Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Na segunda parte deste especial, confira as impressões de uma noite no espaço.
Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant
Na entrada da Livraria da Esquina “A”, depois de subir uma escada estreita, há um cubo mágico iluminado por dentro e fotos, textos e recados escritos a giz por todas as paredes. Além de alguns poucos ao lado da escada, só há livros nas estantes mais para frente, na parede da esquerda. Mesmo assim, alguns livros são mais antigos e estão dispostos como se fosse um sebo – desorganizados, meio que deitados, esperando uma boa música. Os livros empoeirados se equilibram sem querer nas estantes mais vazias.
Antes, a parede do lado esquerdo também possui seis retratos de homens e mulheres nus. Os retratos são gravados em vidro e com a luz baixa do local formam silhuetas escuras atrás na parede. Abaixo destes retratos, um balcão para apoio dos clientes com bancos altos. Neste balcão de madeira há flyers de shows antigos, como do Gritando HC, todos prensados abaixo de um vidro. Algumas garrafas de cerveja já vazias sempre estrelam o balcão. A livraria abre às 18h e, até os shows que, em média, começam às 22h, muita conversa já rolou nestes bancos.
No céu da livraria, zepelins de papel maché flutuam iluminando as mesas. São lustres, de cor roxa, verde, laranja e um todo misturado, com várias cores.
Do outro lado, no canto direito, um bar com dois homens fortes servindo. Não dão um sorriso, falam seriamente e baixo, mas pedem para repetir quase tudo que se pede. Quando é um lanche, ele pega uma espécie de interfone para avisar a cozinha do pedido. A dispensa e a cozinha ficam no lado “B” da Esquina. No lado “A”, apenas uma pia e um bar atendem ao show.
Quando conversam, entre si, entretanto, são brincalhões e dão risadas, correndo de um canto pro outro do balcão e recolhendo as garrafas vazias. Passam desapercebidos, mas estão lá. O lugar é limpo, organizado. Suporta horas de show alternativo sem perder a ordem.
Há sempre muitas pessoas no local, quase todas com o visual alternativo: chapéus, boinas, blusas e calças xadrez. Mesmo assim, dificilmente o lugar está lotado, há um amplo espaço entre os grupos que conversam em rodinha de cinco a oito. Alguns músicos falam sobre sobreviver da música, pagar as contas com seu trabalho, e poder ir uma vez ao mês na “balada” Love Story. “Aí sim, vou estar com a vida firmada”, diz um deles, com um imenso alargador na orelha.
Ao fundo, toca uma mescla de música eletrônica, psicodélica, e, às vezes, até um samba escapa entre um bit e outro. Naquela noite (9 de abril), O DJ Alexandre Marques, da cidade paulista de São Carlos, diz que são todas nacionais, mas muitas são entoadas em inglês.
Antes do palco, que fica ao fundo, mesas e cadeiras de madeira clara ficam nas laterais formando um corredor e um espaço entre elas e o palco onde as pessoas podem ficar em pé. Este espaço só é ocupado, com amplos buracos, durante as apresentações ao vivo. Ninguém parece dançar muito ao som da discotecagem.
No caixa, ao lado da escada e próximo à entrada, várias blusas e CDs de bandas independentes estão à venda em um estande montado pela organização do festival que ocorria naquela noite. Um casal recebe as comandas e os pagamentos dos clientes, enquanto um gato pula entre as estantes, caixas e mesas logo atrás deles.
A cena parece de filme: um gatinho passando por todos, como se não estivesse lá, em meio a uma casa em mudança, com caixas de papelão no chão, camisetas e discos espalhados. De pelos beges, o gato parece não incomodar ninguém; todos são alheios à sua existência. O nome do bichano é Paul Simonon – originalmente do co-fundador da banda britânica The Clash, uma das favoritas de Heitor. Na opinião do público, e até dos funcionários da casa, o gato é o mais chato dos frequentadores da Esquina. Ego compartilhado com seu ilustre homônimo.
Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina
Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco
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