte está acostumado com aquilo ali, é aquilo que ele consome, aquilo que ouve, tem intimidade com aquele negócio, de um dia para o outro, bumba, nego vai embora e não volta nunca mais. Aí eu voltei para A Hora do Rush, e com o Vozes do Brasil. E lá estou há doze anos desde então. O Vozes já teve vários formatos diferentes, e hoje além de estar na Eldorado está em quatro rádios no país. Então eu fiz uma pequena rede do programa [Salvador, Educadora; Curitiba, Lumen, Belo Horizonte, Inconfidência; e Santos, Litoral FM].
Como você escolhe os convidados?
Eu escolho muito pelo que estou gostando de ouvir naquele momento. Estava até conversando com o Luiz Tatit um tempo atrás, falando da transformação que a gente viu na música brasileira nos últimos dez anos e que eu vi acontecer ali. Porque quando eu comecei no Vozes do Brasil o pessoal que estava despontando são os que hoje são considerados já meio velhos, quase ultrapassados: Lenine, Chico César, Zélia Duncan, a Cássia… A Cássia não será ultrapassada nunca, que isso fique muito claro [risos]! Mas eu vi uma transformação gigante acontecer na música. Primeiro o fim das gravadoras, o jabá cada vez mais fraco, a música independente cada vez mais forte, o acesso ao estúdio, à gravação e ao suporte do disco cada vez mais fácil, e hoje uma qualidade inacreditável de boa música sendo feita. Só neste começo de ano, a gente está em maio, já posso dizer dez discos bons para caramba de música brasileira jovem, contemporânea.
Quais?
Karina Buhr, por exemplo, um disco espetacular, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, o disco novo do Maquinado, do Lúcio Maia, Patricia Polayne lá de Sergipe, que é bom pra cacete, Márcia Castro, que está fazendo um disco novo, o disco novo da Bárbara Eugênia, do Thiago Pethit; Roberta Campos, Érika Machado. Ah! Gente pra burro e só coisa boa!
Quando assumiu a programação na Eldorado você disse “não me dirige”. Não dá para falar do que você não curtiu?
Não, eu não gosto. Se eu não gosto da música eu prefiro não tocar, do que colocar no ar e dizer que não está bom. Porque eu sei qual é o trabalho que dá fazer um disco e eu sei que cada universo é muito verdadeiro. Neguinho está fazendo aquilo acreditando naquilo, gostando daquilo, é a vida dele, o gosto dele, o jeito dele se expressar, quem sou eu para detonar o cara? Dizer o que é bom, o que é ruim, ‘não ouça’, não! Cada um ouve o que quer ouvir. O que eu ouço, eu coloco no ar. E aí é esse filtro. Eu não tenho formação musical formal nenhuma, nunca fui muito persistente no estudo da música. No entanto, eu ouço música e trabalho com música há muitos anos. Tenho um filtro qualquer aqui que serve para dizer: ‘este aqui é bom’.
Então tem como passar informação dessa forma? Expor um trabalho artístico e aí está também o jornalístico?
Claro, sem dúvida. Porque o meu filtro são os meus parâmetros. Então o que eu estou colocando ali… Porque, para mim, a boa música conversa com o que já foi feito, mas que traz alguma coisa de original. Então é muito difícil você ouvir alguma coisa que nunca, jamais, em tempo algum você tenha ouvido, de uma originalidade que te cause estranhamento. Mas é desejável que o novo venha com algum frescor, com alguma informação diferente. Nem que seja na maneira de misturar aquilo que todo mundo já misturou. O tropicalismo aqui no Brasil deu o tom que a gente ouve até hoje no que tem de bom e de brasileiro. O brasileiro é misturador, é antropofágico, é inventor, vai no jeito, vai na gambiarra. O [guitarrista da banda Cidadão Instigado, Fernando] Catatau estava falando ‘eu toco de um jeito diferente por que eu tenho muita dificuldade de tocar do jeito certo’. Então acaba saindo um negócio que ninguém mais faz. Assim como ele, são inúmeros: o violão do Nelson Cavaquinho, por exemplo. É um violão espetacular, mas é sujo. O violão do Lenine: mesma coisa. O violão do Nando Reis, ele quase que arrebenta aquilo lá para tocar; muito maluco. A gente tem uma informalidade no trato com a música, uma dessacralização que acaba fazendo com que a gente seja, de maneira geral, muito original. E eu sempre procuro, quando ouço alguma coisa, as referências. Porque você não pode fazer um negócio completamente desconectado do lugar de onde você veio. Quando você ouve uma música e não abre janelinha nenhuma é porque aquilo ali foi montado, é fake, é falso, você percebe a diferença entre um negócio que tem raízes, consistência, e uma outra coisa que é: ‘ah, vou fazer essa baladinha aqui que eu quero que toque na novela’.
E qual é a diferença entre as tuas atuações? Você participou, por exemplo, do Conversa Afinada [programa da TVE Brasil]…
Eu não faço mais, mas foi uma experiência diferente para mim. Que eu falei ‘não vão me dirigir’, eu tenho essa prerrogativa há muitos anos. Não sei nem como eu consegui. E no Conversa Afinada eu não fazia pauta, foi o único programa que eu fiz na vida que eu não mexi na pauta. Então eu entrevistei artistas de universos muito distantes do meu. E foi aí que eu tive essa experiência: cada universo é um universo.
Também tem o Instrumental SESC…
O Instrumental SESC Brasil é um projeto que eu adoro, é o maior de maior audiência da SESC TV, e gente incrível como Edu Lobo assiste a gente, sabe? Eu adoro fazer, por que eu acho que a música instrumental no Brasil é riquíssima e tem pouquíssimos espaços com essa liberdade de palco e de variedades que a gente tem no SESC.
O que você lê?
Eu leio tudo, eu leio dois jornais todo dia. Folha e Estadão. Leio loucamente. Eu tenho uma compulsão, sou do tipo que põe o jornal pro cachorrinho fazer xixi e fala: ‘opa essa aqui eu não tinha lido ainda’, e fica ali agachada na área de serviço. Revista feminina, revista de vela, a Trip, Tpm, Rolling Stone, Bravo!, Veja, IstoÉ e Época… Leio todas as biografias que caem na minha mão: de Chet Baker e Cole Porter à Elizeth Cardoso, Elza Soares e Mário Reis.
Fora do trabalho, você ouve música por prazer?
Ah, claro, por prazer total. O meu trabalho me dá muito prazer.
Não satura?
Olha, o que às vezes me cansa e isso eu devo confessar é ir em show sem parar. Eu tenho que ir em muitos shows. E tem temporadas que eu não consigo. Já teve ocasião de eu ir em 3 shows na mesma noite. Então é bravo.
E o seu relacionamento com os entrevistados?
Essa coisa da entrevista começou comigo antes mesmo do Borghettinho, quando eu fui numa coletiva do Cazuza e eu fui carregando equipamento para a repórter com a promessa de não abrir a boca. Aí chegou lá no meio da entrevista, chata pra cacete, todo mundo falando umas coisas pentelhas. E eu com aquele monte de coisas na cabeça para perguntar para o Cazuza e chegou uma hora e eu levantei a mão, ele olhou pra mim e achou já bonitinha, divertida… [risos] E eu perguntei aquela história [se tinha influência na música dele] da Dolores Duran e do Lupicínio Rodrigues e ele aaamou a pergunta e passou a conversar só comigo, até o final da entrevista [risos]. Foi delicioso, eu saí de lá das nuvens. Pensando que era isso que eu queria fazer da minha vida, chegar dessas pessoas que eu adoro, descobrir se é isso mesmo que eu estou pensando, se eu estou viajando, sabe? Essa primeira entrevista informal com o Cazuza me deu o tom das coisas. Quando você vai fazer uma entrevista e você mostra pro cara que você tem intimidade com a obra dele, ele se desarma imediatamente. E aquilo cria uma cumplicidade quase instantânea.
Quais entrevistas que te marcaram?
A entrevista que eu fiz com a Cássia [Eller] para o livro Vozes do Brasil [vol. 1, Patricia publicou dois livros com reportagens levando o nome do programa] foi muito importante para mim, porque a Cássia… sou fã total dela, admiro ela pra caramba, eu acho que ela é uma das maiores intérpretes que a gente já teve de todos os tempos aqui no Brasil. A entrevista que Itamar Assumpção me deu, foi maravilhosa. Itamar tinha uma coisa comigo, no começo eu tinha medo dele e no fim era a única jornalista que ele recebia. Então foi muito bacana. Todas as entrevistas que eu fiz para o Vol. 1 do Vozes do Brasil foram muito transformadoras. Pelo motivo mesmo que eu estava lá, por estar fazendo o meu primeiro livro, tudo isso era muito impactante, e por conta da escolha das pessoas, que eram todos muito próximos, foram escolhas muito afetivas. Outra entrevista que eu fiz e que pra mim foi muito marcante, foi uma entrevista que eu fiz quando eu era muito menina ainda com o Cauby Peixoto. Ele deu uma entrevista na rádio e eu levei todos os LPs dele pro estúdio e ele ficou muito feliz com aquilo, mas tinha momentos que ele se voltava pro microfone e falava para as fãs dele. Uma coisa dos tempos de Rádio Nacional, aquilo foi muito emocionante pra mim. A dona Edith do Prato, conhecer uma mulher como ela foi incrível.
E daqui pra frente? Você tem mais planos?
Ah, tenho. Eu quero continuar o Vozes, o projeto do livro, eu quero fazer o Vol. 3. Tenho a ideia de fazer uma biografia, como eu consumo muito as biografias de música, eu quero fazer uma também. Uma não, várias, né? Mas eu acho que agora eu não vou conseguir parar para escrever, porque eu estou, realmente, fazendo muita coisa. Programa de música instrumental, programa de rádio que vai para um monte de emissoras, o blog da internet que dá trabalho também [risos], o programa com a Natura [Musical], essa coisa da curadoria pra um monte de coisas, que toda hora me chamam, um release que toda hora eu escrevo. Então não tenho tido muito tempo pra parar e escrever.
Quem seria o biografado?
Ah, meu, não sei ainda. Eu estou com algumas ideias na cabeça, mas… [risos] uma hora eu conto!
A voz dos que cantam:ela conquistou a atenção de Cazuza, conversou c/ Cássia e era só ela qm falava c/ Itamar Assumpção http://migre.me/QYcK
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Ótima matéria!
Ja encaminhei… parabéns!
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Muito massa!
Adoro ela!
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Parabéns pela entrevista. Curiosidades que eu sempre quis perguntar pra Patrícia. Muito bacana o jeito como foi conduzido o papo também…como no Vol 1 do Vozes: dá pra visualizar o ambiente e ouvir! Vou aguardar as novidades que ela deixou no “ar”.
ótima entrevista. agora gosto mais ainda da Palumbo!
Achei essa entrevista muito intere…ZZzzzZZZzzz
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