O presságio do Gang of Four

Existem bandas que estão alguns anos a frente do seu tempo e passam batidas por sua geração, no entanto, algumas acabam se tornando referência para dezenas de outras nas décadas seguintes. Esse é o caso da inglesa Gang of Four.

Quando surgiu em meio ao movimento punk com seu debut “Entertainment!” (1979), o Gang of Four era uma banda que estava muito além do chamado pós-punk. Sua música era uma verdadeira desconstrução do que todos conheciam como boa música. Até mesmo os punks não entenderam direito o que a banda estava criando.

O guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King foram a força criadora por trás da banda e estavam absolutamente atolados nas influências da escola de Frankfurt. Naquela época, eles misturavam o som cru do punk, batidas e marcações do funk, minimalismo e dub com uma crítica feroz a sociedade e a política. Além da dupla, o grupo era completado pelo baixista Dave Allen e o baterista Hugo Burnham.

Essa química altamente inflamável fez o Gang of Four ser uma das bandas mais cultuadas de todos os tempos. Diversos nomes da música afirmam serem influenciados pela banda: Michael Stipe, vocalista do R.E.M.; Flea do Red Hot Chili Peppers; e até o lendário Kurt Cobain (que a Courtney o deixe descansar em paz) citou a banda como um dos alicerces do Nirvana.

Tirando o contexto histórico, o principal motivo da escolha deste disco foi a sorte que tive em comprá-lo. Estava na loja “Big Papa Records” que fica na Galeria Nova Barão (do lado da Galeria do Rock) e o Papa havia acabado de chegar de viagem trazendo centenas de plays incríveis dos Estados Unidos. Apesar da loja ter sido pilhada por dezenas de colecionadores psicóticos fui em toda a minha humildade procurar algo que eu ainda não tinha. Foi procurando a esmo que encontrei uma edição de época zerada do “Entertainment!”. Levei na hora!

Capa

Todo o trabalho de arte da capa deste disco foi feito pela dupla King e Gill, no melhor esquema faça você mesmo. A imagem não poderia ser menos polêmica, um índio americano apertando a mão de um caubói em três versões da mesma ilustração – como num efeito de close nos quadrinhos.

O texto em volta das imagens não é menos impactante: “The Indian smiles, he thinks that the cowboy is his friend. The cowboy smiles, he is glad the Indian is fooled. Now he can exploit him.” (Em minha livre tradução: “O índio sorri, ele pensa que aquele caubói é seu amigo. O caubói sorri, ele está orgulhoso por enganar o índio. Agora, ele pode explorá-lo”. Sensacional!

Nem preciso dizer que a contracapa não fica atrás e além do nome das músicas tem frases de impacto do mesmo calibre. Por exemplo, o pai de uma família dizendo “Eu gasto a maioria da nossa grana comigo, assim consigo continuar gordo”. A questão social sempre foi um assunto importante para a banda que estava colocando em cheque todas as instituições da sociedade capitalista contemporânea (quando digo que fiz História na faculdade ninguém acredita, né?).

Longe de mim ser comunista, mas a capa do disco é animal e um verdadeiro chute no saco da sociedade careta e borra botas.

Lado A

Boto o play pra sambar e logo de cara somos agredidos pelos riffs canibais de “Ether”. Mas a coisa começa a ficar mais cadenciada em “Natural’s Not in It”, que tem grande semelhança com o estilo dos primeiros discos do Devo (que são da mesma época). Ambas são gritos indignados contra o tédio e a alienação capitalista, nunca foi tão divertido ser comunista!

Acredito que a maioria dos leitores gosta da banda Rapture (um dos melhore shows que já fui), então vai perceber que tudo o que você mais curte neles foi chupado sem dó da música “Not Great Men”. Relaxa, cara, não é fácil copiar o Gang e ainda parecer original, os moleques tem seus méritos.

“Damagend Goods” é um daqueles estranhos casos em que algumas bandas da mesma época seguem por caminhos opostos e acabam tendo uma sonoridade parecida. Esse verdadeiro zeitgeist musical remete diretamente ao que o The Clash estava fazendo nos dois primeiros discos.

O álbum fecha com as pedradas “Return the Gift”(insisto no Rapture e peço que compare com “House of Jealous Love”) e “Guns Before Butter” que influenciaram cada centímetro das principais faixas de boa parte das bandas dançantes do século XXI.

Lado B

Nossa viagem pela música do século XXI feita na década de setenta do século anterior continua! Agora pense nos dois primeiros discos do The Strokes e preste bastante atenção nas “referências” aos riffs frenéticos de guitarra. “I Foung That Essence Rare” não é só um marco musical, a letra por si só é de um hino para a geração de jovens desencorajados pela constante ameaça da hecatombe nuclear da Guerra Fria.

“Glass” é a famos música mais do mesmo, mas falta um pouco da magia presente na próxima canção. Quando ouvimos “Contract” somos sugados momentaneamente para um lugar sinistro onde um “dub cyberpunk” faz papel de fundo para letras sobre tédio e a rotina repetitiva das classes operárias.

Prepara seu coração, pois o proto-eletrônico de “At Home He’s a Tourist” tem uma batida que comanda as pulsações de seu coração. A letra faz referências aos salões de discoteca onde casais de pessoas insatisfeitas e controladas pelo sistema acabam se conhecendo.

O experimentalismo come solto em “5:45” que lembra bastante as bases musicais do que seria o gótico dos anos 1980. Uma linha de baixo extremamente grave com guitarras fazendo um pano de fundo para um vocal desesperado e infeliz. Pelas minhas contas, tem muita gente devendo pros doidos do Gang of Four.

Pra fechar o disco, a banda reservou uma de suas músicas mais polêmicas e famosas “Anthrax”, que já começa tirando as crianças da sala com uma microfonia absurda. Numa espécie de anti-música que dá origem a uma das mais importantes canções de todos os tempos. Como na letra, a música faz uma referência aos Beatles e parece até uma versão organizada de “Revolution 9”, o clássico que fecha o álbum Branco do Fab Four. Olha só, não é que essa barulheira doentia lembra alguns dos trampos mais experimentais do Sonic Youth. Se o Gang of Four ganhasse por royalties toda vez que criava alguma mecânica musical que seria usada pelas próximas gerações estariam mais ricos que o Justin Bieber.

ouve aí!

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Antes de fechar esse texto gostaria de informá-los que o Gang of Four confirmou à “Folha de São Paulo” que fará um show no Brasil em maio. Até agora divulgaram apenas que o show será gratuito. Da banda original, sobrou apenas Gill. Mais um motivo para você correr atrás e ouvir esse grande disco da história do rock.

Sem chorar pelo leite derramado do Capitão Beefheart

Por Raphael Fernandes
http://www.contraversao.com

Tudo começou quando decidi fazer resenhas de discos de vinil no blog Contraversão, inspirado pelo lendário crítico musical Lester Bangs. O primeiro texto sobre o álbum “Reino do Parassempre contra o Império do Nunca Mais” teve um resultado tão bacana que acabou parando aqui no Vitroleiros. Como gostei muito da parceria, decidi transformar essa viagem fonográfica numa coluna quinzenal!

Para já chegar chutando a porta sem dó, escolhi resenhar o álbum de estreia de Captain Beefheart & his Magic Band, o mitológico “Safe as Milk”. Um verdadeiro alicerce do experimentalismo musical dos anos 1960.

Engraçado pensar que descobri esse álbum quando vi Rob Gordon (numa interpretação inspirada de John Cusack) torturando um comprador no mais que clássico filme “Alta Fidelidade”. Numa das cenas mais nerds (de música) do longa, Rob se nega a vender uma edição alemã do álbum pra um cara que vai toda semana atrás do mesmo disco. Questionado por um amigo sobre o motivo de não vender o disco, o elitista dono da loja diz que aquele cara ainda não tá preparado pra este play. O amigo aproveita a deixa pra levar o álbum pra casa e Rob o vende na mesma hora.

Em 1967, o rock n’ roll havia deixado um pouco da selvageria dos primeiros anos de lado e começava a seguir por um caminho mais experimental. Era o auge do psicodelismo e muitas bandas decidiram romper com o status quo e procurar novas formas de fazer sua música. Quem poderia imaginar que quatro garotos de Liverpool, usando uma franja (muito antes do Justin Bieber), poderiam provocar toda uma revolução musical?

O mesmo não pode ser dito de Captain Beefheart & his Magic band! Afinal, em seu disco de estreia um dos pontos mais fortes é a violência de suas composições e a agressividade de suas guitarras. Porém, em cada faixa o Capitão orquestra seus marujos por delirantes caminhos psicodélicos e experimentais!

Chega de papo furado! Vambora ouvir esse play…

Capa

Antes mesmo de botar o disco pra rodar, gosto bastante de observar as capas dos discos e não pude deixar de notar que, até nisso, “Safe as Milk” estava a frente de seu tempo. Na capa, vemos uma foto da banda tirada com o efeito “olho de peixe”, um verdadeiro sucesso das fotos de skatistas nos anos 1980 e 1990. A moldura da foto traz o nome do álbum e da banda intercalados por ilustrações de vacas.

O verso rompe diretamente com a serenidade branca e leitosa da capa e mostra um alucinado quadriculado preto e amarelo. A foto do verso segue a mesma técnica, mas apresenta a banda mais distraída ao invés de olhar diretamente para o expectador.

A edição de relançamento que comprei apresenta um belíssimo vinil “colorido” em branco com um selo vermelho, que gera um lindo contraste de cores.

Lado A

A brincadeira já começa com uma pedrada bluseira chamada “Sure ‘Nuff ‘N Yes I Do”, que tem uma guitarra brincando de banjo (delta guitar). O timbre de voz rasgado de Don Van Vliet (também conhecido como Captain Beefheart) hoje pode ser definido como um Tom Waits virado no Jiraya, mas relaxa que a violência no vocal de Capitão Bife-Coração pega mesmo em outra faixa desse lado.

“Ziz Zag Wanderer” é uma incrível canção psicodélica que tem uma letra que não diz nada. Felizmente, a música tem uma força única que anima qualquer festa e seria uma excelente trilha sonora pra um filme sobre chapados de ácido numa festa nos anos 1960. Outra que poderia estar em um Road movie de época é a dançante “Call on Me”, dá vontade de ligar o carango e pegar a estrada.

Se você tava pensando que o disco era moleza, pode tirar seu cavalinho da chuva! O lado A reserva uma surpresa pro final. Estou falando do hit máximo da violência e bagaceira musical sessentista: “Dropout Boggie”. A música intercala um poderoso riff de guitarra, aos vocais quase guturais do Capitão e gera uma faixa que parece ter vindo lá do punk de 1977. Fora que tem uns tecladinhos esquizofrênicos surgindo do nada, o que torna tudo ainda mais insano. Existe uma versão doThe Kills pra essa música, mas serve mais como curiosidade perto da potencia da gravação original! Um verdadeiro hino da juventude contra uma sociedade careta e hostil.

Claro que pra você não perder a noção e sair matando alguém, o Capitão colocou a balada “I’m Glad” que deve tocar até hoje nos bailes da terceira idade (no bom sentido é claro). Som perfeito pra dançar agarradinho com a pessoa amada.

Antes de virar a peteca, o capeta toma conta de tudo novamente e a psicodélica come solta na profética “Eletricity”, que ganhou uma cover fiel do Sonic Youth. Interessante notar que a textura musical desenvolvida pelo Capitão e sua turma influenciou indiretamente o grunge.

Vou escutar “Dropout Boggie” umas oito vezes antes de ir pro lado B!

Lado B

Aqui o troço fica bizarro de vez com o aviso: “o tom a seguir é apenas para referência, ajuste o som de seu aparelho”. Relaxa, deve ser apenas uma citação ao Mágico de Oz que não captei, já que a próxima música é “Follow Yellow Brick Road” (traduzindo: seguindo a estrada de tijolos amarelos). Se fosse definir essa canção em um rótulo idiota seria “country de garagem da Louisiana”, mas não faria uma babaquice dessas nem a pau.

“Abba Zaba” começa com uma percussão que hipnotiza e acaba fazendo os músicos incorporarem uma verdadeira banda de blues com influências africanas. Van Vliet trabalha com o imaginário infantil e suas fantasias nessa música e coloca suas memórias em jogo. Coisa doida de primeira qualidade, cara!

Cortando o barato de quem já  estava entrando em transe, somos atingidos pela estranha gaita distorcida de “Plastic Factory”. Musicão de primeira com viradas de bateria que farão seus ouvidos implorarem pra ouvir essa faixa mil vezes sem parar.

As três últimas músicas (“Where There’s Woman”, “Grown So Ugly”“Autumn’s Child”) são as mais tradicionais do disco. Mesmo assim, as duas primeiras soam como versões possuídas de grandes bluseiros negros do passado e a última é o resultado do que aconteceria de Joe Cocker fizesse uma trilha para um filme B de ficção científica dos anos 1950.

Conclusão

Nem preciso dizer que o disco é  quase uma obrigação para qualquer um que curta boa música e quer olhar fora da caixa da mesmice musical. Esse álbum influenciou toda uma geração que nos anos seguintes seriam os alicerces do punk.

“Safe as Milk” é de longe um dos álbuns mais psicologicamente acessíveis do Capitão e é um preview dos experimentalismo quase dadaísta dos discos seguintes. Não é a toa que o Captain Beefheart colaborou em diversos trabalhos de Frank Zappa, outro adorável doido varrido do rock. (Por sinal, recomendo o disco ao vivo da dupla “Bongo Fury”.)

Por hoje é só, vitroleiros! Lembrando que essa coluna pretende fazer resenhas de discos de diversos períodos. Afinal, música boa é atemporal e universal!