
Fotos: Séfora Rios
Quando formou os Neon Boys em 1972, ao lado de seu então parceiro Richard Hell e do baterista Billy Fica, Tom Verlaine talvez não imaginasse que aquele trio seria a espinha dorsal de uma das mais cultuadas bandas da cena punk e new wave.
Verlaine e Hell haviam estudado juntos na Sanford School, na pequena cidade de Hockessin, no estado americano de Delaware, e se mudado para Nova Iorque em tempos diferentes. Em 1973, recrutaram o guitarrista Richard Lloyd e mudaram o nome da banda para o qual ela seria conhecida desde então: Television.

Em 1974 o Television conseguiu um contrato para ser a banda residente do lendário CBGB, então um local desconhecido e antiquado, referência apenas para as bandas que não tinham outro lugar para tocar. Ali, a banda se tornou parte de um recente movimento batizado pelo jornalista Legs Mcneil como “punk” e que consistia no estilo de som rápido e inovador tocado por bandas como Ramones, Blondie, Dictators, Dead Boys, Television e outras. Apesar disso, em recente entrevista à Folha De S. Paulo, o guitarrista Tom Verlaine afirmou que o Television não é uma banda punk, o que fica evidente em seu som diferenciado e bem trabalhado em comparação com a crueza e a rapidez das outras bandas que foram peças-chave daquele movimento.
Em 1975 Verlaine e Hell se desentenderam por conflito de egos nas disputa para escrever as canções da banda, e Hell abandonou o Television para participar dos Heartbreakers com os ex-New York Dolls Johnny Thunders e Jerry Nolan. Posteriormente, e pela mesma razão de sua saída do Television, Hell criaria sua própria banda, o Richard Hell and The Voidoids. Para seu lugar, Verlaine chamou o então baixista do Blondie, Fred Smith.
Em fevereiro de 1977 o Television lançou Marquee Moon, considerada sua obra-prima. Diferente dos outros discos da cena punk, o Television apresentava um som mais trabalhado, com as linhas de guitarra de Lloyd e Verlaine se cruzando e o baixo de Smith marcando o ritmo diferenciado da banda. Marquee Moon esbanjava virtuosismo e introspecção, sem perder os momentos de agito. As letras intelectuais e o tom de voz de Tom Verlaine fizeram de Marquee Moon um clássico cult. O disco acabaria por influenciar diversas bandas das cenas new wave e pós-punk, e suas músicas eram as mais aguardadas pelos presentes que compareceram ao Beco 203 na última quinta-feira, dia 11, para ver a lendária banda se apresentar ao vivo.

Com o guitarrista Jimmy Rip no lugar de Lloyd, que abandonou seu posto em 2007, o Television tocou para um público lotado que se apertava na plateia esperando ouvir os clássicos, e a banda não decepcionou, entrando logo com Prove It, música presente em Marquee Moon. Na sequencia a banda tocou Jericho, uma música que não está presente em nenhum de seus registros de estúdio. Little Johnny Jewel, que faz parte de uma edição com faixas bônus de Marquee Moon veio na sequencia, e os fãs que esperavam e clamavam pelo agito de músicas como “See No Evil” e “Friction” se deparou com o virtuosismo de Verlaine e Rip, em uma execução que deixou o público parcialmente entediado.
A animação foi retomada com Glory, faixa de abertura do segundo disco do Television, Adventure (lançado em 1978), e um dos clássicos da banda. The Fire, do mesmo disco, veio na sequencia. Psychotic Reaction, cover da banda garageira sessentista Count Five foi a próxima do set list. O público, calado e estranhando o caráter virtuoso e instrumental do show, voltou a se animar, mas não por muito tempo. Com uma execução improvisada em um português carregado de forte sotaque norte-americano, Verlaine declamou palavras como “andando”, “não esquecerei” e “sem mágoas, vou embora”, enquanto os músicos destoavam experimentalismo e a maior parte do público, ansioso em ouvir os clássicos, pedia para que ele ficasse. Para fechar, o Television atacou com Marquee Moon, clássico absoluto de seu mais famoso disco, o que animou a plateia, que pediu o bis. E ele veio com Venus, faixa 2 de Marquee Moon, e um cover de Satisfaction dos Rolling Stones. Verlaine se despediu e o Television retornou ao camarim, enquanto alguns esperançosos fãs ainda gritavam por sua volta e pediam os clássicos não executados como See No Evil, Friction e Days.
O agito das músicas ausentes fez falta ao show, que apesar de muito bem executado, manteve a plateia fria durante a maior parte do tempo. O preço do ingresso de 80 reais (100 na porta), sem meia-entrada, também foi acima da realidade da maior parte dos jovens fãs presentes. O vocal de Verlaine também não é mais o mesmo, o que ficou evidente em alguns momentos do show.
As constantes afinações de guitarra do líder da banda e o virtuosismo e experimentalismo apresentados ao longo da maior parte da apresentação mantiveram parte dos fãs com certa distância e, em alguns momentos, frustração. Mas, apesar disto, o Television conseguiu dar ao público presente o gosto de sentir parte da atmosfera que o consagrou ao longo dos anos como uma das mais inovadoras e criativas bandas de seu tempo.
Fotos: Séfora Rios