Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Confira o especial de cinco partes.
Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant
Nos últimos anos, a Barra-Funda – antigo bairro comercial de São Paulo – tem sido cenário para a agitada vida noturna da cidade. Algumas das casas de shows mais famosas têm suas sedes nas pacatas ruas barra-fundenses. Como a Clash, casa que figura entre umas das opções mais caras de entretenimento e tem suas portas de entrada de frente ao PROCON, órgão público hoje localizado em uma enorme construção que fora, há muito tempo, sede para a então imponente Ferrovia Paulista AS – a FEPASA, incorporada à rede ferroviária federal, em 1998, em pagamento de uma dívida e privatizada durante o governo FHC.
Muito deste contexto decadente da estrada de ferro ficou pelas vias povoadas por casas conjugadas e sobrados com paredes descascadas e tijolos a mostra; cenários dos operários, maquinistas e magnatas da locomotiva que impulsionou o estado. A linha do trem corta o bairro ao meio, criando, geograficamente, a Barra-Funda de cima e a Barra-Funda de baixo, batizada pelas bocas dos antigos ferroviários e moradores como “México”, apelido de uma antiga favela – hoje inexistente – que dominava parte de seu atual terreno.
A Clash, com seus custosos ingressos de entrada, fica no lado de cima do bairro, de braços dados aos trilhos e ao que já foi promessa de um futuro promissor para a região. O espaço é companhia para outras casas noturnas – tão ou mais famosas – como a D-Edge, a Berlin e a Flex GLS. Atravessando o Viaduto Pacaembu – vizinho das badaladas casas, do PROCON e da antiga FEPASA -, passa-se em cima da estrada de ferro que hoje atende a Companhia Paulista de Trens e Metrô (CPTM), e chega-se a, ainda espaçosa, repleta de terrenos, Barra-Funda de baixo, que hoje é ponto de interesse do mercado imobiliário paulistano. Afinal, concordando com as bocas que, há décadas, se contorciam para chamar a região de “México”, o local faz jus à alcunha e nos faz lembrar os cenários de filmes de faroeste que exibiam as cidades mexicanas entregues às moscas – o lado de baixo do bairro é espaço tomado pelos pátios industriais (ativados e desativados), por armazéns e por garagens de viações rodoviárias que dão suporte à frota do terminal que leva o mesmo nome do bairro e localiza-se ali, próximo a todos aqueles trilhos.
E é nessas ruas, cuja impressão é de que se vai cruzar com algum personagem imortalizado pela atuação de Charles Bronson ou de Clint Eastwood, que se localiza a Livraria da Esquina. A entrada é barata, variando entre 10 e 20 reais. A fachada é singela, uma porta de vidro e uma normal, de madeira. Grafites por toda a parede são uma mera indicação de que naquele lugar, durante a noite, shows podem acontecer.
Assim como o bairro ao qual pertence, a Livraria também se divide em duas: Lado A e o Lado B, iniciais de alto e baixo – outra coincidência. No entanto, não há México e ferrovia. A divisão apenas acontece para que o lugar comporte dois shows em uma mesma noite. Diversidade é a opção até mesmo na hora do espetáculo.
Nasceu nas Perdizes – outro bairro paulistano que, no entanto, de comercial não tem nada. Era uma pequena livraria com mais espaço do que livros que, para o Heitor, dono do estabelecimento, era a oportunidade para divulgar bandas de garagem dos jovens que moravam pela região. Com isso, veio os salgadinhos, a cachaça mineira, as guitarras, a cerveja, o barulho e as reclamações. Os condomínios próximos não sabiam ser bons vizinhos de agitadores culturais.
A Livraria foi parar na esquina da Rua do Bosque, no Lado B da Barra-Funda. Entre uma emissora de televisão e uma fábrica de piche para asfalto, a casa fica escondida – longe dos edifícios residenciais e da reclamação. Não é underground porque não é subterrânea, mas é um daqueles espaços dos quais se dá orgulho em ser um dos poucos a conhecer. Ainda assim, o lugar é aclamado por guias da cidade. Um número cada vez maior sobe as escadas e busca – lado A ou lado B, não importa – uma sabatina diferente.
Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina
Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco
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