Dias atrás, estava eu participando de um amigo secreto restrito a um grupo de amigos da faculdade (acho que todos escrevem pra esse site, mas, tudo bem). Muito além das gracinhas do povo e de algumas calúnias sobre a minha pessoa, que não bebeu como andam dizendo, eu ganhei um CD da Lady Gaga da Tory Oliveira. Duplo, são dois discos, o primeiro com The Fame Monster, o álbum mais recente da cantora, e outro com The Fame, o primeiro, que consagrou Poker Face, Just Dance, etc.
Meu primeiro comentário, e o que sintetiza, basicamente, todo o post, é que ficou sensacional! Lady Gaga, além de perder a Síndrome da Letra P (Pppo-ppoker ; Papa-Papa-Paparazzi), chegou com uma qualidade musical fora do comum, e, talvez, superior ao primeiro álbum. A maioria das músicas já havia vazado, e causado furor, na internet, antes do lançamento oficial do CD, mas, penso eu, olhando e conversando com algumas pessoas, que o deslize só serviu pra deslanchar The Fame Monster.
A playlist é aberta com Bad Romance, o carro chefe do álbum. A faixa foi a primeira a vazar na internet e atingiu auge quando o vídeo clipe oficial foi divulgado. Na falta da letra ‘p’, Gaga retoma o estilo gaguejante (trocadilho, oi?) com seus Rah-Rah ou Ga-Ga pra lá e pra cá. O vídeo, futurista e bastante agitado, arrancou elogios e impressionou a quem assistiu. De fato, Lady Gaga evoluiu e evoluiu muito!
Bad Romance, primeiro hit do álbum
O álbum segue com Alejandro Don’t Call My Name e Monster, no bom estilo da cantora e sem grandes coisas a acrescentar. Já a quarta faixa, Speechless, me soou numa vibe mais Amy Winehouse. Quem ouviu Will You Still Love Me? da Amy vai perceber, mas, não deixa de ser bem gostosa de ouvir. Dance in the Dark, a quinta, ficou como minha favorita. Elétrica e com uma senhora composição, é o tipo de música que se dança cantando aos berros.
Sobre Telephone, a sexta e gravada com a Beyoncé, foi a única que não me agradou. Beyoncé é uma, Gaga é outra. O Estúdio Coca Cola com Calypso e Paralamas deu mais certo, mas… só minha opinião.
Já So Happy I Could Die, penúltima, não sei, mas, sabe aquelas músicas pra ouvir na estrada? Soou, pra mim, como algo assim. Bem gostosinha, também. Teeth eu não entendi muito bem a proposta. A música, a última do CD, fecha o repertório com um ar Black music. Ficou boa, mas, acho que fugiu um pouco da linha do álbum, enfim.
De modo geral, Lady Gaga é uma boa pedida. Seja pra presente, seja pra ouvir por aí. The Fame Monster é realmente muito bom. A montagem ficou muito bem disposta, assim como a própria Gaga como cantora. Deu pra sentir uma evolução… Pra quem começou pequenina em algumas baladinhas com Just Dance e Poker Face, a diva não parou. O que eu acho muito legal. Barracos e bizarrices à parte, ela conquista muito mais pela qualidade de artista do que como um corpo ou um rosto por si só.
Desculpem a demora pra voltar a postar, mas, parece que trabalhos gigantes de faculdade, crises amorosas e 3 kg acima do peso andam de mãos dadas! Beijão pra todo mundo, e, por favor, fãs da Banda Cine, LEIAM o post todo antes de comentar. E isso é muito sério! Valeu pra Tory, fofíssima, que me deu o CD.
No próximo dia 28 de Novembro completam-se 40 anos do lançamento de Let It Bleed, oitavo disco de estúdio dos Rolling Stones e segundo disco que compõe a chamada “trindade de ouro” dos Stones, sucedendo Beggars Banquet (1968) e precedendo Sticky Fingers (1969).
Gravado nos Olympic Studios em Londres entre novembro de 1968 e novembro de 1969, Let It Bleed se mostrou o disco mais country dos Stones e se firmou como um clássico em sua discografia. Let It Bleed também é o último disco dos Stones com o guitarrista Brian Jones como membro do grupo. Apesar de ainda fazer parte da banda, Jones contribuiria apenas tocando arpa em You Got The Silver e percussão em Midnight Rambler. (Em julho de 1969 Brian Jones seria encontrado morto na piscina de sua casa, em Hartfield, em um caso que ainda é misterioso até os dias de hoje). Antes da conclusão do disco o guitarrista seria substituído por Mick Taylor, que gravaria apenas duas faixas do álbum. Todas as outras guitarras foram gravadas por Keith Richards, e todas as músicas do disco são de autoria da dupla Jagger/Richards, com exceção de Love In Vain, de Robert Johnson.
Há quem defenda a teoria de que o nome do disco seria uma provocação aos Beatles e à gravação de seu último disco de estúdio, Let it Be, que apesar de estar sendo gravado desde fevereiro de 1968 ainda não fora lançado, mas não há nenhuma declaração ou fato que comprove isso.
Segundo pesquisadores, a faceta country do disco teria sido influenciada pela amizade entre Keith Richards com Gram Parsons, músico de country norte-americano e ex-membro das cultuadas bandas Flying Burrito Brothers e The Byrds. A este também é creditado o arranjo country da música Honky Tonk Women, do álbum Through the Past, Darkly (Big Hits Vol. 2); e lançada em Let It Bleed com o nome Country Honk. Vale citar uma curiosidade sobre Honky Tonk Women: A música foi escrita por Jagger e Richards no Brasil, entre dezembro de 1968 e Janeiro de 1969, influenciados por gaúchos que tocavam músicas gaudérias no rancho em que a dupla esteve hospedada, em Matão-SP.
Outro aspecto marcante e curioso é a capa do álbum. Projetada pelo designer Robert Brownjohn, contém uma peculiar escultura que consiste no Let It Bleed numa antiga vitrola, onde no meio se apóia uma barra que abriga de baixo para cima: uma lata de filme, um relógio de parede, uma pizza, um pneu de bicicleta e um bolo enfeitado com miniaturas dos cinco Stones no topo. Na parte de trás do disco pode se ver a mesma escultura toda destruída, com os bonecos caídos, uma fatia da pizza sobre o disco, a agulha da vitrola quebrada, o filme puxado, uma fatia do bolo faltando, o pneu com um grande furo e o relógio manchado e sujo. A ordem das músicas contidas na parte de traz da capa não condiz com a ordem correta do disco. A alteração fora feita por Roberto Brownjohn apenas por questões visuais.
Os Rolling Stones em 1969
A faixa de abertura do disco é Gimmie Shelter, que se tornaria um clássico dos Stones. A música fora inspirada na guerra do Vietnam, e em entrevista à Rolling Stone americana em 1995, Jagger a descreveria como “uma música do fim do mundo”. A segunda faixa é Love in Vain, versão dos Stones para o blues do lendário Robert Johnson, seguida da já citada versão de Honky Tonk Women que aqui aparece como Country Honk. A quarta faixa é a agitada Live With Me, marcante pelo baixo, aqui executado por Keith Richards. As faixas três e quatro seriam as duas únicas faixas do disco gravadas pelo novo guitarrista Mick Taylor.
Let It Bleed é a quinta e última faixa do lado A, e consiste em um rock and roll que marca pelos solos de guitarra de Keith Richards e o piano, gravado por Ian Stewart. Para muitos, a letra de Let It Bleed faz aversão a sexo e drogas, e talvez este seja um dos motivos para a canção não ter sido lançada como single.
O lado B começa com Midnight Rambler, um fantástico blues de pouco mais de seis minutos com uma incrível gaita de Mick Jagger. A letra é contada na perspectiva de um estuprador e assassino, e parte dela foi tirada da confissão do americano Albert DeSalvo, que entre junho de 1962 e Janeiro de 1964 estuprou e assassinou treze mulheres em Boston, ficando conhecido como “O estrangulador de Boston”.
You Got The Silver é a oitava faixa; uma balada honky-tonk que marcaria a estreia solo de Keith Richards nos vocais. Antes o guitarrista já havia dividido os vocais com Jagger em outras músicas, mas nunca gravado uma música dos Stones como cantor principal. Contam as lendas que a música teria sido escrita por Richards para sua então namorada, Anita Palenberg. A nona faixa é Monkey Man, blues rock agitado que marca pela levada com piano e os solos de guitarra de Keith Richards aliados aos gritos finais de Mick Jagger.
O disco é fechado com You Can’t Always Get What You Want, uma das mais fantástiscas músicas já gravadas pelos Rolling Stones. Assemelhada com um hino, a canção tem uma das letras e um dos refrões mais belos de todos os tempos: “You can’t always get what you want, But if you try sometimes you might find, You get what you need”.
Gravada nos dias 16 e 17 de novembro de 1968, You Can’t Always Get What You Want contou com diversas participações especiais. A abertura e o final da música foram gravadas pelo The Bach Choir de Londres, um dos mais importantes e numerosos coros do mundo. O piano, o órgão e a trompa foram gravados por Al Kooper, o mesmo que gravou a lendária intro de órgão em Like A Rolling Stone,de Bob Dylan. A bateria ficou por conta do então produtor dos Stones, Jimmy Miller, que assumiu as baquetas de Charlie Watts, pois este não conseguia fazer o “groove” necessário para a música. Rocky Dijon tocou Conga e Maracás, e a atriz norte-americana Nanette Workman gravou os back vocals.
A letra fala sobre a atmosfera social dos anos 60, abordando temas como sexo, drogas e movimentos políticos, ilustrando seu otimismo inicial e suas seguintes frustrações. Em 2003 Jagger disse que You Can’t Always Get What You Want era uma música que ele gostava de tocar no violão, e definiu-a como uma “bedroom song”.
Cartaz da "The Rolling Stones American Tour" de 1969.
O disco não teve uma turnê de divulgação, mas algumas faixas foram tocadas durante os shows da lendária The Rolling Stones American Tour, que aconteceu entre Novembro e Dezembro de 1969 em 17 cidades dos Estados Unidos. Em dezembro de 1969 o disco atingiu o #1 de vendas no Reino Unido, desbancando Abbey Road dos Beatles da posição. No mesmo ano o disco também atingiu o #3 do Top da Billboard nos Estados Unidos.
Let It Bleed ficou com a 32ª posição na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos feita pela Rolling Stone em 2002, e no mesmo ano foi relançado remasterizado em CD e Digipak junto com dezenas de outros álbuns dos Stones pela Decca/ABKCO, braço da gravadora Universal.
Let It Bleed é o marco de uma das mais criativas e fantásticas fases dos Stones e da dupla Keith Richards/Mick Jagger, e é um item indispensável para todo fã da banda. Dentro do encarte da primeira edição do disco um aviso podia ser encontrado: “This record should be played loud”.
Gabriel esteve no show de Iggy& The Stoogesno Planeta Terra e conta como foi assistir a este espetáculo da plateia – e, de quebra, subir ao palco e apertar a mãodamaiorlenda viva do Punk.
O início
Orelógio marcava 00:03 quando o baterista Scott Asheton, o baixista Mike Watt, osaxofonista Steve Mackaye o guitarrista James Williamson subiram ao palcoSonora Main Stage,doPlaneta Terra 2009, montado no enorme espaço de entrada do Parque de Diversões paulistano Playcenter, na Barra Funda. Do lado direito, uma grande área vip abrigava jornalistas e personalidades que esporadicamente eram entrevistadas pela equipe jornalística doTerrae mostradas nos telões espalhados pelofestival. Em frente ao palco, centenas de fãs se amontoavam e se empurravam tentando chegar mais perto da grade que separava o chiqueirinho dos fotógrafos do espaço destinado a platéia.Uma chuva fina caía na cidade – nada que desanimasse os roqueiros que presenciavam o evento.
A entrada dos integrantes despertou no público um burburinho de excitação para o que viria a acontecer. Faltava o convidado mais ilustre da noite, a lenda viva do punk,Iggy Pop.O cantor entra vestindo apenas uma calça preta e botas, deixa à mostra a barriga um tanto quanto flácida, mas nada mal pra um senhor de 60anos. Enquanto a banda tocaas primeiras notas de Raw Power, Iggy anda de um jeito peculiar até o microfone, que segura enquanto faz movimentos frenéticos com os quadris, e cantaos primeiros versos do clássico, que batiza o terceiro e mais pesado disco do grupo. Outra atração especial da noite é a volta de James Williamson, que não tocava com os Stooges desde a dissolução do grupo,em 1974. O guitarrista não participara da reunião da banda em 2003, e retorna agora para substituir o também lendárioRon Asheton, falecidoem janeiro deste ano.Williamson é voraz. Sua guitarra é pesada e seus riffs, contínuos, diferente da clássica wah-wah de Asheton, mas não menos boa.
Iggy está com tudo. Ao final da primeira música, talvez confundindo o português com o idioma italiano (onde usa-se a mesma saudação para o cumprimento de encontro e despedida), diz um “Tchau Paulistas”. Sem pausas, a banda engata na seqüência Kill City, música que também nomeia o disco feito em dupla por Iggy e Williamson em 1975.Mal a música acaba, a bandasegue comSearch and Destroy, outro clássico lendário deRaw Power. A plateia está atônita, pula, ergueos braços.Iggy corre ese agitapelo palco.Jovens com idade três vezes menorque a de Iggy olham perplexos enquantoentoamos versos do refrão.
Um jovem pulapara ochiqueirinho dos fotógrafos, que divide a platéia do palco, e prontamente é agarrado por um segurança que tenta devolvê-lo para a platéia. Outro segurançavê e agarrao garoto de volta para o chiqueirinho. Logo se juntam quatro outros seguranças, totalizando seis, que dão pontapés e, de maneira excessivamente bruta, retiram o garoto do palco pela lateral. Era só a primeira prova da violência desnecessária que os seguranças iriam praticar até o final do show. Iggy vê a cena e ainda cantando se indigna, aponta para os seguranças e dizum “let him off” que é ignorado.
A banda dá seqüência ao show com Gimme Danger, também de Raw Power, e Cock in My Pocket, música dos Stooges presente apenas no álbum Metallic KO, um disco ao vivo não-oficial que contém diversas músicas que provavelmente originariam um quarto álbum da banda antes de sua dissolução: quarto álbum este que acabou sendo The Weirdness, de 2005, com músicas totalmente novas e sem James Williamson no grupo. O álbum não fezmuito sucessoentre público e crítica – talvez este seja mais um dos motivos da banda não ter executado nenhuma música deste durante o show.
“Just a few guys”
É então que Iggy convoca as pessoas para subirem ao palco, tomando o cuidado de dizer para subirem“apenasalguns caras”. A chamada surte efeito, mas o aviso não. Aos poucos os fãs vão subindo.
“Just a few guys”: Será que alguém obedeceria?
Estou próximo à grade do público, frontal ao palco. Pessoas me empurrampara tentar subir e outros incentivam e ajudam os corajosos que se arriscam. Meu amigo resolve subir. Com minha ajuda e a de outros fãs que estão na mesma área,eleconsegue passar a grade e ir em direção ao palco. A banda toca o início de Shake Appeal.Uma atmosfera de caos, rebeldia e êxtasetoma conta doconcerto.Os fãs que chegam primeiro ao palco pulam, dançam e tentam chegar perto de Iggy, nesta hora cercado por dois seguranças. Resolvoir também. Me apoio em fãs que estão ao lado e consigo aos poucos transpassar a grade e cair meio de lado no chão do chiqueirinho. Iggy tenta cantar a música, mas já são tantas pessoas que ele mal consegue segurar o microfone. Os seguranças ajudam e Iggyse recompõe e recomeça a cantar.Corro até a escada que leva ao palco. Seguranças bloqueiam a entrada e tentam evitar com que mais pessoas subam. Neste momento, já são diversos fãs por ali. Algumaspoucas garotas se arriscam na aventura. Vejo fãs subindo pelas caixas de som do lado direito. Corro até lá e vejo um segurança tirar uma das caixas que serviam como escada para o palco. Consigo pular até uma caixa de som maior, apoiar o pé e encostar a mão na beira do palco. Fãs de cima ajudam os de baixo a subir. Finalmente estou em cima. Olho para a multidãona platéia. Dezenas de jovens dançam e pulam no palco. Vou até o baixista Mike Watt e agito os punhos, demonstrando estar realmente gostando daquilo. Ele se anima, faz uma cara de êxtase e se agita enquantotoca. Vou até o baterista Scott Asheton e o chamo. Ele continua tocando com seu boné e óculos escuros e nãomedá a mínima. Ia pedir uma baqueta, mas desisto. Percebo que o guitarrista James Williamson foi para o fundo do palco e tocaprotegido por seguranças.Iggy canta a música enquanto diz várias vezes “thank you” e literalmente abençoa os paulistas com um “bless you”.
Decido que preciso ir até Iggy. Quase que irracionalmente corro na direção de onde a voz surge. Não consigovê-lopelo número de pessoas que estão emsua volta. Abro caminho no meio da multidão do palco comempurrões e desvios de ombro e logo estou perto de Iggy. Tudo isso dura poucos segundos. Me sinto nervoso e emocionado. Vou até Iggy,ondeseu segurança pessoal faz uma barreira humana para que ele consiga cantar sem ser constantemente abraçado e ter o microfone arrancado de suas mãos.Alguns jovens tentam se aproximara todo custo. Estico minha mão para Iggy para cumprimentá-lo.Ele retribui o aperto de mãoe me arrepio. Estou apertando a mão de uma lenda viva do rock. Estou apertando a mão do cara que rolou sobre cacos de vidro e andou sobre as mãos daplateia lambuzado de manteiga de amendoimno lendário show deCincinnati em 1970. Hesito em soltarsua mão. O segurança afastameu braçoe solto. Estou extremamente feliz. Pulo do palco em direção a escada comemorando e agitando minha camiseta preta e antiga com uma foto de Iggye o logo dos Stooges. Pulo no chão e tento voltar para a platéia.
O troféu: registraram o aperto de mão. [ Foto: Lucas Lima/UOL ]
Os seguranças distribuem sopapos e carregamosinvasorespra foracom rispidez. Querem esvaziaro palco e abusam da truculência e do excesso de força. Tento voltar para meu lugar antigo, mas é impossível. Corro até o lado direito da grade, um pouco mais afastado de onde eu estava, mas ainda perto do palco. Os fãs me ajudam a voltar, sob meus argumentos de que se continuasse ali acabaria apanhandodos seguranças. A música rola a todano palco enquanto alguns fãs saem por conta própria. O palco vai se esvaziando aos poucos. A música se acaba eo saxofonista faz um solo enquanto os últimos fãs são retirados.Iggy pergunta se podeseguirem frente“como umasex machine”, parafraseandoJames Brown. É então queum jovemcabeludo chega perto de Iggy, o agarra e beija. Instantaneamente diversos seguranças o separam de Iggy, e o garoto cai desmaiado.(Mais tarde, em uma comunidade do Orkut, descobri que o jovem desmaiara por fingimento, para não apanhar dos brutos seguranças).
Finalmente a multidão é controlada.A coisa toda dura menos de dez minutos, mas parece uma eternidade. Com o palco livre, a banda começa Loose, também de Raw Power.Na seqüência atacam de 1970, do segundo álbum dos Stooges, Funhouse.Os versos iniciais da música dizem “Out of my mind, Saturday night”. É exatamente o que acontece naquela noite de sábado com todos esses fãs.E Iggycontinua:“Baby oh baby,burn my heart, fall apart, all night ‘til I blow away…I feel alright, I feel alright”.É a música perfeita para descrever o que acontece naquele show.
A banda continua com Funhouse, do segundo disco, e Night Teme.Na seqüência Skull Ring, música do homônimo disco solo de Iggy de 2003, e Johanna, outra das músicas que estão no Metallic KO e não saíram em nenhum álbum oficial. O show continua com I Got a Right,que não consta em álbunsde estúdio,mas pode serencontradaem discos ao vivo dos Stooges e da carreira solo de Iggy.Em seguida, ele puxa o microfone ediz que a próxima música será para o falecido Ron Asheton,e entãogrita “DOG!”bem alto; o suficiente para todos perceberem que a próxima música seria o clássico absoluto dos Stooges – I Wanna Be Your Dog – única música do primeiro disco tocada no show.A banda inicia a música e aplatéia se inflama.Iggy incita o público e corre pelo palco. É uma grande apoteose do rock. I Wanna Be Your Dog é um verdadeiro hino punk. Iggy canta e, na hora do refrão, aponta o microfone para a platéia cantar junto. Ao meu redor, diversos jovens pulam. Garotassobemnos ombros dos amigos e namorados emãos seguramcâmerasqueregistram o momentohistórico. Iggy se ajoelha e continua cantando. Joga o microfonee rolapelo chão. Levanta as mãos e anda de quatro enquanto a banda toca e incendeia o palco. A platéia volta a cantar alto conformeIggyaponta o microfone para eles. A música desacelera, e Iggy canta alguns versos como se estivesse pregando, para na seqüência dar vazão a um estouro sonoro que durado último refrão até o final,com a batida nos pratos deScottAsheton. O público grita “Iggy, Iggy” e o Iguana soca o ar e anda pelo palco enquanto faz pose. Aos poucos, a banda sai do palco e os roadies chegam para arrumar as coisas. Era muito óbvio que haveria o bis: cerca de três minutos depois,a banda retorna e a platéia vibra.Iggydiz “I Love You”e distribui beijos. A música da seqüência é Five Foot One, canção da carreira solo de Iggy presente no disco New Values, de 1979.
Gran finale
A música acaba e Iggy berra paraos Stoogestocarema “maldita” Passenger. Williamson dá os primeiros acordes e o público parece não acreditar. A música faz parte de Lust For Life,segundodisco solo de Iggy, feito em parceria com David Bowie. A platéiadelira.Percebo que estou realmente emocionado por ouvir uma das músicas mais bonitas da história executada ao vivo por uma lenda. Todos olham com atenção e cantam trechos da música. O público canta em uníssono com Iggy no clássicorefrão (“la la la la la la la la”). A música acaba e Iggy bate com o pedestal no chão do palco, enquanto grita e anuncia que a próxima canção é Death Trip, última faixa do Raw Power, mas não a última do show.
O gran finale fica por conta de um dosmaioresclássicosde Iggy em carreira solo, eelefaz questão de berrar e anunciar “Lust for life”a plenos pulmões. A bateria e o baixo iniciam os acordese Iggy canta sobre“Johnny Yenn coma bebida eas drogas”. Sua calça já está quase toda caída, na altura dos pelos pubianos. Sua bunda está praticamente inteira de fora e seus famososcabelos loiros na altura do queixo estão completamente molhados, como também está ele, enquanto cantaseu“tesão pela vida”.
Esse provavelmente também era o pensamento de cada um daqueles fãs presentes ali naquele show de sábado, 07 deNovembro de 2009.Era esseo sentimento geralapós a banda tocar a última nota da noite e fechar a série de shows do festivalPlaneta Terracom chave de ouro. Iggy anda pelo palco com as calças caindo, agradece ao públicode braços abertos e saí de cena,seguido pelo resto da banda.As drogase a bebidapodemterdiminuído ou cessado, masIggy Popcom certeza ainda temmuitotesão pela vida.
Palco Myspace, 8 de novembro de 2009. Danko Jones, John Calabrese e Dan Cornelius: o trio hard rock canadense DERRETEU o público do Maquinaria Festival.
If you wanna do it, do it right, ele cantava com propriedade de lá de cima – pra logo em seguida mostrar a língua, absolutamente TRANSTORNADO. Como a maioria das pessoas ali, eu só concordava, tão transtornada quanto, depois de horas pulando embaixo da chuva. Valeu cada segundo. Eu não sei como conheci Danko Jones. Não me lembro de ter sido apresentada à banda e nem de tê-la descoberto numa das minhas viagens pelo myspace. Ele simplesmente estava lá, nas minhas playlists, já faz algum tempo.A verdade é: nada disso me importa. A única coisa a saber é que o trio esteve aqui, e eu vi grudada na grade, berrando, pulando e trocando olhares O TEMPO TODO.
Danko tem presença de palco. Conversa com o público, fala sobre amor e sexo sem nem de longe ser ogro ou piegas – e não é raso em suas afirmações. Desafia todos a continuarem ali, dialoga, faz a gente querer mais. Entre pedidos tímidos de “Lovercall!”, ele responde com um carinhoso ‘i’m gonna put a fist of rock right up your assess!‘ – promessa que cumpre bem, aliás. O cara transpira rock’n'roll (e você podia esperar outra coisa do apresentador do The Magical World Of Rock?).
fritando. [o melhor vídeo que encontrei]
Algumas bandas simplesmente não funcionam com muito público. Foi o caso de Panic! At The Disco. Apesar do show recheado de sucessos (total 2005 feelings!), não me cativou tanto assim. Não deixou a desejar, é fato, mas também não marcou. Evanescence, ao contrário, é uma banda que parece feita para o público enorme: não importas quão baixo astral seja a letra, a doce Amy Lee consegue arrancar sorrisos com suas saias fluorescentes e sua invejável afinação.
Público: aí residiu parte da mágica de Danko Jones. Não estar no palco principal, em festivais que misturam estilos assim, é um benefício, ora vejam. Enquanto lá fãs de Evanescence esmagavam o público de P!ATD fazendo careta e atrapalhando a curtição, no palco Myspace o público todo delirava. Aliás, que me desculpem os fãs de Panic e Evanescence, mas quem chutou bundas na noite do último domingo foi nosso amigo Danko. E, embora tenha feito comentários ácidos a respeito da galera no palco principal, prometeu: ano que vem, volta NELE. Não gosto, mais aprovo. Quero mais é que ele volte MESMO. Várias vezes. Palco principal, Myspace ou até na putaquepariu. O rock de Danko vale a pena.
[Só um adendo que eu não podia deixar passar: Alguém que não entendeu o mundo criou os reality shows e com eles surgiram as pseudocelebridades que inundam as pistas vips de eventos por aí. Vergonha alheia: trabalhamos.]
Foto: TATU, o fotógrafo mais pirado que eu já vi durante um show.
A banda de Belo Horizonte Spooler traz um “rock dançante e descompromissado” que promete tirar as preocupações de sua cabeça com sua música única e de qualidade.
Depois de um dia cansado, uma semana problemática, é preciso descansar. Um som tranquilo, relaxante, para dormir e recuperar-se. Mas para que isso, quando se pode escolher uma boa música agitada e divertir-se, deixando tudo para trás?
“Estamos aqui para resolver os seus problemas”, é a proposta do Spooler(@spoolermusic), um grupo de Belo Horizonte. “Nos dê suas preocupações que acabamos com ela na hora, com alegria, ritmo e uma dose de intelecto. Ou seu dinheiro de volta.” Então antes de se afogar em seus dilemas rotineiros, a sugestão é conhecer este som.
David Dines (vocal, guitarra e teclado) e Gustavo Matos (bateria e programação) formam a banda Spooler. Colegas de faculdade de jornalismo, não deixaram a profissão de lado, mas desejam caminhar com a música. “Jornalismo na verdade é algo que se passa a viver, 24 horas por dia”, afirmam.
Ambos possuem trabalhos musicais paralelos, David é vocal e guitarrista da banda As Horas e Gustavo é baterista do Ragna. Estes outros projetos são bem diferentes do Spooler, voltados para o pós-punk e metal respectivamente.
De acordo com o Myspace da dupla, “entre as afinidades musicais, o gosto por rock dançante e descompromissado falou mais alto, trazendo influências da new wave, do pós-punk e do que há de pior na disco music. Tudo moldado por bateria precisa, guitarras e teclados minimalistas, além de letras agridoces, que procuram desviar da desgraceira”. Entendeu? Então vamos lá…
“A gente cansou de tocar pra headbanger (fãs de heavymetal e variantes) sem ritmo e sem senso de humor”, riem. Daí é que surgiu o que chamam de “rock dançante e descompromissado”, no qual querem que “as pessoas se envolvam com a música sem que isso seja uma experiência dolorosa, como acontece muitas vezes no rock”. Por fim, resumem: “a intenção é fazer música boa pras pessoas se divertirem”.
E é desta ideia que vem inclusive o nome da banda, Spooler. De acordo com eles, o termo designa “aquele momento em que se está na pista de dança, com todo mundo olhando pro DJ, vem aquela determinada música e acontece a catarse coletiva”. “É aquele instante de transcendência”, filosofam.
A dupla parece ter uma boa sintonia. Quando se conheceram, na mesma sala da faculdade, decidiram começar o projeto sem grandes pretensões, lá para o final de 2008. “Já tocávamos em outras bandas e a ideia era que o som não tivesse nada a ver com nenhuma delas”, explica David. Buscavam algo que, de acordo com eles, falta em BH, mais estilo pop dançante. “Marcamos um ensaio e em pouco tempo, já tínhamos algo bacana pra mostrar.”
As músicas são de autoria própria. Os dois compõem quase sempre juntos, e só às vezes criam separado. “Mas as coisas só ficam com a cara da banda depois que os dois põem a mão”, explicam. O EP, virtual, tem seis músicas (duas em inglês) disponíveis no Myspace e Trama Virtual, onde podem ser baixadas. “Não o lançamos em formato físico por achar que, neste momento, não tem feito diferença”, comentam, “a maioria prefere andar por aí com seu MP3 player”.
Das músicas em inglês, explicam ser “reflexo da pista de dança”, além de olharem para mais longe e desejarem “ultrapassar barreiras de linguagem”.
Eles concordam com o fato da internet fragmentar o conceito de álbum: “as pessoas vão em busca das coisas em unidades”, diz David e Gustavo. Neste novo cenário musical, os dois já têm uma ideia de como lidar: “cada música precisa ter sua força específica”. Ainda assim, não exageram. “A ideia de álbum é algo que não morreu, mesmo com o formato físico em queda (…) dá pra construir roteiros e conceitos”, afirmam.
Dentre as influências, o cenário disco dos anos 80, que está voltando com diversas festas e novas bandas, se mostra presente no trabalho de David e Gustavo. Eles afirmam que conheceram algumas coisas na época e outras vieram depois. “Na verdade, o que importa é o que essa sonoridade nos marcou bastante”, explicam. Para eles, “música boa não tem época, e pode ser curtida em qualquer espaço temporal”.
Em Belo Horizonte eles gosta da recepção do público e até elogiam, “nosso público é fantástico, cheio de pessoas bacanas, calorosas, de todos os tipos”. Também mencionam que estes ouvintes aumentam com a internet, numa reação gratificante. Até por que, não é de menos, o trabalho tem qualidade para tanto. “A gente quer tocar até onde a Internet alcança”, almejam.
Mas não somente sonham como também investem. A Spooler está formatando um novo show, mas costumam tocar em casas de amigos, o que, de acordo com eles, “tem sido ótimo”. Logo mais eles disponibilizarão seu primeiro clipe, do single “Isadora”, que já está pronto.
A proposta de diversão é alcançada pela dupla, que até na aparência – com uma diferença considerável e simpática no tamanho – esbanjam graça. Mas a ideia não caminha sozinha, a música é original, tem qualidade e anima a quem ouvi-la. Aos fatigados ou aos que simplesmente buscam diversão, Spooler é a sugestão para o seu momento de “desestress”.
Pós-post: Depois de publicada a matéria, avisaram que estão montando também um show para São Paulo e devem participar de uma coletânea-tributo, realização do Pisces Records (www.piscesrecords.com.br). O trabalho de animar platéias segue firme!
Sexta-feira é dia de Francisco aqui no Vitrola! Hoje não tem “Comentando Clipes” – embora o último tenha feito um ‘sucesso’ assustador – mas tem animação Disney comentada no jeitinho Fran de ser. ( #meujeitinho =P )
Eu sempre fui fã de desenhos. Além dos preconceitos, o desenho (os bons, pelo menos) é um universo de histórias, personagens e, principalmente, músicas. A trilha sonora é um fator indispensável para a sua boa repercussão, sendo, em alguns casos, mais importante do que o próprio enredo. No Japão, para um animê ser lançado, uma equipe de avaliação musical seleciona profissionais de música e artistas respeitados para a composição musical. Em um caso mais próximo, nem se discute qual a base de todos os desenhos produzidos pela Disney.
Parando pela Disney, eu sei que quem está lendo agora deve ter lembrado a época em que se assistia O Rei Leão, ou outro desenho do tipo, em VHS. Eu sempre digo que só tem uma coisa melhor do que ter assistido clássicos da Disney quando criança: Assisti-los novamente, agora adulto. Hoje, com 19 anos, eu tenho uma noção muito diferente dos mesmos desenhos que eu assistia quando criança, principalmente no que se trata das músicas.
Nosso título de exemplo será O Corcunda de Notre Dame (1996). O filme, que rendeu mais de 300 milhões de dólares pelo mundo, ganhou, em 1997, um Oscar e um Globo de Ouro, ambos por sua trilha sonora. A história se passa na França de 1482, onde a cidade enfrenta a repressão moral do Juiz Claude Frollo, tutor de Quasimodo, um sineiro corcunda que tem a vida mudada depois que uma trupe de ciganos passa por Paris.
Quando eu assisti O Corcunda de Notre Dame pela primeira vez, eu só conseguia prestar atenção na dinâmica das imagens, que são bem fortes, aliás. A musicalidade também me atraía muito, mas, vale lembrar que eu tinha seis anos apenas e mal prestava atenção nas letras. Hoje em dia dá pra ser um pouco diferente, e a primeira coisa que eu notei, assistindo novamente, é que é um filme bem mais sério do que parece, assim como quase todos os clássicos da Disney.
“Qual fogo do inferno
Tal fogo arde em mim
Desejo tão terno
Do mal é o estopim”
Na voz de Rodrigo Esteves, a dublagem brasileira do Juiz Frollo foi considerada uma das melhores do mundo, e com muito mérito. Alguém adivinharia que a música aí em cima é de um filme infantil? Não só é, como é, também, uma das canções mais polêmicas da história da Disney. Não dá pra não se arrepiar com a loucura do vilão, expressada na música e na animação, que não fica atrás em qualidade.
O trecho é da canção “Fogo do Inferno”, que vocês podem conferir no vídeo lá embaixo. É a minha música predileta no filme inteiro, mais que “O Pátio dos Milagres”, que também é excelente. Só uma curiosidade: “Fogo do Inferno” é cantada por Frollo, logo depois da cena em que Quasimodo, o corcunda, canta “Luz do Paraíso”. Forte.
“Me Salve Maria
Não deixe que ela lance mão
Do mal que me consome em seu ardor.
Destrua Esmeralda, que ela queime aflição
Ou seja meu, só meu, o seu amor…”
O filme é uma lição sobre julgamentos preconceituosos e, como diria o cigano Clopin, nos faz perguntar “Quem é o homem e quem é o monstro?”. E isso é só uma das respostas que eu poderia dar a quem insiste que existe idade para se assistir desenhos.
Então, parem de assistir o programa da Mari Moon e corram para resgatar seus vídeos da Disney, antes que eles sejam doados para um primo destruidor. E, pra fechar embarcando na idéia do filme, vamos parar com preconceitos sobre filmes infantis, né? Eles já eram muito bons, antes de Shrek, não vamos deixar que sejam esquecidos.
PS: Valeu todo mundo que comentou nos meus últimos posts (Comentando Clipes – Garota Radical e Comentando Clipes- Die Alive). Fiquei até assustado com o número de comentários. Se você ainda não leu, clica aqui.
PPS: Só pra esclarecer o que alguns leitores têm me questionado. A Ariane posta pra mim porque eu vivo esquecendo meu nome de usuário, senha, ou qualquer coisa assim. Daí mando pra ela por e-mail e ela coloca aqui por mim *-*.
Eu nunca ligo o rádio em casa. O hábito de sintonizar emissoras se perdeu em algum lugar dos anos 2000, quando a 89 FM deixou de ser a rádio rock para virar a rádio qualquer coisa. As zilhões de músicas disponíveis no iTunes, a incrível coleção de cds da minha tia e o fato de eu ser uma usuária do transporte público de São Paulo também não me animam a cultivar o hábito. Só que hoje eu liguei o som da sala sem querer e estava tocando “Another Brick in The Wall”, do Pink Floyd. Aí eu lembrei do quanto esse disco - “The Wall” (1979) – me marcou.
“The Wall” é um projeto que flerta com a megalomania de Roger Waters. Também é considerado o álbum duplo mais vendido de todos os tempos – 30 milhões de cópias espalhadas pelo mundo. “The Wall” (“A Muralha”), fala sobre isolamento, solidão e desespero. O filme, estrelado por Bob Geldof e dirigido por Alan Parker, é uma daquelas brisas existenciais e passionais. Ou você entra no clima e pira nas transições malucas com desenhos animados psicodélicos ou vai ficar o filme todo achando que o personagem Pink é um emo dos anos 80 com sérios problemas freudianos.
Ao lado de Raul Seixas, Pink Floyd foi o amor musical da vida do meu pai. Ele se gabava, num exagero que me arregalava os olhos, de ter assistido ao filme mais de 20 vezes no cinema. Na cena mais famosa, transformada posteriormente em videoclipe, um grupo de crianças usando máscaras assustadoras anda em fila e para cair fatalmente num moedor de carne. Depois, num incêndio revolucionário, rasgam uniformes e cadernos e tocam fogo na escola. Confesso que, ao longo do Ensino Fundamental e Médio, esse foi meu sonho secreto. Como todo bom adolescente, eu odiava o colégio e sonhava em provocar o caos com meu lápis de olho preto. Eventualmente, esse tipo de pensamento foi embora junto com as espinhas, mas ficaram canções como “The Thin Ice”, “Mother” “Comfortably Numb” e “Hey You”.
O disco é feito para ser ouvido à moda antiga: deitar no chão com almofadas, acender seu tipo de cigarro favorito e decidir se somos ou não apenas mais um tijolo na parede.
PS: A rádio em questão tocou a versão completa de Another Brick in The Wall, que reúne as três faixas homônimas e mais “The Happiest Days of Our Lives”. Eu estava sintonizada na Kiss FM (102, 1 FM) de São Paulo no programa Rock Cine, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 9h, às 13h e às 16h e aos sábados, às 19h. =)
Há vinte anos, o mundo ficava um pouco mais careta.
A primeira impressão que Paulo Coelho teve de Raul Seixas foi: esse cara aí é um careta. Na época, Raul tinha emprego fixo em uma gravadora, era casado, tinha filhos e andava engravatado. Tudo o que um careta fazia. Alguns dias depois, Raul Seixas convidou o futuro membro da Academia Brasileira de Letras para um jantar. Lá, em meio a mulher, a filha pequena, os salgadinhos e os móveis suburbanos, sentenciou: estava largando tudo aquilo para viver só de música. O autor de “Diário de um Mago” precisou humildemente dar o braço a torcer – no fundo, o careta aqui sou eu.
Eu conheci Raul Seixas quando era bem mais careta do que sou hoje. Meu pai, quando a expressão “careta” ainda fazia algum sentido. Lembro de subir nos móveis da sala para cantar o refrão de “Carpinteiro do Universo” e “Coração Noturno”. Lembro de encostar a testa na vidraça embaçada do sobrado e ouvir “Medo da Chuva”. Lembro da capa do LP em que Raul olhava para nós, com óculos, jaqueta de couro e velas vermelhas acesas. Lembro principalmente do dia em que ouvimos “Sapato 36″ em silêncio dentro do carro. No final, meu pai virou e setenciou: “Um dia vocês vão cantar essa música pro pai.” Um dia, quase 10 anos depois, eu entrei em um avião e a música ressoou em meus ouvidos.
Pai eu já tô crescidinho Pague prá ver, que eu aposto Vou escolher meu sapato E andar do jeito que eu gosto E andar do jeito que eu gosto
Canceriano, Raul Seixas nasceu em Salvador, no dia 28 de junho de 1945. Conheceu o rock n’ roll de Elvis Presley – rei absoluto. Encantado com a majestade, Raulzito nunca escondeu a ambição de se tornar a versão tupiniquim do Rei do Rock.
A julgar pelas centenas de sósias que ainda circulam de cavanhaque cheio, óculos Ray-Ban e bolsas de pano, cantando “Gita” e celebrando aquela tal sociedade alternativa, ele conseguiu. Outro dia, eu estava esperando a balsa no meio da Amazônia e um cara de chinelo havaiana estacionou seu carrinho de ambulante, equipado com um som capenga. Escurecia e estávamos no meio do nada num cais às margens do Rio Negro e o cara escolheu justamente uma música de Raul. Meu pai – que pagou pra ver se eu andaria do jeito que eu gosto – sentenciou novamente: “Raul Seixas toca em qualquer lugar. Tá no coração de todo mundo.”
Minha mãe conta que chorou a morte de apenas dois artistas: Elis Regina e Raul Seixas. Ela também perdeu um show dele porque não acreditou na veracidade dos fatos. Na época, meados dos anos 80, Raul estava afundado no ostracismo. Minha mãe achou que fosse o show de algum cover e se mandou para outra balada. Duas vezes meus pais se sentiram tentados a chamar um dos filhos de Raul. Meu irmão do meio nasceu em junho de 1989. O projeto foi abandonado porque alguém achou que ficava feio Raul Ricardo Oliveira. Superado o trauma cacofônico, foi a vez de querer batizar o filho que nasceu em 1992. Para sorte ou azar, o caçula surgiu no mundo mulher. Perdeu.
Hoje eu estava indo pro trabalho e tocou “Carpinteiro do Universo” no iPod. Raul Seixas morreu às sete da manhã do dia 21 de agosto de 1989, aos 44 anos Eu encostei a cabeça no vidro do ônibus e senti saudades do maluco beleza que eu nunca conheci. Toca, Raul.
Eu, minha infância e minhas lembranças, divididas entre "A Verdade Sobre A Nostalgia" e "Você Ainda Pode Sonhar", nos tempos da Rua Wolstein, 74
Uma das maiores recordações da minha infância, é engraçado, é a de como eu amava ouvir as fitas do meu pai: tinha coisas loucas, sempre, mas as minhas favoritas eram Queen, Beatles e, especialmente, Raul Seixas e Pink Floyd. O diabo é o pai do rock! O diabo é o pai do rock! Enquanto Freud explica as coisas o diabo fica dando toque! Pra mim, criança de tudo, era sensacional aquele cara gritando ali, no bom e velho português, algo sobre diabo e rock – coisas que eu, em casa, sequer podia falar naquele tempo sem ouvir poucas e boas, tamanha a rigidez de minha mãe – com aquela empolgação. Cantava junto baixinho, cantava junto escondido. - Faz o que tu queres: Há de ser tudo da Lei. Pulava ao som de Raul até sentir que as molas do sofá de couro preto pediam socorro.
Vim assaltada por essas recordações no caminho da faculdade, meu pai, eu, a radial e o toca-fitas prata do fusquinha vermelho. Viva! Viva! Viva A Sociedade Alternativa!A vinte e oito dias de meus dezenove anos, entre o chiado da fita e o inconfundível barulho do motor do besourinho VW, comecei essa semana no início dos anos noventa. Pense num dia com gosto de infância, sem muita importância, procure lembrar: você por certo vai sentir saudades… Incrível como o mês de março para mim é sempre nostálgico, como que me dizendo, na voz de Raul: Faça uma força; você não está velho demais prá voltar e sorrir.
Eu não nasci há dez mil anos, mas aprendi de pequena que quem não tem colírio usa óculos escuros, ora ora. Como vivi Seixas! Éramos três, meu pai e seu gurgel ‘conversível’ branco, minha mãe e seu fusquinha azul, eu a cantarolar Eu sou a mosca que posou em sua sopa… Eu sou a mosca que pintou prá lhe abusar… – cantarolar quando ainda mal sabia falar.Quantas vezes, no decorrer da minha vida (que ainda nem foi tão longa assim, convenhamos!), não aconteceu de, em diálogos com minha mãe, uma das duas aludir a Tente Outra Vez, que a vida nunca nos pareceu fácil: ela sempre trabalhando muito, eu sempre a estudar, até quando brincava. Mamãe sempre diz que essa música lhe faz bem. Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar… Não pense que a cabeça agüenta se você parar… Não! Não! Não! Realmente, sempre me lembrará a força que ela teve durante esses anos todos – e que só quem a conhece sabe quão grande realmente foi.
No alto de meus quinze anos, revoltada com a politização excessiva de alguns, alimentada pela necessidade de afirmação comum da adolescência, minha espada era guitarra na mão. É. Saía bradando por aí, não sem causar estranhamento em alguns: Se você acha o que eu digo fascista, mista, simplista ou anti-socialista, eu admito, você tá na pista: Eu sou ista, eu sou ego, eu sou ista, eu sou ego, eu sou egoísta… Por que não? Por motivos diversos, mesmo depois de mudar muito, concluí hoje, parada num farol da Avenida Rebouças, cabeça entre noventa e uns e 2009, que essa é ainda a música que melhor me sintetiza.O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço.
Estávamos já chegando à Faculdade de Educação quando começou a tocar Metamorfose Ambulante. Nem meu desprezo por Paulo Coelho, nem minha espécie de ‘TOC’ quanto à regência do verbo “preferir” me impedem de gostar dela – talvez porque ambas as informações me tenham chegado ao conhecimento depois da própria música, que eu tenho impressão de ouvir desde muito antes de compreender qualquer palavra. Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo… Engraçado como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. A memória, a essência, o caráter, os princípios (agora não tão inocentes quanto antes)… Tudo intacto aqui dentro.
Hoje podia ser domingo, segundo de janeiro, pra mim vai dar no mesmo lugar: vai dar na minha alegria. Eu não quero mesmo nada, eu não tenho nada a ver com isso. Às seis e dez da manhã, o motor do fusquinha 68 se desligou completamente, e eu sorri por dentro, um sorriso de gratidão, porque não há prazer maior que saber que devo a Raul todo esse meu amor ao rock. Demos sorte, nós que tivemos essa oportunidade. Tem gente da minha idade que diz ser do rock graças ao som de Avril Lavigne – não estou brincando nem sendo preconceituosa, é só somar dois e dois pra ver que realmente posso me considerar privilegiada. E sobraram lições, pra toda vida. A de que hoje me valho, todo um contexto que aqui não cabe explicar leva-me a isso, é uma das melhores: Se o rádio não toca a música que você quer ouvir, não procure dançar ao som daquela antiga valsa! Não! Não! Não! É muito simples! É muito simples! É só mudar a estação, é só girar o botão…
Todo Mundo Está Feliz Na Terra, penso. E aí, casperiana sem lar, como me intitulei ano passado numa carinhosa alusão a Raulzito, eu saio do carro, pronta pra mais um ano. Cansei de passar os dias só, sem ter ninguém. Vivo a sofrer, me lamentando, também procurando toda verdade esquecer. Penso nas últimas ilusões que vivi enquanto subo as escadas do prédio deserto do bloco B. Eu posso ficar melhor sozinha. Quando eu me sentia caída você me botava pra baixo,tão pra baixo… Você tem sido uma pedra bem no meu caminho, e eu nunca tive coragem pra dizer. Eu realmente não preciso de você… Tento me convencer. Todo homem tem direito de pensar o que quiser. Agora é que o ano começa de verdade. E eu fico imaginando quantas vezes a voz de Raul ainda não fará todo o sentido do mundo para mim nos momentos mais aleatórios… Gente é tão louca… E no entanto tem sempre razão.
Desabafo piegas publicado originalmente no meu blog, em 02 de março de 2009, mas que, com certo receio, resolvi deixar também por aqui. Homenagem até tardia ao Raulzito.
O guitarrista Vitor Cahu saiu da banda pernambucana Terceira Edição, mas vale a pena conhecer o rock dos rapazes.
(com contribuição de Clara Camargo e Tory Oliveira, imagens de Ariane Freitas)
No dia em que fomos cobrir o show da banda carioca Leela no Centro Cultural São Paulo acabamos conhecendo outra, o Terceira Edição. Para quem gosta do rock atual baseado em composições próprias, vale a dica.
A banda recifense empolgada abriu a noite em preto e branco – o figurino parecia uniforme combinado, mas formava uma imagem legal. De acordo com a vitroleira Clara Camargo, a banda veio com personalidade na música e nas letras. Para ela, “eles estão no limite entre a qualidade dos Detonautas e CPM 22”. Naquela noite quem tocava eram todos os integrantes: Vinicius Frota, no vocal, Vitor Cahu, guitarra, Thiago Régis, guitarra, Thiago Guerra, bateria, Tiago Tejo, baixo.
Terceira Edição (3E), no cenário desde 2003, já lançou dois álbuns: “O show da vida ideal” e “Sobre todos e sobre ninguém”. Pelo que contam, têm publico cativo em sua cidade-natal, Recife, onde já abriram shows de grandes bandas. Já em São Paulo, para onde vieram há algum tempo, ainda estão na batalha.
Dentre outras informações legais, vale lembrar que participaram do “Garagem do Faustão”. O guitarrista Vitor Cahu conversou com a vitroleira Tory Oliveira sobre o assunto e afirmou que “o programa do Faustão tem uma proposta interessante para as bandas novas, mas o resultado final é desvalorizado pelo pouco tempo que a banda tem para apresentar o seu trabalho”. Sobre a repercussão da aparição Global, Vitor adicionou: “mesmo assim, o programa gerou uma visibilidade incrível”.
Simpáticos, apesar da cara do vocalista de “sou super famoso” quando alguém cantava o refrão ou soltava um berro, o grupo realmente sabe estabelecer um elo. Clara também concorda: “o Thiago Régis enfeitava os solos de guitarra e olhava para o Vitor, que sentia o que ele estava transmitindo e o acompanhava. Isso é sintonia de banda”. Infelizmente, o guitarrista Vitor, que tocava demonstrando alegria, está saindo da banda. Ele parte para Portugal, mas vai continuar compondo para os amigos. Ainda assim, sentimos uma espécie de vácuo, visto que ele parece liderar um pouco o grupo e fazer uma parte muito importante para eles. Daqui pra frente, é ver como as coisas seguem.
A música está melhor no myspace do que ao vivo, quando em alguns momentos parecem barulho. E é na internet, acredita o 3E, que o trabalho chega ao público. Mas fãs, afirmam os músicos, ainda compram e preferem o disco físico, completo.
Termina o último show do Vitor Cahu no 3E e o vocalista Vinicius Frota pede aplausos de pé. “O Vitor abriu portas para a banda”, afirma e vibra. Depois de tudo, um fã da banda ainda pediu: “a palheta!”. E seguem a vida, tocando por aí no cenário brasileiro de rock.