Francesinha

Foi uma das faixas na trilha de um filme francês que me levou a procurar mais trabalhos de Charlotte Savary. A música em questão era “Seize The Day”, do longa Paris, no qual a bonita canta junto ao projeto Wax Tailor. Virado para um hio hop afrancesado, o grupo traz uma proposta interessante com seu som. Ao lado da cantora, está Sharon Jones, Ursula Rucker, Voice, Marina Quaisse, entre outros. O projeto varia bastante de vocalista e, por isso, vale para conhecer outros nomes da música francesa contemporânea. Ele é montado pelo produtor francês Jean-Christophe Le Saoût, que encabeça o grupo desde 2001. Com o Wax Tailor, Charlotte já lançou seis álbuns.

A voz suave e o estilo divertidinho da cantora também faz parte de um duo, ao lado de Philippe Chevallier. Manuel Armstrong (guitarra), Filipe Monteiro (contra-baixo) e Frank Amand (percussão e bateria) se juntam aos dois para formar o som do Felipecha. As canções, típicas daquele neofolk alternativo francês quase clichê, são gostosas e possuem letras divertidas. O álbum, De fil en aiguille, também possui uma letra em espanhol e muitas piadinhas sutis. Quem quiser pode conferir no MySpace deles algumas das músicas.

Para quem já cansou das cantoras francesas famosas, como Camille e Yelle, taí um bom nome para se apaixonar pela música francesa contemporânea.

Lulilândia no SESC

Nesta última quinta-feira (21/01), o SESC Vila Mariana teve uma noite de puro Folk nacional com o show da cantora recifense Lulina. Nova nas paradas de sucesso – e bem familiar para qualquer um que acompanhe o cenário Indie paulistano a fundo – a simpática vocal comemorou sua primeira apresentação em um SESC, assim como seu primeiro show do ano. Como não poderia deixar de ser, convocamos das trincheiras vitroleiras Leonardo Ávila e Clara Camargo para contar em mais detalhes a experiência do show. Confira!

Clara Camargo

Ontem de manhã vi no jornal o anúncio do show “Lulina no SESC Vila Mariana”. Nem pisquei e já decidi: “Eu vou”. Afinal sou fã incondicional e há uns bons meses não apreciava o som lulínico.

No corre-corre, sob um céu negro e tempestuoso, Leonardo e eu chegamos lá para comprar os ingressos 20 minutos antes de o show começar. Hello! Lulina é pura fama e obviamente os ingressos já haviam esgotado. O que fazer? Usar o poder do magnetismo jornalístico, é claro! Conversamos com o porteiro, com o moço da bilheteria, com a organizadora do evento no SESC, com a produção do evento, telefonamos até para a própria Luciana Lins (o nome mesmo da Lulina) e nada. Quando de repente, ilustremente sai do elevador o Leo Monstro, braço direito da nossa cantora recifense – Monstro espreme sons distorcidos dos teclados e faz o backing vocal, além de ajudar Lulina a compor muitas de suas canções. Mais do que logo, corremos e cumprimentamos o músico, conhecido nosso de uma tarde de ensaios da Lulina que tivemos a oportunidade de acompanhar, antes do lançamento do disco “Cristalina”. E ele nos salvou com dois ingressos que guardava como reserva, caso alguém aparecesse de última hora, justinhos para a nossa entrada. Eram nossos. Agarramos os bilhetes e asseadamente sentamos na terceira fileira do auditório, que aguardava ansioso.

Com uma espécie de jardineira-shorts preto (meu [não]conhecimento em moda me limita a uma descrição mais precisa), entrou nossa querida Lulina, tímida, porem sorridente, cantando “Nós”, segunda faixa do “Cristalina”. Seguiu com mais meia dúzia de canções, até chegar na “Balada do Paulista”, momento de maior empolgação dos amigos e fãs. Esta música ficou entre as 50 melhores do ano de 2009, segundo a Rolling Stone, como o CD Cristalina, que conseguiu um lugar merecido no ranking dos 50 melhores discos do ano.

Quem não sabia, descobriu que o Sangue de ET tem poder, que criar minhocas é um negócio lucrativo, além de vislumbrar uma fração cristalina e límpida da Lulilândia, que ainda tem muito a ser explorada. Para mim só faltou tocar Blebs e Birigui, as duas canções-poesia que mais me divertem no mundo da nossa amiga Lulina.

Consegui o último exemplar da noite do “Cristalina”, e ainda recebemos um convite para tomar um café com Lulina. Até coloquei aqui a mensagem que revela o que todos já imaginavam: somos garotas abduzidas.

Leonardo Ávila

Minha colega já fez questão de relatar nossa pequena aventura pessoal – acredite, a tensão de se chegar numa noite de evento enquanto uma chuva cai pesada lá fora só para descobrir que não temos vagas tem uma carga melodramática digna de qualquer literatura russa que se preze. O que vou dissecar aqui é algo um pouco mais voltado para minha impressão técnica do show. Conheço a voz da Lulina boa parte devido à uma ou outra tarde com a Clara trocando casuais playlists, há coisa de, digamos, dois anos atrás. O que me atraiu nessa irreverente nordestina estava justamente no teor de suas letras: um humor salpicado por gordas doses de nonsense e ingenuidade. Um fundo instrumental tímido, mas afiado, completava o pacote, e imprimia no trabalho de Lulina algo de extremamente pessoal. Personalidade é também o que acaba me atraindo para qualquer música Folk. Pude vê-la em pessoa poucas vezes, mas foi em sua apresentação na Vila Mariana que mais me identifiquei com seu som.

Veja bem, pode soar bizarro para alguns, mas a comparação entre Lulina e Mallu Magalhães é bem comum por aí, e nada deixa a cantora mais inquieta. E ela tem toda razão, afinal Lulina está para Mallu assim como que, digamos, Janis Joplin está para Joan Jett. A recifense usa e abusa de tons menores, polarizados por uma cadência levemente mais acelerada e de maior ataque. O som é complementado com o que mais se assemelha ao blip-blop 8-Bit que sai dos teclados loucos de seu companheiro de viagens, Leo Monstro. A seleção musical foi bem variada, incluindo variantes de Folk Rock e até um samba no final, com o qual Lulina fez questão de agitar o público paulistano que, acostumado a tardes de ócio, cigarros e à porcaria do James Joyce, não arriscou sequer uma rebolada (juro que vi a Clara mexendo levemente os quadris em cima da cadeira em certo ponto, mas talvez tenha sido impressão minha. Não podíamos entregar o garbo jornalístico assim de bandeira,não é?) . Enquanto ajustava a lapela da minha camisa, as metâforas de sua canções não deixavam de esquentar um pouco meu coração. Juro, é o tipo de coisa que te arranca um sorrisso sem querer.

No final fomos dar um alô do tipo “velha amizade” para a Lulina, conhecidos que somos depois de uma sessão de perguntas, café e pão de queijo. A timidez e surpresa com o qual ela nos recebeu, antes de uma conversa de alguns minutos, parecia ser o fac-símile exato de sua linguagem musical, a Lulilândia feita sólida nos gestos inconfundíveis de sua ditadora alegre.

(Fiquem ligados, quem comparecer em futuros show da cantora não deve se esqueçer de levar imprimido o Passaporte de Lulilândia – disponível no site oficial – que, preenchido, pode servir para concorrer à prêmios exclusivos da banda.)

Saiba mais sobre Lulina em:

http://lulilandia.wordpress.com (blog da cantora)

http://www.lulilandia.com.br (site oficial)

Na fossa com os Cowboys Junkies

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Por Rosana Villar

Nos últimos anos o ritmo folk invadiu com o pé na porta a cultura rock. O Kings of Leon se tornou uma das bandas mais importantes do mundo, vimos surgir Mallu Magalhães e todo um séqüito de jovens seguidores, fãs de Bob Dylan desde o nascimento. Mas não é de hoje que a banda indie Cowboy Junkies bebe dessa fonte e abusa da mistura folk-rock de uma maneira única e brutal.

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O grupo nasceu em 1985, com o propósito de fazer blues canadense (?) da melhor qualidade. Margo, irmã caçula de Michael e Peter Timmins, foi a escolha óbvia para os vocais e os Cowboys Junkies se tornaram uma banda quase familar – quase, por conta do intruso, Alan Anton, o baixista. Margo tinha uma voz suave e cantava de uma forma melancólica que soou extremamente interessante. Para aproveitar o trunfo, a banda toda resolveu se adaptar. Baixaram ainda mais as rotações e inseriram elementos daqueles velhos e chorosos blues do interior dos Estados Unidos.
Gaitas, slides de guitarra e aquela maldita voz! O primeiro disco, Whites Off Earth Now!!, lançado pelo selo que a própria banda havia fundado, vinha recheado de clássicos do blues revisitados pela voz emblemática de Margo e o ritmo cadente do grupo. Era impressionante, para o público, como uma coisa tão triste podia soar tão bem. Pois, se você acha Belle and Sebastian triste, meu amigo, tenha medo de Cowboy Junkies!

Altamente recomendável para fossas homéricas e desaconselhado em caso de intenção de suicídio. São, seguramente, uma das maiores “bandas tristes” de todos os tempos.

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Mas os Cowboys Junkies nasceram de verdade para o mundo, e talvez para si mesmos, no segundo álbum. Em The Trinity Session a influência folk estava por toda a parte. O disco é imperdível, do início ao fim. O mais interessante é que o álbum foi gravado inteiro ao vivo, no dia 27 de novembro de 1987, num “estúdio” de acústica muito peculiar, a igreja The Holy Trinity (santa trindade), em Toronto.

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A Session começa com Mining for Gold, uma canção tradicional canadense interpretada em capela por Margo, e é seguida por baladas de tirar o fôlego. 200 More Miles, uma das mais lindas canções da história, e a versão icônica de I’m So Lonesome I Could Cry, do monstro da música folk norte-americana, Hank Williams, já valem a audição.

Mas o grande sucesso de The Trinity Session ficou por conta da contundente versão de Sweet Jane, de Lou Reed, considerada pelo próprio autor como a melhor versão já gravada de sua música. A versão alcançou a 5° colocação na parada da Billboard e foi trilha sonora do filme Assassinos por Natureza, do diretor Oliver Stone, de 1994.

De lá para cá, já foram 24 anos de banda, firme e forte, cerca de 20 álbuns lançados (entre coletâneas e inéditos) e muitas canções boas de ouvir chorando no banheiro.

*Falando em Cowboy Junkies…Vocês lembram daquela promoção da Virgin, que tinha um cartaz com 75 nomes de bandas escondidos em uma imagem? Pois eles estão lá. Dá uma olhada. Aproveita e tenta encontrar as outras 74…

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Especial Bob Dylan- Não sou eu, baby

Hoje Bob Dylan completa 68 anos. Geminiano e músico – não precisa de mais nada. Parabéns e vida longa, Mr. Dylan.

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Dylan com a sortuda Suze Rotolo. Nova York, 1962.

O assassinato de Kennedy por Lee Oswald é considerado por muitos como o maior acontecimento da História Contemporânea dos Estados Unidos , “o fim do sonho”. Também foi a morte do Dylan travestido de Woody Guthrie, segurando a mão de Joan Baez e cantando exclusivamente hinos políticos.  A morte de JFK5 e o crescente fanatismo em torno de sua obra fizeram com que Dylan se afastasse do ativismo e desse uma guinada rumo ao rock n’ roll.
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Ao abandonar o violão acústico, a gaita e a pretensão de mudar o mundo, Dylan sofreu uma enorme rejeição de seu outrora fiel público. Era religiosamente vaiado em todos os shows e recebia uma descompostura de todos os fãs que encontrava pelo caminho. No famoso festival folk de Newport, sua performance eletrificada causou furor: o próprio Peter Seeger tentou cortar os cabos durante o show com um machado, enquanto a platéia vaiava ostensivamente seu ídolo, chamando-o de “traidor”.

O ressentimento dos fãs-órfãos, no entanto, não conseguiu diminuir a influência revolucionária causada por Dylan nas mentes dos jovens que logo se revoltaram contra a Guerra do Vietnã (1959-1975), praticaram o amor livre e abraçaram a contra-cultura. “Quando você não tem nada/Você não tem nada a perder”, canta Bob Dylan em “Like a Rolling Stone”.  As cenas de protestos contra a presença americana no Vietnã até hoje são mostradas tendo como música de fundo “Knocking on Heaven’s Door” ou “With God on Our Side”.

“Dylan, através de seus arranjos e canções, foi o fator de  revolução para centenas de pessoas. Ele pode não ser responsável pela ideologia por trás dos movimentos, mas foi ele quem forneceu a emoção que fundamentou-os.”  (SCADUTO,Anthony. Bob Dylan. New York: Grosset & Dunlap, 1971)

Sua habilidade de dizer aquilo que todos pensam, mas não conseguem exprimir, é o que torna sua música tão especial ainda hoje, quase 50 anos depois que o jovem Robert Zimermann encontrou, por acaso, uma vitrola com  antigos discos de música folclórica americana e morreu, dando origem a Bob Dylan, A lenda. Por mais que ele odeie esse rótulo.

Para ir além:

Blanton, Amy. Bob Dylan: An Impact on American Society in the 1960’. 2001.
Hobsbawn, Eric. Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SCADUTO,Anthony. Bob Dylan. New York: Grosset & Dunlap,
Documentário “No Direction Home”, Martin Scorsese. 2005.
Documentário “Bob Dylan: Don’t Look Back”, D.A. Pennebaker, 1965.

Artigo “À procura de Bob Dylan”, Eurípedes Alcântara, Revista CULT, Março de 2008.

Ainda sobre o assunto:

Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie
Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo

Parte 4: Não sou eu, Baby

Especial Bob Dylan – Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo

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Em 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos viram 200 mil pessoas marcharem sobre a capital Washington, invadirem o espelho d’água e declamarem discursos que entrariam para a História – tudo em nome da igualdade racial. O evento ficou conhecido como “Marcha sobre Washington por empregos e liberdade”. Organizado por ativistas dos chamados “direitos civis” e por grupos religiosos, a marcha pressionou o Governo Kennedy a encaminhar o “Ato dos Direitos Civis” ao Congresso. Porém, o assassinato de JFK em 22 de novembro do mesmo ano acabou atrasando a aprovação da emenda pelos congressistas americanos, feita em 1964 por Lindon Johnson e seguida pelo “Ato de Direito de Votos”, em 1965.

“I had a dream” – o mais famoso discurso do líder Martin Luther King Jr. -  foi ouvido pelos milhares aglomerados nas escadarias do Memorial Lincoln e por Bob Dylan, que participou do evento acompanhado pela cantora e ativista Joan Baez, apresentado como “um cantor de Nova York”. Bastante envolvido com a agitação política da época, Dylan cantou “Only a Pawn in Their Game”, do seu terceiro e mais politizado álbum “The Times they are a-changing”.

Escrita sobre o assassinato do ativista Medgar Evers, a música apresenta o algoz, Brian de La Beckwith como “apenas um peão no jogo deles” e também uma vítima “do sistema que ensina o ódio”:

“O deputado, o xerife, os soldados, os governadores são pagos / E os delegados e policiais recebem o mesmo / Mas o pobre homem branco é usado / Nas mãos de todos estes como uma ferramenta/ Ele está preso em sua educação / Desde o inicio pela regra / Que a lei está com ele para proteger sua pele branca / E manter o seu ódio para que nunca pense direito / No estado que ele está / Mas não é ele o culpado / Ele é apenas um peão no jogo deles”

Outra canção de 1963, “Blowin’ in the wind” tornou-se o hino da luta pela igualdade racial. Os famosos versos “how many roads must a man walk down/ before you can call him a man” transformaram Dylan em uma espécie de líder espiritual, um profeta dos tempos modernos, cujas músicas carregavam implicações e alusões políticas em cada palavra – um papel que o jovem cantor nunca se sentiu apto a desempenhar. “Eu não penso quando escrevo. Eu só reajo ao que está a minha volta e coloco no papel. O que há em minhas músicas é um chamado à ação”.


Leia também:

Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie


Especial Bob Dylan – Parte 2: Hey, Woody Guthrie

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Bob Dylan chegou em Nova York em janeiro de 1961, com os objetivos de se apresentar na cena local e também visitar o músico que mais o influenciou, do sotaque às  letras engajadas tudo foi emprestado de Woody Guthrie.

Guthrie era, junto com Peter Seeger, o principal representante da chamada “canção de protesto” (topical song) dos anos 40 e 50: música socialmente engajada, feita com arranjos de folk e fortemente influenciada pelo pensamento de esquerda.  Uma década depois, a canção de protesto perdeu parte da sua orientação política esquerdista e adquiriu um espectro mais amplo, englobando as noções de “direitos iguais para todos” e “paz”. Tal mudança ocorreu também nos movimentos sociais como um todo.

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E foi no Greenwich Village dos anos 60, em meio ao burburinho de conversas, poesia e fumaça dos cafés, que a lenda de Bob Dylan foi construída. Fervilhante de juventude, política e arte, o bairro era o principal reduto da boemia intelectual da época, que não fazia muita distinção entre platéia e artista – praticamente qualquer um poderia subir no palco e fazer um discurso, declamar um poema ou cantar suas canções. Jack Kerouc, Allen Ginsberg e Dylan Thomas beberam e escreveram nos balcões do Greenwich Village, os quatro membros do “Mamas and the Papas” se conheceram e começaram a carreira no Village, bem como o Velvet Underground, Joan Baez e Jimi Hendrix.

Inicialmente conhecido no meio musical por “cantar músicas do Woody”, Dylan logo começou a delinear seu próprio repertório e estilo. Apesar e talvez exatamente por isso, a primeira música do seu primeiro álbum – “Bob Dylan”, de 1962 – seja “Song to Woody” (Canção para Woody):

“Hey, hey Woody Guthrie, I wrote you a song/ ‘Bout a funny ol’ world that’s a-comin’ along./ Seems sick an’ it’s hungry, it’s tired an’ it’s torn,/ It looks like it’s a-dyin’ an’ it’s hardly been born./ Hey, Woody Guthrie, but I know that you know
/ All the things that I’m a-sayin’ an’ a-many times more./I’m a-singin’ you the song, but I can’t sing enough,/’Cause there’s not many men that done the things that you’ve done.”

Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie
Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo

Parte 4: Não sou eu, Baby

Ela, mais uma vez

 Noite fria e luzes quentes. Casa cheia, mas nem tanto. Os ouvintes, atentos e interessados, sentados no chão ou à mesa. A voz suave era a mesma de sempre, o sorriso cativante surpreendente. Tentava sempre ver o público, chateada por esconder-se atrás do piano em algumas músicas. Cantava com a alma, do lado do produtor. A blusa, bonita e cheia de estrelinhas, fez uma espécie de percussão sem querer no início do show. Vez ou outra revelava alguma espécie de nervosismo (raro em essas experientes de palco) tremendo, especialmente ao tocar “A Bailarina e o Astronauta”.
Tiê canta "Bailarina" com a alma

Tiê canta "Bailarina" com a alma

Em mais uma edição do Prata da Casa no SESC Pompéia, ontem (19/05) às 21 horas, podemos finalmente ver a Tiê tocando. Já falamos dela aqui e aqui, eu já decorei algumas músicas, mas nunca tínhamos (eu, Jessica Grant, e o Bruno Zerbini) visto esse passarinho a tocar e cantar ao vivo. Valeu a pena.

Recém-chegada da “gringa”, Tiê trouxe alguns comentários da viagem. Lá fora, disse, teve vergonha de cantar “Stanger but mine” com seu inglês. Mas achou interessante as faces dos ouvintes de lá tentando adivinhar o que ela cantava em português. “Eu falava que era sobre amor, e acho que eles ficavam pensando sobre amor ou dor…”, ria. Prefere tocar em casa.

O público, atento as letras, cantou somente suavemente “Chá Verde”, a pedidos da cantora. Mas na platéia muita gente de outras bandas (alternativas ou não) foi prestigiá-la. Pelo jeito (ou melhor: pelos aplausos) gostaram do que ouviram. Alternando instrumentos com seu produtor, Plínio Profeta, eles garantiram a simplicidade e lírica que a musa reflete em todo seu trabalho também no palco. Plínio, silencioso e com óculos de sol, foi apresentado duas vezes com alegria e brincadeiras de Tiê.

Tiê e Plínio Profeta

Tiê e Plínio Profeta

Depois do show que terminou com flores presenteadas pela mãe, Tiê foi rodeada por diversas pessoas. Simpática, linda e humilde. Não falamos com ela, mas valeu vê-la somente. O mais curioso é que o Bruno é amigo de um cara (tmb músico) que morou no mesmo prédio que ela e eu namoro um cara (oi Fê!) que era amigo do irmão dela (Gianni Dias, também músico). Parece que o mundo conspirou para que virássemos fãs da Tiê. Recomendo, mais uma vez, que escutem este passarinho, promessa de diva, “too sexy for her shirt”.

Tiê no piano e Plinio

Tiê no piano e Plinio

Especial Bob Dylan – Parte 1: Ele estava lá

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Poeta, beatnik, porta-voz do inconsciente coletivo, bardo, ídolo do folk, profeta, gênio, louco, cantor de protesto, traidor, aquele-que-canta-like-a-rolling-stone. Todos os rótulos acima cabem em Robert Allen Zimmermann, neto de judeus-russos nascido em Dulluth, Minnessota, em 1941.

Todos e nenhum, já que Bob Dylan, forjado na efervescência cultural novaiorquina dos anos 60, despreza rótulos. O certo é que Dylan traduziu em muitas de suas letras o espírito de uma geração. Utilizando-se de uma sonoridade tradicional, profundamente enraizada na cultura musical americana, Dylan cantou sobre episódios contemporâneos: a Crise dos Mísseis (1962) entre Cuba e EUA,  a luta pelos Direitos Civis, cujo expoente máximo foi Martin Luther King e, em um nível maior, sobre as profundas mudanças sociais, culturais e comportamentais da época.

Sua infância, nos anos 50, foi marcada pela paranóia nuclear da Guerra Fria. Mesmo na pequena cidade de Hibbing, perdida nas planícies do Meio-Oeste, pessoas construíam abrigos e crianças realizavam treinamentos em escolas, esperando pelo apocalipse nuclear que nunca veio. Anos depois, no mesmo ano da chamada “Crise dos Mísseis” em Cuba,  Dylan compôs “A hard rain’s a-gonna fall” (Uma chuva forte vai cair)

“And what did you hear, my blue-eyed son?/ And what did you hear, my darling young one?/ I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’/Heard the roar of a wave that could drown the whole world/ Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’/ Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’/ Heard one person starve, I heard many people laughin’/ Heard the song of a poet who died in the gutter/ Heard the sound of a clown who cried in the alley / And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard /And it’s a hard rain’s a-gonna fall.”


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A chuva seria, para o entendimento da maior parte dos que viveram naquela época,  negra e radioativa:“Em 1963, Dylan escreveu “A Hard Rain’s a-gonna fall”, que descrevia a situação vivida pelo público naquele momento – medo, antecipação, preocupação, amargura e temor. O próprio Dylan disse que aquela era “uma música de terror. Linha após linha tentando capturar aquele sentimento de desolação”. Sua música traça paralelos entre o  que acontecia nos EUA e o imaginário usado pelos profetas bíblicos para descrever “destruição e desolação” (BLANTON, Amy, Bob Dylan: An impact on American Society in the 60′s, 2001.)

Em uma de suas famosas coletivas de imprensa, Dylan mais tarde desmentiu a versão de que a música fosse sobre uma hecatombe nuclear. Na verdade, “A hard rain’s a-gonna fall” foi lançada quase um mês antes que John F. Kennedy fosse à televisão, em rede nacional 1 anunciar a crise com Cuba.  Apesar de irritar-se com o sentido profético atribuído a muitas de suas canções, Dylan tinha o raro dom de sentir o  pulso da sociedade da época, fazendo com que letra e música escapassem do controle autoral e se tornassem obras coletivas.

Para ir além:

Blanton, Amy. Bob Dylan: An Impact on American Society in the 1960’. 2001.
Hobsbawn, Eric. Tempos Interessantes: uma Vida no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SCADUTO,Anthony. Bob Dylan. New York: Grosset & Dunlap,
Documentário “No Direction Home”, Martin Scorsese. 2005.
Documentário “Bob Dylan: Don’t Look Back”, D.A. Pennebaker, 1965.

Artigo “À procura de Bob Dylan”, Eurípedes Alcântara, Revista CULT, Março de 2008.

Para Ouvir:

The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)

Parte 1: Ele estava lá
Parte 2: Hey , Woody Guthie
Parte 3: Na calçada, pensando sobre o Governo

Parte 4: Não sou eu, Baby

Vitroleiros na Virada

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Este ano promete.

Selecionei algumas progamações da Virada Cultural 2009, para quem curte rock, mpb e samba deitar e rolar na maior programação cultural e musical de São Paulo. Os shows acontecem nos dias 2 e 3 de maio, das 18h00 de um dia até as 18h00 do outro.

Metrô Open 24 hours.

Mais de 800 atrações, em mais de 150 lugares diferentes.

A sonzeira fica concentrada principalmente no Centro da cidade.

>>>Onde> Av. S. João/Praça Júlio Mesquita

John Lord, Tecladista do Deep Purple é acompanhado (ou acompanha) a Orquestra Sinfônica Municipal, regida pelo maestro Rodrigo Carvalho. Quando>dia 2, 18h10

Marcelo Camelo, registrando 2009 com seu primeiro álbum solo “Sou”. A música “Janta”, meigamente interpretada por ele e Mallu Magalhães, foi considerada a melhor composição de 2008. Bem que o Camelo poderia levar a Mallu para dar uma palhinha… Quando> dia 2 para dia 3,  at midnight, 00h00

Cordel do Fogo Encantado, entre o teatro, a poesia e a música. Quando> dia 3, 09h00

Zeca Baleiro, para entrar no clima da música popular brasileira. Quando> dia 3, 12h00

Novos Baianos, quem não está com saudade deles? Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, irmãos Jorginho, Didi Gomes e Luiz Galvão. Quando> dia3, 15h00

Maria Rita, gatíssima. Quando> dia 3, para encerrar, 18h00

>>>Onde> Largo do Arouche

Wando, o machão. Quando>dia 2, 23h30

Reginaldo Rossi, o romântico. Quando> dia 2, 01h30

>>>Onde> Praça da República

Camisa de Vênus, quem matou Joana D’Arc? Quando> do dia 2 para dia 3, 00h10

Velhas Virgens, é de abrir as pernas. Quando> dia 3, 02h10

Matanza, som de garagem de caminhão. Quando>dia 3,  06h50

Vanguart, só acredito vendo. Quando> dia3, 08h30

Nação Zumbi, reminiscências  de Chico Science. Quando> dia 3, 12h00

>>>Onde> Largo da Santa Efigênia

Curumin. Quando> dia 3, 01h50

>>>Onde> Av. Rio Branco

Os Opalas, samba-rock. Quando> dia 3, 04h00

Sambasonics, mistura samba-rock anos 60/70. Quando> dia 3, 06h00

>>>Onde> XV de Novembro

DJs mega-badalados 

Mau Mau. Quando> dia 3, 02h00

China. Quando> dia 3, 12h00

Patife. Quando> dia 3, 16h00

>>>Onde> Rua Anchieta

Mais DJs das casas da noite paulistana

Daniel Ganjaman (Studio SP). Quando> dia 2, 19h50

Flavio Forgotten (Inferno). Quando> dia 2, 23h30

Fabricio Miranda (Funhouse). Quando> dia 3, 06h50

Clash Colletive (Clash) Quando> dia 3, 14h10

Ednei ( A Lôca). Quando> dia 3, 16h00

Pegue o Bilhete Único e trace seu roteiro ;)

Programação completa em viradacultural.org

=* Clanis


MusicPlaylist
MySpace Playlist at MixPod.com

Doce passarinho

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A doce voz já lhe rendeu a admiração de artistas como Toquinho (que a "descobriu") e Caetano. Já apareceu no Estado de S.Paulo como promessa da música atual brasileira. Ou seja, Tiê, cantora paulistana, não é uma mera aposta, mas uma já ganha.

Com um toque de folk, seu estilo voz e violão conquista pela simplicidade. Sua voz sussurrada transmite uma paz digna de alguém que irá marcar a história da música por aqui. Apesar de gostar de Bossa Nova e sambas antigos, Tiê inova e aparece não somente como mais uma das novas cantoras de MPB, mas como destaque. Seu estilo demonstra de onde vêm as influências, mas esbanja originalidade e personalidade.

Caetano Veloso resumiu:

"Coisa mais linda mesmo é Tiê. “Passarinho” no Youtube é uma janela para um céu. Ela é apaixonante. Betão tinha me falado nela. Mas não pensei que fosse assim tão bonito tudo aquilo. Ela cantando sobre o próprio nome, com naturalidade total, musicalidade totalmente natural, tudo, fazendo as ruas de São Paulo parecerem bonitas como nas palavras de John Cage: “São Paulo é cheia de flores”."

Com seus 29 anos ela surge com o cd "Sweet Jardim", que vale a pensa conferir. O álbum se apresenta com um belo toque autobiográfico, fato que, para mim, transmite mais naturalidade ainda ao seu trabalho. Sem mais o que falar, Tiê canta como quem fala a verdade, simples assim.

Abaixo, um de seus vídeos, pelo qual vocês podem conferir além da bela voz a beleza da moça.

Tem gente que chega a dar raiva, né? Acho que isso se chama inveja. ;)