Livraria da Esquina – Diário de Palco 1

Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Na terceira parte deste especial, confira um show no espaço e um bate papo com a banda.

Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant

14/01/2010 – Livraria da Esquina Lado B – Show Fabulosa Banda do Curinga (Cotia – SP)

O espaço estava lotado, cheio de gente que queria conferir o som. Nas mesas, amigos e parentes dos músicos também acompanhavam. Em pé, os fãs e interessados na música que aqueles sete garotos se propunham a apresentar.

O palco do espaço B é bem baixinho, próximo ao público. A sensação é que a banda está tocando para alguns amigos íntimos. Guitarras e outros instrumentos se espremem em um retângulo pequeno. De tão perto, a sensação é de estar dançando junto com cada ritmo ditado pelo surdo da bateria.

A banda tocou as músicas de seu primeiro CD e alguns covers de bandas das quais admiram o trabalho. Durante uma das canções, o vocalista André Di Bona e o pianista Paulo Giannini distribuem cartões com as informações da banda para todos – assim, mão a mão, olho no olho entre um acorde e outro.

Estavam todos alegres com a presença de tanta gente – o espaço era pequeno e aproximadamente 100 pessoas pulavam juntinhas para não ocupar tanto espaço.

Assim que o show terminou e começou a discotecagem típica da Esquina. Para quem gosta de música eletrônica, o rock melódico e alternativo dos rapazes deu espaço para o ritmo bem marcado do dub, estilo jamaicano de música eletrônica no qual o baixo e a bateriam são valorizados ao extremo, enquanto os vocais simplesmente desaparecem.

Os sete descem do palco entusiasmados. Alguns pegam água, outros cerveja. Contentes, abraçam os amigos como se aquele fosse o melhor show da vida deles, sorrisos enormes e abraços apertados – sobraram alguns para uma dezena de desconhecidos que ainda pulavam com o pouco de música que pairava no ar.

Dançaram um pouco, conversaram um pouco, beberam um pouco. São jovens normais, de assuntos normais. Futebol, namoradas, eles esquecem os acordes entre um papo e outro. Mas é inevitável, alguém sempre aborda um integrante ou outro para elogiar e discutir as músicas da noite.

Não demora muito e alguns deles, incluindo o vocalista, sobem para o espaço “A”, onde a banda Jardim das Horas estava tocando. O show teve um clima tão positivo que agendaram outra data, naquela mesma noite, e voltaram a tocar na Livraria no dia 22 de abril.

Mesa de Boteco: bate-papo entre um acorde e outro

Igor Fediczko, guitarrista da Fabulosa Banda do Curinga

De onde você conhece a Livraria da Esquina?
Na verdade a livraria hoje é na Barra Funda, numa rua qualquer, e tem esse nome porque era uma livraria em perdizes na Caeté com a Caiuby, se bem me lembro. Quando era em Perdizes, era uma livraria mesmo, tinha alguns livros espalhados por umas estantes, mas era menor, tinha público menor e não tinha tanta visibilidade.

Como vocês foram tocar lá?
A gente um dia viu a entrada do lugar e nos interessamos. Entramos e nos oferecemos pra tocar. Como era menor o Heitor topou na hora, ainda não tinha muita banda querendo subir nos palcos da Livraria, não era um espaço muito bom para um show – não podiamos fazer muito barulho… E então, acho que o cara se mudou pra Barra Funda. Saiu no Guia da Folha como um dos melhores lugares pra ouvir música em São Paulo e ficou conhecido, mas a gente já conhecia muito antes. Tem um clima diferente para nós.

E o que é bom e ruim pra você no novo espaço?
O bom é que podemos tocar mais alto, mais tarde, pra mais gente, mas eu preferia a localização em Perdizes. Em relação a parte técnica é tudo muito melhor, tem palco, aparelhagem, estrutura. Mas o lugar é complicado, todo mundo se perde pra chegar. A Barra-Funda não é um bairro tão tranquilo assim.

E quem vai à livraria? Quem foi no teu show?
O público é de São Paulo, a gente é de Cotia. É diferente, é muito mais presente, mais perto do palco. O principal é isso, tava cheio, não tinha como ficarem longe, mas com certeza o melhor é a recepção do público.

Qual tua relação com os donos do local?
É meio complicado falar com os donos porque estão com muita banda e muita gente, mas são muito gente boa. São pessoas que estão ali porque querem música. Pelo fato de quererem música estão ajudando a gente que quer fazer uma música própria. O que a gente pede, dão um jeito de fazer, ajudam em tudo que a gente precisa. É bem confortável tocar aqui.

André Di Bona, vocalista da Fabulosa Banda do Curinga

Qual é a tua relação enquanto músico com a Livraria da Esquina?
A Esquina é um espaço bom porque é aberto pra todo mundo, a gente tocou a primeira vez na esquina mesmo, lá em Perdizes.

E como foi, pra você, o show no novo espaço?
O show foi bom porque tava cheio. Quando a gente toca na Granja [casa Canto Granja Viana, onde uma vez por mês fazem o projeto Fabulosa Convida com outra banda ou músico], o público é diferente, são os amigos nossos. Na Esquina é uma galera que a gente não conhece. O lugar é meio fora de mão, mas pra quem está aí é bem no centro, é uma puta opção. Foi um bom show porque estava cheio.

E o que você acha do espaço como um todo?
Legal, tem acesso interessante a bandas legais. Lá toca gente como o Volver. O mais legal daqui é a Livraria estar aberta para bandas independentes. A região eu não curto muito, mas é legal pelas bandas que tocam. Se investissem mais com iluminação, som, o retorno seria maior.

Lá tem uma pegada de independente, né? Pode influenciar na estrutura, talvez.
Muita gente confunde com essa coisa de tosco e roots [de origem própria e simples]. A galera confunde o ruim com alternativo, se investisse um pouco mais ia dar um pouco mais certo e não deixaria de ser alternativo.

E vocês estão fazendo seu próximo álbum, não é mesmo?
Estamos na pré-produção, fazendo algo mais orgânico. O primeiro, como éramos muito novos, colocamos um monte de coisa. Na hora de reproduzir no show fica complicado. Agora é mais parecido com que a gente faz no palco.

Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina

Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco

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