Musicais são musicais, já mencionei isto por aqui. Encantadores e arrebatadores de platéias rendem teatros famosos e adaptações cinematográficas – ou vice-e-versa. Na década de 1950 parece que este tipo de produção era o que o público mais queria, aliás são assim os grandes clássicos do teatro e do cinema desta época. Dentre os autores famosos do auge Broadway há uma dupla que circulou nos dois tipos atuais de musicais.
“Lerner and Loewe” é como costumam se referir a uma dupla de escritores de comédias musicais: Alan Jay Lerner, o letrista (autor da letra de canções) e libretista (da letra de óperas, libretos), e Frederick Loewe (Fritz), o compositor.
Pelas histórias, ambos eram ótimos profissionais do tipo perfeccionistas que, apesar de trabalharem com outros e freqüentemente se desentenderem, atingiam o tom perfeito. Alan Lerner, um pouco metido, mandava Fritz Loewe sempre refazer as melodias, crendo que ele poderia fazer melhor. Mas ele próprio, Lerner, passava semanas para conseguir uma boa letra. A pressão sobre o trabalho da dupla era somente de Lerner sobre Loewe, já que este esperava pacientemente pelo término do trabalho de seu parceiro sem reclamar.
Em dezembro de 1985 a dupla recebeu o “Kennedy Center Honor”, um prêmio honorário anual dado a personalidades que em sua vida contribuíram para a cultura americana, entregue na Casa de Ópera Kennedy Center.
Entre seus trabalhos mais conhecidos estão “Brigadoon”, o teatro de 1947 adaptado em 54, e “Camelot”, a peça de 1960 e o filme de sete anos depois. Para a surpresa de todos até o fantástico e simpático filme “O Pequeno Príncipe” está na lista dos trabalhos da dupla – o último, em 1974.
Mas é interessante notar duas de suas composições que fizeram e ainda fazem sucesso, mas em caminhos inversos: “My Fair Lady” e “Gigi”. Ambas são histórias – e músicas – muito similares. Passam em épocas parecidas, tratam de modos e costumes, há uma menina sem muita educação e um romance sutil sem nem uma cena de beijo sugerida.
“My Fair Lady” surgiu como musical da Broadway em 1956, sendo adaptada para as telas na pele da maravilhosa Audrey Hepburn – dublada – em 1964. O musical, que trata de uma aposta sobre o ensino de linguagem e bons costumes a uma moça rude e pobre, é baseado em outra peça, “Pygmalion” de George Bernard Shaw. Até os dias atuais “My Fair Lady”, nos palcos, já ganhou mais de vinte prêmios. O filme, igualmente bem sucedido, rendeu oito Oscars, incluindo o de Melhor Filme, e três Globos de Ouro.
Curiosidade como sempre, exceto em um trecho da música “Just You Wait”, a voz de Audrey, julgada inadequada, teve de ser dublada por Marni Nixon. Fator estranho e questionado por muitos, levando em conta que outra música interpretada por ela no sucesso de 1961 “Bonequinha de Luxo”, chamada “Moon River”, ganhou o Oscar de Melhor Canção Original. As músicas na voz de Hepburn foram divulgadas nos ano noventa, para julgamento do público.
Eliza Doolittle, com seu sotaque e costumes da baixa classe londrina, lembra a personagem-título Gigi, uma simples e inquieta garota em treinamento para se tornar uma dama da sociedade (ou seria cortesã?). Ainda que semelhante, Gigi fez o caminho contrário de Eliza.
O filme “Gigi” surgiu dois anos depois do teatro musical “My Fair Lady”, em 1958, e foi somente em 73 que recebeu uma adaptação para a Broadway. O clássico interpretado por Leslie Caron se passa na capital francesa e conta a história de uma moça inquieta e brincalhona que, sendo educada pela tia-avó e avó para ser uma dama da sociedade, acaba se tornando (sem querer) uma paixão do rico Gaston. Vencedor de nove Oscars o filme confirmou o sucesso da dupla Lerner e Loewe, que trabalhava, com ele, pela primeira vez em Hollywood.
Assim como a comédia romântica anterior, “Gigi” é baseado em uma obra: o livro por Colette de mesmo nome. Foram os ânimos de “My Fair Lady” que levaram o produtor de Hollywood Arthur Freed a propor este trabalho para Lerner e Loewe. Fator curioso, como sempre, é que Lerner considerava a diva Audrey Hepburn perfeita para o papel, mas Fritz o convenceu a aceitar a Leslie Caron. Hepburn havia protagonizado a peça da primeira adaptação deste mesmo romance feito por Anita Loos e lançado, para variar, na Broadway.
A adaptação teatral não teve tanto sucesso, talvez por conta da repetição do tema. “Gigi”, além do livro, já era um filme de 1948, um teatro musical de 1951 e o filme de 58, de maior sucesso.
O estilo musical de “My Fair Lady” e “Gigi” é semelhante, bem como as letras com leves piadas que garantem um divertimento saudável. A produção de Lerner e Loewe, como um todo, não é tão repetitiva, mas nestes casos a trama é tão aparente que não há dúvida se tratar dos mesmos autores. A qualidade, portanto, continua a mesma, digna de todos os prêmios e da categoria “clássicos musicais do cinema”.
Veja uma das cenas da adaptação de “My Fair Lady”: