Caetano Veloso, Araçá Azul

por Débora Lopes

“Que é um sonho que tive e que, simbolicamente, eu botei como nome do disco”
Caetano Veloso

Estamos em 1973, Caetano Veloso lança “Araçá Azul”, um álbum cheio de experimentalismo, diversidade, poesia e algo ainda sem nome, inclassificável, um quê de doçura, psicodelia e genialidade; talvez a medula óssea poética do próprio Caetano. São dez faixas que a qualquer momento podem ser interrompidas por cânticos, vozes, violinos ou palmas. Um disco que virou tese de mestrado na Universidade de São Paulo, defendida pelo Prof. Dr. Peter Dietrich, em uma detalhada análise semiótica sobre o que Caetano proporcionou a seu público, tornando-se alvo de críticas e boicote de vendas.

“Vem comigo no trem da leste, peste…
Vem no trem pra Boranhém, nhém nhém nhém, nhém”

Caetano, na época com 30 anos de idade, usou em “Araçá Azul” elementos lúdicos, às vezes infantis, transcendeu em corpo, alma, música e fez a Bahia chegar até os nossos ouvidos já na primeira faixa. O álbum, que oscila sinestesicamente entre sonho e pesadelo, tem folclore nas letras e tristeza nas melodias. As letras não são apenas cantadas, elas saem de sua boca balbuciadas, faladas, arranhadas, grunhidas e proporcionam, muitas vezes, estranheza em quem ouve. Quando se aperta o “play” em “Araçá Azul”, fica difícil prever o que acontecerá nas próximas faixas.

“Sugar Cane Fields Forever” é a música preferida (na vida) desta que vos fala. Uma canção que exige olhos fechados e concentração total. Funcionaria bem como trilha sonora. Há horror e amor, há facetas diversas de um artista que cria sem medos. Inúmeros elementos que tecem o caos poético proporcionado por Caê. E, ah, lindas melodias numa só canção. Lindíssimas, meus caros.

A letra de “Júlia – Moreno”, oitava música na ordem do disco, por exemplo, foi construída como uma espécie de poesia concretista, um holograma. Durante as gravações de “Araçá”, o filho de Caetano – em começo de gestação – tinha seu sexo desconhecido pelos pais. Daí a brincadeira na letra “Uma talvez Júlia, um quiçá Moreno…”

Elementos regionais, étnicos, experimentalismo desenfreado e um orgulho brasileiro que pulsa nas habituais criações de Caetano marcam “Araçá Azul”. Mas o disco não sobrevive apenas com o que o cantor e compositor sabe fazer de olhos fechados. Influenciado pelo viés rock and roll de seu parceiro musical e amigo Gilberto Gil, que dois anos antes lançara o também lendário “Expresso 2222”, Caetano acrescenta psicodelia e guitarra elétrica ao álbum como em “De cara – Eu quero essa mulher”. Guitarras que, vale lembrar, são tocadas pelo mestre Lanny Gordin, que participou de gravações com diversos artistas brasileiros, tais como Roberto Carlos, Tim Maia, Gal Costa, Rita Lee e Erasmo Carlos.

Mas será que Caetano voou alto demais no sonho que virou vinil? Na época, grande parte dos discos distribuídos em loja foi devolvida à gravadora por falta de venda, sendo “Araçá Azul” relançado apenas em 1987. Faltou veia poética aos fãs de Caetano em plena década de 70 ou faltou ao artista tino comercial, gana por sucesso? A resposta para essa pergunta, talvez seja exatamente a frase que fecha o disco, onde Caetano, solto, com ar de menino, revela “Araçá Azul é brinquedo…”

a desafiada

Débora Lopes. Poeta e estudante de jornalismo. Cantou e compôs por quatro anos na Siete Armas, largou o rock and roll e criou o Clube da Chapadócia, pra misturar samba e poesia. Tem como paixões recém descobertas o teatro e a dança contemporânea. Prometeu não cortar o cabelo por quatro anos – já cumpriu 1/8. Gosta de ler o jornal, ver o sol e escrever poemas. Urbanóide a contragosto, quer mesmo é fugir pro meio do mato pra fazer filhos e livros.

-

tracklist

“Viola, meu bem (canta Edith Oliveira)”
“De conversa/Cravo e canela”
“Tu me acostumbraste”
“Gilberto misterioso”
“De palavra em palavra”
“De cara/Eu quero essa mulher”
“Sugar Cane Fields Forever
“Júlia/Moreno”
“Épico”
“Araçá azul”

Você pode ouvir o álbum online e ler mais sobre ele.

The Who, Who’s Next

por Renato Rocha
@RenatoDRC

Depois de muito pensar, escolhi o “The Who – Who’s Next”. Esse vinil na época me bateu tão forte que continua ressoando em minha alma até hoje. Tudo soa perfeito nas 9 faixas desse antológico disco. Fiquei ainda mais intrigado (eu tinha 15 anos quando o ouvi pela primeira vez em vinil importado da Inglaterra, presente que ganhei de um ex-sogro) com o som daquilo que fui descobrir depois que se tratava de um arpegiator. Aquele sintetizador que abre o disco em Baba O’Riley.

Todos estão tocando maravilhosamente bem, o Daltrey cantando horrores e a dinâmica do repertório é matadora. Foi possível sentir agressividade, tristeza, raiva, paixão… Vários sentimentos. As baladas são imortais também. Me lembro de pegar o violão e tentar tirar Behind Blue Eyes… Claro que só descobri alguns acordes tempos depois. Enfim, é disco com um equilíbrio perfeito, sonoridade incrível e músicas eternas. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi e com certeza ouvirei muitas mais, dessa vez com a minha filha. Já já estará na hora de apresentá-lo a ela…


//o desafiado >>

Renato Rocha é um sonhador. Cresceu em Bonsucesso ouvindo os discos do tio, começou a estudar música aos 5 anos com o piano da vizinha e não parou mais. Conheceu Tico Santa Cruz na internet e, juntos, eles começaram o Detonautas Roque Clube, banda da qual ele é guitarrista até hoje.
pulalinha

//who’s next para ouvir >>

Clique aqui para ouvir o Who’s Next, do The Who, via streaming diretamente no Sonora.

//tracklist >>


“Baba O’Riley”
“Bargain”
“Love Ain’t For Keeping”
“My Wife”
“The Song Is Over”
“Getting In Tune”
“Going Mobile”
“Behind Blue Eyes”
“Won’t Get Fooled Again”

//mais informações sobre o álbum >>

#essencialbuns XXIV: Black Album, Metallica

Por Rafael Kent
@okent

Quando me fizeram a proposta de falar sobre um álbum que tivesse marcado a minha vida eu fiquei, como sempre, meio sem saber o que falar, já que eu sou bem difícil de citar bandas e discos e filmes que me marcaram porque foi tanta coisa e em várias épocas da minha vida que eu nunca sei qual é melhor ou pior (se é que isso existe) ou o mais marcante e o menos marcante.

Mas me lembro que quando eu era pequeno lá em salvador, fui morar por lá com 4 anos e me considero mais baiano do que qualquer outra coisa, já tinha alguma percepção de vida e entendia algumas coisas.

Era engraçado porque eu via anuncios de discos (vinil, claro) na televisão e me lembro que dentre todos os que eram anunciados eu pirava no ELVIS (aquelas famosas coletâneas) e no grande Jackson.

Tenho até uma história engraçada pra contar: quando eu já tinha meio que começado a trabalhar com bandas por lá pela capital baiana fui apresentado pra galera da Mosiah, uma das bandas de destaque na cena alternativa baiana de reggae. Nesse dia, quando fui apresentado ao guitarrista, Boquinha (que toca DEMAIS), ele me perguntou se eu havia estudado em tal escola, e eu disse que sim, foi quando ele disse que lembrava de mim, o estranho é que eu não me lembrava dele e a escola era bem pequena. Perguntei o porque dele se lembrar de mim e ele me disse que lembrava do dia em que tinha rolado uma festinha na escola e que eu tinha aparecido com um disco do Elvis debaixo do braço, bem… Esse era eu. rs

Depois, com mais ou menos 12 anos, fui apresentado ao Iron Maiden e ao Metallica, no famoso álbum preto. Acho que o álbum preto do Metallica é um dos álbuns que mais me marcou porque me mostrou um outro lance além do que eu conhecia, muita bateria, muita guitarra, e me impressionou na época. Lembro que quem tinha me passado era um amigo, em uma fita cassete que alguém tinha gravado pra ele.

Logo depois fui morar a 30 km da capital, numa cidade chamada Lauro de Freitas, e como na época não existia internet e pra se conhecer e ter acesso as coisas era mais difícil (ainda mais em Salvador), eu acabei entrando naturalmente na galerinha do axé — sim, tive um passado musical negro (se bem que o axé de verdade que tocava naquela época era mais legal e mais truz), mas até se justifica, não tinha com quem compartilhar nada, não sabia do que acontecia em Salvador — e infelizmente perdi a cena da música baiana dos anos 90, que foi MEGA ANIMAL. Perdi o início do Cascadura, Inkoma, Dois sapos e meio, Dead Billies e etc…

Graças a Deus essa minha viagem que parecia sem volta terminou eu voltei pro lado bom da força. Depois do álbum preto, vários outros me marcaram, mas imagino que essa época seja a mais marcante pra qualquer um… Poderia citar mais alguns, mas acho que esse álbum realmente mudou muita coisa na minha vida.


o desafiado

Rafael Kent é fotógrafo e diretor de vídeo, com um currículo que carrega clipes de nomes como Beeshop, Vivendo do Ócio e Terceira Edição. Dá pra espiar suas fotos vídeos em seu portfólio: http://www.rafaelkent.com/.pula
pula
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black album para ouvir

Clique aqui para ouvir o álbum Metallica via streaming.

tracklist

1. “Enter Sandman”
2. “Sad but True”
3. “Holier Than Thou”
4. “The Unforgiven”
5. “Wherever I May Roam”
6. “Don’t Tread on Me”
7. “Through the Never”
8. “Nothing Else Matters”
9. “Of Wolf and Man”
10. “The God That Failed”
11. “My Friend of Misery”
12. “The Struggle Within”

mais informações sobre o álbum >>

#essencialbuns XXIII: Acabou Chorare, Novos Baianos

Por Junior Abreu
@osabreus

A trilha sonora de minha adolescência foi bem roqueira. Sou do tempo dos festivais de rock que rolavam aqui na cidade. Esses festivais abriram os olhos de toda uma geração. Nirvana, Pearl Jam, Guns n’ Roses foram nos empurrados guela a dentro. As bandas gringas foram desmitificadas, foram trazidas pra nossa realidade, tudo muito naturalmente.

Foi em meados de 1997 talvez, numa dessas tardes cinzas de outono, na sala de um amigo, que estava cheia de amigos e ao redor muitos discos de vinil. Num canto havia uma vitrola bem mixuruca e um revesamento dos mais variados artistas na carrapeta. Dentre tantas músicas tocadas nesta tarde, lembro-me dos meus ouvidos absorverem todas as notas, toda a melodia que aquele disco de vinil emanava. Era o “Acabou Chorare”.

Ali, naquele dia, estavam me sendo apresentado os “Novos Baianos” e também ali, naquele momento, começou o meu amor pela musica popular brasileira.


o desfiado

Junior Abreu é o responsável pelo vocal e a guitarra da banda carioca Os Abreus, que encabeça a empreitada itinerante “Tamborete Apresenta”, com diversos shows no estado do Rio. pulalinha
pulalinha
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acabou chorare: tracklist + aperte o play

“Brasil Pandeiro”
“Preta Pretinha”
“Tinindo Trincando”
“Swing de Campo Grande”
“Acabou Chorare”
“Mistério do Planeta”
“A Menina Dança”
“Besta é Tu”
“Um Bilhete Pra Didi”
“Preta Pretinha (reprise)”

Clique aqui para ouvir “Acabou Chorare” via streaming no Terra Sonora.

#essencialbuns XXII: The Beatles, The Beatles

ou ainda: The White Album, The Beatles

Por Marcelo Gross
@marcelogross_

Yes, eu tenho um disco favorito. E ele se chama simplesmente “The Beatles”.
Não haveria melhor nome para um disco.

Também conhecido como Album Branco (ou White Album), esse é o disco mais multifacetado da melhor banda de todos os tempos. É o disco que marca o tipo de música que cada um dos quatro iria fazer a partir de então, mostrando fortes características do que seriam suas carreiras solo. E pela primeira vez aceitando as diferenças individuais com parte de um todo. Daí a diversidade sonora, que é um dos maiores charmes do disco.

Uma canção não tem muito a ver com a outra (ao contrário do Sgt Peppers, onde as músicas vão se interligando).

Um antagonismo quase radical.

Desde a arte da capa, “the Beatles” é uma Peça de popart que leva o ouvinte a um verdadeiro caledoscópio musical,abrangendo quase todo tipo de rock que era popular na época: de Donovan (I Will, Mother natures son, Julia), Beach Boys (Back in the UssR), Dylan (Rocky Racoon), Hendrix e The Who (Helter Skelter, Birthday), coisas mais vaudevile anos 20 (Honey Pie, Martha my dear), Blues inglês (Yer Blues), Sinatra (Good night) e experimentalismos a lá John Cage (Revolution 9)…

É um disco denso, que foi gravado sob um clima tenso em uma atmosfera hostil, onde até o técnico de som (Geoff Emerick) pediu pra ir embora das gravações devido ao baixo nível de respeito entre os integrantes e demais pessoas envolvidas (George Martin também largou no meio… até o Ringo saiu da banda nessa época!).

Mas também ouve muitos momentos de união, como quando os quatro entraram numa sala minúscula pra gravar “Yer Blues” a fim de conseguir um som mais coeso, ou como na sessão final de mixagem em que John e Paul ficaram 24 horas dando os retoques finais e bolando a ordem e a ligação entre as faixas. Enfim, esse é o disco que eu nunca vou cansar de ouvir, e que a cada audição encontro coisas novas.

E eu tenho uma históra peculiar pessoal com esse disco:

Qdo eu tinha uns 10 anos, eu era muito fã dos Beatles e já tinha uns 5 discos deles,mas os outros eu não conhecia. O pessoal da minha rua sabia que eu era fã, tava sempre pra cima e pra baixo com aqueles discos debaixo do braço. Um garoto da esquina tava fazendo uma limpa na casa dele e jogando um monte de tralha velha fora e o outro garoto falou:

-”não joga esses discos sem capa aí fora, dá pro guri do fim da rua lá que ele é fã dos Beatles!”
Daí tô eu em casa e batem palmas na frente, chamando:
-”ô, é daí que mora o guri que gosta dos Beatles?”
minha mãe me chamou, eu fui lá e o garoto me deu dois discos de vinil sem capa, (meio arranhados, claro) dentro de um plástico e disse:
-”tava botando fora na limpa lá de casa e o fulano me disse que tu curtia, então trouxe pra ti aí”…
Agradeci, levei as duas Bolachas pra dentro de casa, dei uma bela limpada e pousei a agulha do aparelho National da sala…

E lá estava ele, me chamou na frente da minha casa e veio ao meu encontro: “The Beatles”, o tal do Album Branco.

o desafiado


Órfão de John Lennon, Marcelo Gross é um gaúcho do qual você certamente já deve ter ouvido falar: além de guitarrista e backing vocal de Cachorro Grande, também já foi baterista de Júpiter Maçã. pula linha
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tracklist

Disco 1
Lado A

1. “Back in the U.S.S.R.”
2. “Dear Prudence”
3. “Glass Onion”
4. “Ob-La-Di, Ob-La-Da”
5. “Wild Honey Pie”
6. “The Continuing Story of Bungalow Bill”
7. “While My Guitar Gently Weeps”
8. “Happiness Is a Warm Gun”
Lado B
1. “Martha My Dear”
2. “I’m So Tired”
3. “Blackbird”
4. “Piggies”
5. “Rocky Raccoon”
6. “Don’t Pass Me By”
7. “Why Don’t We Do It in the Road?”
8. “I Will”
9. “Julia”
Disco 2
Lado A

1. “Birthday”
2. “Yer Blues”
3. “Mother Nature’s Son”
4. “Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey”
5. “Sexy Sadie”
6. “Helter Skelter”
7. “Long, Long, Long”
Lado B
1. “Revolution 1″
2. “Honey Pie”
3. “Savoy Truffle”
4. “Cry Baby Cry”
5. “Revolution 9″
6. “Good Night”

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(A notícia triste do dia é que os Beatles não têm albuns disponíveis para streaming, amigos!)

#essencialbuns XXI: Jorge Ben, Samba Esquema Novo

Por Rafael Gregorio
@rafaelmgregorio

Escolher um disco e apenas um para sobreviver à hecatombe nuclear e musicar, sozinho, o resto da existência, daqui até o mármore quente do inferno. Tarefa ingrata. Qualquer decisão será contestável, madrasta de arrependimento e culpa. Afinal, o tema é sério. Muito mais que a política ou o cheiro das mulheres.

Como um Hércules ensandecido, abraço a tarefa: escolher um álbum essencial.

Adicionemos crueldade ao processo. Para chegar nos 21 competidores, são limadas celebridades da adolescência – bye bye Appetite for Destruction (Guns n Roses) – e obras que, mesmo sobre-humanas, não poderiam manter o pau duro – bye bye Chega de Saudade (João Gilberto) e When the Pawn (Fiona Apple).

Bowie (Ziggy Stardust and the Spiders From Mars) e Mutantes (Tecnicolor) também ficam pra trás, como Bob Marley and The Wailers (Catch a Fire) e Led (Physical Graphitti).

Critério número dois: um disco por artista. São condenados à destruição Qualquer Coisa e London, London do Caetano, Força Bruta e Tábua de Esmeraldas do Jorge, Sticky Fingers dos Stones (doloroso au revoir) e Shangri La Dee Da, do Stone Temple Pilots.

Restam 8.

Nas quartas de final, cai fora quem não habita o coração há pelo menos 365 dias. Correndo sérios riscos, descarto Gilberto Gil (Expresso 2222), Devendra Banhart (Smokey Rolls Down Thunder Canyon), Los Hermanos (Ventura) e Beatles (Abbey Road).

Chego numa semifinal e me sinto um assassino. Tarado. Maníaco e esquisito. Penso em trazer de volta Camelo, Amarante e Devendra, mas já é tarde.

Hora de apresentar os gladiadores.

De um lado, pesando 347 quilos e com semblante decadente-porém-elegante, o rock n’roll. De outro, com 52 quilos e vestindo terno branco e sapato de bico, o samba. No meio, equilibrando 31,5 quilos, fritado e estrebuchandinho, a cabeleira no exílio.

Penso em desistir, agradecer à moça simpática, avisar que não vai rolar.
Ou foder com o jogo e deixar os quatro, fazer uma mixtape, fingir que enviei o e-mail

pero no se puede

Abro mão do Tiny Music…Songs from The Vatican Gift Shop, do STP. Já pôde me criar o que sou, e é altruísta.

E do Transa, do Caetano, que está tremelicando, aponta o dedo para o repórter e grita CANALHA!, deixei o Transa pelo caminho porque são poucas canções, porque Caê estava tão triste, e gosto quando Caê sorri…

O passado em pedra e o futuro incerto se debatem. Como lutadoras gordinhas no gel. Elas querem chocolate, elas querem seriados da tv americana. Não querem brigar. Isto é fruto de minha mente doente,

….

Safado! Comanche safado!
Enterrou os Stones.
Mesmo na re-edição de Exile on Main Street, com Plundered My Soul e Pass the Wine (Sophia Loren),

e o pior: o fez graciosamente.
Quase vejo Mick e Keith sorrindo, tentando sambar,

A malandragem! Malemolência morena, metais sofisticados, nomes de mulher ternos riscados de giz rodas de samba no morro gritos no porão violão violão violão

e

principalmente

a arte de sofrer de amor sorrindo,

Jorge Ben. Samba Esquema Novo.

A estréia do mestre em 1963, com os dois pés na porta: Mas, que nada!, Balança pema, Chove, chuva, Rosa, menina rosa, Por causa de você menina, e mais 7 clássicos imediatos e infinitos, deliciados à mão direita mágica do rei.

Meu álbum essencial.

o desafiado

Rafael Gregorio canta e compõe na banda Circo Motel, toca violão no Clube da Chapadócia e frequenta rodinhas suspeitas na praça do pôr do sol. Jornalista e poeta de bueiro, viveria tranquilamente de pizza, açaí e sua mulher. Aprecia vinho, cigarros e cachorros, e acredita que a música é o lado bom da humanidade armado de flores contra todo o resto.

samba esquema novo pra ouvir

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Problemas no player? Ouça Samba Esquema Novo diretamente no Terra Sonora.

tracklist

Mas, que Nada!
Tim, Dom, Dom
Balança Pema
Vem, Morena, Vem
Chove, Chuva
É Só Sambar
Rosa, Menina Rosa
Quero Esquecer Você
Uala, Ualala
A Tamba
Menina Bonita Não Chora
Por Causa de Você, Menina

#essencialbuns XX: Bob Marley & The Wailers, Legend

Legend, do Bob Marley

por Rafael Ramos
@rafaprod

Legend, do Bob Marley. Pra reerguer o mundo ou pra viver em paz sozinho numa ilha, nada melhor que essa coleta perfeita do Bob.

o desafiado

Rafael Ramos já deixou suas pegadas em grande parte do rock nacional atual. Músico e produtor, é diretor artístico da Deck, responsável pelo selo Vigilante e carrega no currículo álbuns e artistas incríveis.

legend pra ouvir

tracklist

“Is This Love”
“No Woman, No Cry”
“Could You Be Loved”
“Three Little Birds”
“Buffalo Soldier”
“Get Up, Stand Up”
“Stir It Up”
“One Love/People Get Ready”
“I Shot the Sheriff”
“Waiting in Vain”
“Redemption Song”
“Satisfy My Soul”
“Exodus”
“Jamming”

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#essencialbuns XIX: Fugazi, 13 songs

13 songs, Fugazi

por Philippe Fargnoli
@phildeadfish

Conheci esse álbum em 93 e ele realmente foi um divisor cultural, ideal e musical na minha vida.

A banda representou como ninguém a questão do Do It Yourself, com letras políticas e questionadoras e uma forma groovada catártica de se tocar punk rock.

Foi o álbum que eu mais escutei na vida.

o desafiado


Músico, produtor e engenheiro de áudio, Philippe Fargnoli é figura conhecida de quem acompanha o hardcore nacional: Reffer, Dead Fish, Zander, essas são só algumas bandas que você não pode deixar de ouvir e têm o nome dele em sua história.

13 songs para ouvir

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caso o widget não esteja funcionando, ouça o álbum 13 songs, do Fugazi, direto no grooveshark.

tracklist


1. “Waiting Room”
2. “Bulldog Front”
3. “Bad Mouth”
4. “Burning”
5. “Give Me the Cure”
6. “Suggestion”
7. “Glue Man”
8. “Margin Walker”
9. “And the Same”
10. “Burning Too”
11. “Provisional”
12. “Lockdown”
13. “Promises”

O álbum é uma compilação dos dois primeiros EPs da banda. Faixas 1 a 7 são de Fugazi (1988) e faixas 8 a 13 são de Margin Walker(1989).

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#essencialbuns XVIII: Sex Pistols, Never Mind The Bollocks

Sex Pistols – Never Mind The Bollocks

Por Wladimyr Cruz
@zonapunk

Alguém ai ainda lembra de um programa chamado Realce? E de um chamado Som Pop? Pois bem, foi em um destes dois programas de clipes que passavam na tv aberta nos anos 80 em que vi pela primeira vez a banda, a música e o disco que seria meu #essencialbum. Sex Pistols, clipe de “Pretty Vacant”. Enlouqueci, guardei a imagem, a música, o lixo e a fúria.

“Pai, quero um disco dos Sex Pistols”. Eu já tinha, em partes, e nem sabia. Meu padrinho de batismo (que coisa antiga!), o mestre Kid Vinil, trouxe pro meu pai – e de herança pra mim – algumas reliquias punk diretamente de Londres em 77, entre elas, o compacto de “God Save The Queen”. Não era o bastante. Não me lembro mais como, mas surgiu um “Never Mind The Bollocks” em minhas mãos. A partir dai, vinil, cd, vinil de novo, capa rosa, capa amarela, e aquelas músicas rudimentares, cheias de ódio, sarcasmo e energia dominaram minha vida.

De “Holidays In The Sun” a “E.M.I.”, passando pela capa e pelas letras, o álbum é perfeito. Moldou – e molda até hoje – muito do que foi feito na cultura pop, na música punk e na moda e comportamento como um todo. Essencial, pra mim, e para o mundo. God Save The Sex Pistols!

o desafiado


Wladimyr Cruz é jornalista, editor do site ZonaPunk.com.br e odeia essas descrições babacas que colocam coisas aleatórias como traços de personalidade.

never mind the bollocks para ouvir

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tracklist

“Holidays In The Sun”
“Bodies”
“No Feelings”
“Liar”
“God Save the Queen”
“Problems”
“Seventeen”
“Anarchy in the U.K.”
“Submission”
“Pretty Vacant”
“New York”
“E.M.I.”

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#essencialbuns XVII: Jorge Ben, A Tábua de Esmeralda

A tábua de esmeralda, de Jorge Ben

por Kennedy Lui
@bandazebrazebra

É quase cruel pedir para um amante de música que escolha um disco favorito. A impressão que dá é que todos os outros discos não escolhidos vão te olhar diferente, vão tocar com uma dose extra de melancolia, sentidos e desmerecidos. E agora? Vou pra linha “o primeiro a gente nunca esquece”, “esse disco me lembra tal fase…”? Assim que recebi o convite do Vitroleiros eu tentei (só tentei) ficar 10 minutos pensando em outra coisa, para não decidir no calor da decisão. Mas obviamente isso foi impossível. Bom…cá estou e o meu disco favorito é o “A tábua de esmeralda” de Jorge Ben.

O trabalho do Jorge Ben me fascina completamente. O Brasil é riquíssimo de compositores incríveis, mas eu não tenho medo de dizer que pra mim o Jorge Ben é o maior de todos. Sou fã, praticamente fanático, dos seus trabalhos mais antigos, quando ele tocava violão. Ritmo indescritível e letras simples, positivas e sinceras.

No “A tábua de esmeralda” ele começa discretamente uma fase experimental, um detalhezinho de guitarra aqui, outro ali. Essa quase timidez é o que faz com que esse disco seja na medida certa pra mim. É uma briga escolher uma música favorita dentro do disco. Das 12 músicas do disco 6 já foram a minha música favorita(!!!). Atualmente minha música favorita é “O homem da gravata florida”, mas num disco que tem Os alquimistas estão chegando, Menina mulher da pele preta, Eu vou torcer, Magnólia, Minha teimosia é uma arma pra te conquistar, Hermes Tri, Zumbi e Cinco Minutos, é praticamente impossível ouvir uma música isolada.

Quem tem a oportunidade de ouvir esse disco em LP que o faça. O chiado só ajuda a entrar nessa onda de amor, positividade e ritmo. Jorge Ben (sem Jor) é meu terapeuta e esse disco minha terapia. Se estou triste ele me anima. Se estou feliz ele me empolga.

“A tábua de esmeralda” é uma jóia.

Esse é o disco.
Esse é o cara.

o desafiado


Kennedy Lui é vocalista e guitarrista da banda Zebra Zebra, além de publicitário, videomaker e empresário. Mas acima de tudo é um maluco por música – e por isso ama tanto o trabalho de malucos como Jorge Ben.

a tabua de esmeralda para ouvir

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tracklist

1. Os Alquimistas Estão Chegando
2. O Homem da Gravata Florida
3. Errare Humanum Est
4. Menina Mulher da Pele Preta
5. Eu Vou Torcer
6. Magnólia
7. Minha Teimosia, Uma Arma para te Conquistar
8. Zumbi
9. Brother
10. O Namorado da Viúva
11. Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda
12. 5 minutos