Com show hoje no Estúdio Emme (São Paulo), o Garotas Suecas conta um pouco sobre sua história, seu álbum Escaldante Banda e seu som vintage que não deixa ninguém parado
Por Érika Kokay e Jessica Grant
Não são garotas, nem suecas – na verdade, tem uma menina na banda, que até passaria por sueca com seus cabelos loiros, mas é paulistana e entrou no grupo quando o nome já tinha sido escolhido. O som não engana, é brasileiro. Com duas cantoras convidadas no backing vocal em algumas músicas, Os Mutantes da Rita Lee parecem ter voltado para um bis. Quando entra o naipe de metais, composto por saxofone, trompete e trombone, o som lembra a Vitória Régia, lendária banda que acompanhava sir Tim Maia nos shows. Nessa mistura de funk, soul e psicodelismo, você só quer dançar quantos sambas aguentar.

A verdade é que você vai sambar muito. Depois do EP Dinossauros, de 2009, o Garotas Suecas lançou seu disco de estreia, com um título autoexplicativo: Escaldante Banda. A primeira faixa do álbum, “Tudo Bem”, já manda uma letra de fazer jogar fora qualquer ideia errada sobre a big band de nome curioso: “Deveria ter ouvidos os conselhos que me deram / Mas tudo bem / Pra toda perda há ganho / Nada mais parece exato / Mudar um pouco de formato”, canta o vocalista Guilherme Saldanha, que divide a banda com Irina Bertolucci (teclados), Tomaz Paoliello (guitarra), Fernando Perdido (baixo), Nico Paoliello (bateria) e Sérgio Sayeg (guitarra).
O disco foi lançado pela American Dust, selo norte-americano. E, além de tocar em vários palcos na “gringa”, eles ainda conquistaram a mídia de lá, como o New York Times e a rádio NPR – que inclusive apresentou o álbum para “Exclusive First Listen” em seu site. Com tamanho sucesso lá fora, não era de se espantar que a banda voltasse com tudo.
Em um bar de Higienópolis, Sérgio, mais conhecido como Sesa, levou uma maleta com compactos raros de jazz e soul e conversou com o Vitroleiros sobre o disco, as turnês nos Estados Unidos e as inspirações e influências da banda que tem dado o que falar – e dançar.
Como o caminho de vocês se cruzou?
A gente se conheceu no Café Aprendiz, na Vila Madalena. Eu organizava, junto com um professor meu de música, uma espécie de “open mic”, sabe? Um palco aberto [open Mic é um show em que o microfone está livre para quem quiser cantar]. E eu conheci o Sal [Guilherme Saldanha] e o Tomaz, que é o outro guitarrista. Eu encontrava com eles sempre, aí a gente resolveu fazer uma banda. E o pessoal foi se juntando: Nico é irmão do Tomaz. A Irina é amiga de uma amiga que acabou surgindo. E Perdido é amigo do Sal. A gente começou a ensaiar umas músicas que a gente gostava, com pretensão de um dia estar aqui, dando entrevista.
Você tem um monte de compacto, de achados. Vocês têm o costume de ficar procurando coisas raras e antigas?
A maioria de nós é bem doente, né? A gente vai tocar na gringa e tal, então acaba sempre tentando achar, ir atrás dos discos e tal. É um lance que a maioria da gente tem, uns mais, outros menos. No fim, todo mundo acaba gostando.
Vocês gostam de coisas antigas, então? Os equipamentos de vocês, entre pedais e amplificadores, parecem bem antigos.
Então, a gente tem um lance. Não é que a gente tente objetivamente soar como uma banda dos anos 70, a gente tá fazendo do jeito que a gente acha que tem de soar pra gente. Aí a gente quer fazer alguma coisa que soe bem, que faça as pessoas se sentirem bem, que seja uma energia positiva e louca. E acaba soando um pouco como as coisas dos anos 70. É um negócio que tem aí, porque era muito bom. Ah, a gente tem esse lance de pesquisar timbre…– “pesquisar” é uma palavra horrível, né? Parece que a gente é acadêmico – mas é, a gente tem essa linha. O jeito que a gente tenta ser criativo esbarra por esses sons já feitos.
O soul e o funk são as influências de vocês? O que toca pra vocês?
Cada um, a essa altura do campeonato da banda, já tá dentro das suas paranoias. A gente já ouviu mais música juntos do que agora. Mas o que foi para a sonoridade deste disco é muito isso de música brasileira, MPB mais loucona, não muito careta, como Tropicália e as coisas super raras. E funk, soul, música psicodélica. É isso que tem no disco, que é o que a gente curte muito, sabe? Mas a gente ouve mil outras coisas que não necessariamente são tão óbvias, eu acho.
Como os metais entraram para a banda?
Eles vieram somente para fazer parte do disco. A gente começou a gravar com os metais no [ep] Dinossauros. “Codinome Dinamite” e “Ghostwriter” têm metais, “Senhor Sabe Tudo” também. Sei lá… 90% destes compactos que tenho têm sopro, é uma necessidade que veio para a sonoridade que a gente tava buscando. O Dinossauros foi essa primeira experiência, era todo mundo meio duro pra criar, era tudo muito novo. Aí, no segundo disco, a gente já tava mais à vontade, já tinha tocado ao vivo com os metais. Foi meio que um desenvolvimento da sonoridade. Quando você tá gravando um disco não dá pra fazer um “catálogo” de música: “Essa música é assim, pá”. É arranjo, entra coisa, sai coisa. A gente pira muito nesse processo de estar no estúdio.
E como é este processo de criar pra vocês?
Acho que é a coisa menos óbvia. Porque quem escreve mais sou eu, o Sal e o Tomaz. Às vezes, alguém vem com uma coisa super crua, uma música no violão mesmo e traz pro ensaio e a gente cria toda a instrumentação do zero e ela vira mil coisas. A gente testa todas as possibilidades. Ou ela vem na gravação caseira mais pronta, com uma ideia um pouco mais fechada de sonoridade, de instrumento, riffs, linhas, e tal. Então varia.
Muitas resenhas chamaram vocês de “vintage”. Como vocês lidam com isso?
Acho que a gente soa meio vintage, não temos problema com isso. Eu não ouço quase nada que seja contemporâneo, sabe? Se me pedirem pra fazer uma lista dos dez discos que saíram este ano, talvez eu não saiba falar. Não que eu não ouça coisa nova, mas ouço muito mais música que já foi. Talvez tenha muito mais coisa boa que já foi gravada. Com certeza as pessoas que curtem a gente reconhecem várias coisas. Mas não tenho problema com isso, é um jeito de ser criativo. A gente não é menos verdadeiro, o que a gente fala, porque tem isso.
E os shows nos EUA? Como rolou a oportunidade de ir pra lá?
Cara, meus pais moram lá, eu tava morando com eles, e a banda veio me visitar, sem grandes pretensões. Eu marquei uns shows nuns buracões só em Nova York. A gente foi, tocou, foi foda. A gente conheceu nossa agente lá e ela marcou uma turnê pra gente logo depois. Eles vieram me visitar em junho, tocamos, teve VMB em outubro [no qual ganharam o Aposta MTV], e voltamos para a primeira turnê, que daí rolou um monte de coisa, umas resenhas superpositivas. A gente voltou e foi pro [festival] South by Southwest, que foi ainda melhor, sabe? E a gente voltou com o selo, fizemos festivais, a coisa vai crescendo.
Como é a receptividade do público de lá? É muito diferente?
É diferente porque ninguém entende o que você tá falando [risos]. Mas é muito louco ter este tipo de conexão, porque é simplesmente musical. Os caras pirando, perdendo a linha, jogando os filhos pra cima, e eles não estão entendendo nada. Ah, é louco isso. Tem umas cidades maiores que você toca e é normal. Não é um absurdo ter alguém cantando em português num show em Nova York. Mas às vezes você toca num fim do mundo, em Ohio por exemplo, que é louco.
Você acha que as pessoas olham diferente pra vocês agora, depois de terem feito shows lá?
Ah, lógico. É inevitável a glamurização. Mas, tipo, o que dá pra sentir mesmo como banda é que você faz 30 shows seguidos, tá tocando pra caralho, daí você vem pra cá e faz shows de lançamento e tal e tem essa energia, um negócio que rola. Tem muito disso: “Ah, a banda foi pra gringa”. Mas é normal, é o jeito que é, e é bom até.
Por que vocês decidiram lançar em vinil?
Ah, é um fechamento de um ciclo pra gente. Não é o primeiro, tem os compactos em vinil. É porque a gente curte pra caralho. É um lance meio… sei lá, a capa é grande, não dá pra fazer em casa, vai pra fábrica. É um processo. Você se sente parte da indústria.
Vocês tem ideia de fazer turnês no Brasil?
Então, esse é um assunto. O jeito que a gente toca na gringa é muito difícil de transferir pra cá. De poder tocar um mês seguido, todos os dias. Você tem um show um sábado em Nova York, outro sábado em Chicago, duas cidades grandes, você consegue preencher todos os dias os dois sábados com shows, indo em casas legais com público, mídia, equipamento bom, técnico. É uma estrutura que é legal fazer parte. Aqui é mais difícil, não dá pra você tocar daqui até Salvador todo dia com som bom, público… Isso acaba sabotando um pouco essa ideia de fazer turnê. É um jeito de trabalhar, o que a gente sente depois de, sabe, tá aqui há um bom tempo, ter ido tocar lá várias vezes. Mas dá, também, tem de dar mais ênfase em algumas cidades, depois vai para outras. É difícil, a gente não tocou ainda em muitos lugares no Brasil se for pensar. A gente nunca tocou numa cidade super grande que é Brasília, nunca tocou no nordeste. Então… é foda. Mas a gente quer, a gente vai… A gente tá a fim, senhores produtores e donos de boate, podem chamar a gente!
O que muda para a banda ao disponibilizar o álbum online?
Ah, ajuda muito. É um negócio quase instantâneo, não tem porque não ouvir. Reduz muito as chances da pessoa não ouvir. É bom, pra gente foi meio que essencial. Terminar o mês com seis mil downloads, sabe? É muito bom, sem dúvidas. Tem muito a ver com o jeito que as pessoas consomem música hoje, todo mundo baixa, pouca gente vai em lojas. Se depender de disso, meu… Eu acho legal também disponibilizar online e ter um vinil, um produto que seja mais que um “CD”, no nosso caso o CD vem dentro do disco. Você ganha o CD, toma isso, foda-se. E a gente não se fode, porque tem gente que baixa (e baixe, por favor), mas quem curte mesmo compra mesmo o vinil e você sabe quem é o cara que curte mesmo você.
E como é a relação com estes fãs?
Cara, é legal, é bom ser… compreendido.
Próximos shows do Garotas Suecas:
3 de dezembro no Estúdio Emme (São Paulo, SP)
4 de dezembro no Rock’n'Beats no Bar do Zé (Campinas, SP)
10 de dezembro na Livraria Cultura do shopping Bourbon (São Paulo, SP)