Por Raphael Fernandes
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Tudo começou quando decidi fazer resenhas de discos de vinil no blog Contraversão, inspirado pelo lendário crítico musical Lester Bangs. O primeiro texto sobre o álbum “Reino do Parassempre contra o Império do Nunca Mais” teve um resultado tão bacana que acabou parando aqui no Vitroleiros. Como gostei muito da parceria, decidi transformar essa viagem fonográfica numa coluna quinzenal!
Para já chegar chutando a porta sem dó, escolhi resenhar o álbum de estreia de Captain Beefheart & his Magic Band, o mitológico “Safe as Milk”. Um verdadeiro alicerce do experimentalismo musical dos anos 1960.
Engraçado pensar que descobri esse álbum quando vi Rob Gordon (numa interpretação inspirada de John Cusack) torturando um comprador no mais que clássico filme “Alta Fidelidade”. Numa das cenas mais nerds (de música) do longa, Rob se nega a vender uma edição alemã do álbum pra um cara que vai toda semana atrás do mesmo disco. Questionado por um amigo sobre o motivo de não vender o disco, o elitista dono da loja diz que aquele cara ainda não tá preparado pra este play. O amigo aproveita a deixa pra levar o álbum pra casa e Rob o vende na mesma hora.
Em 1967, o rock n’ roll havia deixado um pouco da selvageria dos primeiros anos de lado e começava a seguir por um caminho mais experimental. Era o auge do psicodelismo e muitas bandas decidiram romper com o status quo e procurar novas formas de fazer sua música. Quem poderia imaginar que quatro garotos de Liverpool, usando uma franja (muito antes do Justin Bieber), poderiam provocar toda uma revolução musical?
O mesmo não pode ser dito de Captain Beefheart & his Magic band! Afinal, em seu disco de estreia um dos pontos mais fortes é a violência de suas composições e a agressividade de suas guitarras. Porém, em cada faixa o Capitão orquestra seus marujos por delirantes caminhos psicodélicos e experimentais!
Chega de papo furado! Vambora ouvir esse play…
Capa

Antes mesmo de botar o disco pra rodar, gosto bastante de observar as capas dos discos e não pude deixar de notar que, até nisso, “Safe as Milk” estava a frente de seu tempo. Na capa, vemos uma foto da banda tirada com o efeito “olho de peixe”, um verdadeiro sucesso das fotos de skatistas nos anos 1980 e 1990. A moldura da foto traz o nome do álbum e da banda intercalados por ilustrações de vacas.

O verso rompe diretamente com a serenidade branca e leitosa da capa e mostra um alucinado quadriculado preto e amarelo. A foto do verso segue a mesma técnica, mas apresenta a banda mais distraída ao invés de olhar diretamente para o expectador.
A edição de relançamento que comprei apresenta um belíssimo vinil “colorido” em branco com um selo vermelho, que gera um lindo contraste de cores.
Lado A
A brincadeira já começa com uma pedrada bluseira chamada “Sure ‘Nuff ‘N Yes I Do”, que tem uma guitarra brincando de banjo (delta guitar). O timbre de voz rasgado de Don Van Vliet (também conhecido como Captain Beefheart) hoje pode ser definido como um Tom Waits virado no Jiraya, mas relaxa que a violência no vocal de Capitão Bife-Coração pega mesmo em outra faixa desse lado.
“Ziz Zag Wanderer” é uma incrível canção psicodélica que tem uma letra que não diz nada. Felizmente, a música tem uma força única que anima qualquer festa e seria uma excelente trilha sonora pra um filme sobre chapados de ácido numa festa nos anos 1960. Outra que poderia estar em um Road movie de época é a dançante “Call on Me”, dá vontade de ligar o carango e pegar a estrada.
Se você tava pensando que o disco era moleza, pode tirar seu cavalinho da chuva! O lado A reserva uma surpresa pro final. Estou falando do hit máximo da violência e bagaceira musical sessentista: “Dropout Boggie”. A música intercala um poderoso riff de guitarra, aos vocais quase guturais do Capitão e gera uma faixa que parece ter vindo lá do punk de 1977. Fora que tem uns tecladinhos esquizofrênicos surgindo do nada, o que torna tudo ainda mais insano. Existe uma versão doThe Kills pra essa música, mas serve mais como curiosidade perto da potencia da gravação original! Um verdadeiro hino da juventude contra uma sociedade careta e hostil.
Claro que pra você não perder a noção e sair matando alguém, o Capitão colocou a balada “I’m Glad” que deve tocar até hoje nos bailes da terceira idade (no bom sentido é claro). Som perfeito pra dançar agarradinho com a pessoa amada.
Antes de virar a peteca, o capeta toma conta de tudo novamente e a psicodélica come solta na profética “Eletricity”, que ganhou uma cover fiel do Sonic Youth. Interessante notar que a textura musical desenvolvida pelo Capitão e sua turma influenciou indiretamente o grunge.
Vou escutar “Dropout Boggie” umas oito vezes antes de ir pro lado B!
Lado B
Aqui o troço fica bizarro de vez com o aviso: “o tom a seguir é apenas para referência, ajuste o som de seu aparelho”. Relaxa, deve ser apenas uma citação ao Mágico de Oz que não captei, já que a próxima música é “Follow Yellow Brick Road” (traduzindo: seguindo a estrada de tijolos amarelos). Se fosse definir essa canção em um rótulo idiota seria “country de garagem da Louisiana”, mas não faria uma babaquice dessas nem a pau.
“Abba Zaba” começa com uma percussão que hipnotiza e acaba fazendo os músicos incorporarem uma verdadeira banda de blues com influências africanas. Van Vliet trabalha com o imaginário infantil e suas fantasias nessa música e coloca suas memórias em jogo. Coisa doida de primeira qualidade, cara!
Cortando o barato de quem já estava entrando em transe, somos atingidos pela estranha gaita distorcida de “Plastic Factory”. Musicão de primeira com viradas de bateria que farão seus ouvidos implorarem pra ouvir essa faixa mil vezes sem parar.
As três últimas músicas (“Where There’s Woman”, “Grown So Ugly” e “Autumn’s Child”) são as mais tradicionais do disco. Mesmo assim, as duas primeiras soam como versões possuídas de grandes bluseiros negros do passado e a última é o resultado do que aconteceria de Joe Cocker fizesse uma trilha para um filme B de ficção científica dos anos 1950.
Conclusão
Nem preciso dizer que o disco é quase uma obrigação para qualquer um que curta boa música e quer olhar fora da caixa da mesmice musical. Esse álbum influenciou toda uma geração que nos anos seguintes seriam os alicerces do punk.
“Safe as Milk” é de longe um dos álbuns mais psicologicamente acessíveis do Capitão e é um preview dos experimentalismo quase dadaísta dos discos seguintes. Não é a toa que o Captain Beefheart colaborou em diversos trabalhos de Frank Zappa, outro adorável doido varrido do rock. (Por sinal, recomendo o disco ao vivo da dupla “Bongo Fury”.)
Por hoje é só, vitroleiros! Lembrando que essa coluna pretende fazer resenhas de discos de diversos períodos. Afinal, música boa é atemporal e universal!