Uma Jamaica inédita para seus ouvidos

Você sabia que a Jamaica foi um dos maiores centros de produção de vinis nos anos 60 e 70? E que o movimento skinhead surgiu na Inglaterra nos anos 60 para unir brancos e negros, e não segregá-los? Sabia também que o Bob Marley não apareceu para o mundo fazendo reggae?

Pois é: em 2010, os estudantes de jornalismo Bruno GonçalvesJuliana MacarencoNathalie Folco, da Faculdade Cásper Líbero, se aprofundaram em um verdadeiro universo jamaicano dentro da cidade de São Paulo para trazer essas e muitas outras informações e curiosidades sobre a ilha caribenha na série especial Jamaica Paulistana.

O trabalho apresenta traços remanescentes de uma cultura originada nos anos 60 na Jamaica, enraizada na cidade de São Paulo pelas mãos frenéticas do pessoal do You&Me on a Jamboree, especialistas na divulgação dos ritmos jamaicanos na cidade, e de outros apaixonados pelos ritmos da ilha. Em quatro capítulos de dez minutos, o trio retrata a cultura soundsystem, aborda a origem da subcultura skinhead, conta um pouco dos ritmos jamaicanos que mais influenciaram a música mundial e indica onde você pode encontrar tudo isso em São Paulo. A Jamaica existente na cidade e que vai além da família é apresentada em quatro capítulos, cada um com 10 minutos.

Importante: com tanto conteúdo, o material jamais deixaria a desejar nas referências musicais. Tem early reggae, skinhead reggae, rocksteady e ska para todos os gostos, com Toots & The Maytals, The Skatalites, Lauren Aitkel, The Specials, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, Pinguins Tropicais, Extra Stout e muitos outros sons.

Durante o mês de abril, o programa será uma das atrações do semanal Skataplá, transmitido pela webrádio Brasil 2000 todas as sextas-feiras, às 21h, com apresentação de Denis RomaniGuilherme Mosaner.

E, para ouvir o Jamaica Paulistana quando quiser, é só acessar o blog ou o soundcloud do projeto.

 

Os discos que fizeram nossa cabeça em 2010

24 de dezembro. Véspera de Natal. A uma semana do fim de 2010, já sentindo o cheiro de peru e champanhe, nós, daqui da equipe, resolvemos que faríamos sim uma daquelas listas de fim de ano. Mas nosso critério é diferente: nada de falar sobre os melhores álbuns do ano da perspectiva da indústria. Aqui vocês conhecerão os que fizeram as nossas cabeças nos últimos doze meses, cheios de shows marcantes, lançamentos e lembranças. Assim, além de conhecer os discos, vocês conhecem um pouquinho de cada um. Vem com a gente!

Amigo do Tempo, Mombojó (2010)

Papapa…
O “Amigo do Tempo”, dos queridos pernambucanos do Mombojó, sem dúvida é um dos discos que eu usaria para atribuir um título para o ano de 2010. Genial, a banda que começou em 2001, formada por Chiquinho, Vicente, Samuel, Felipe e Marcelo, apesar de ser classificada como “manguebeat” e “rock”, é, antes de qualquer coisa, uma inovação na música popular brasileira. Digo, na nova MPB. Como os modernistas da Semana de 22, o trabalho do grupo reuniu um pouco de clássico, original e novo. Resultou em uma composição nostálgica e pós-moderna. “Você diz gostar do carnaval sem separatismo e sonha em dormir na geladeira. Papapaparara…”

Clara Camargo, @Clanis

Apanhador Só, Apanhador Só

Direto de Porto Alegre (RS) para o Brasil, o Apanhador Só não é mais uma das bandas que se compara com este ou aquele grupo. A variedade é essência do CD homônimo que eles lançaram no primeiro semestre e a mesmice se esconde de um jeito que ninguém encontra. Dá pra viajar em um tom de brincadeira ou em um acorde à la MPB, mais sério. Todas as vezes que escuto o disco consigo perceber mais uma nuance, mais um pedacinho da poesia que ficou pra trás. Pra quem não conhece, ainda tem muito que vale a pena descobrir.

Bruno Guerrero, @brunoguerrero

Lançado em abril, o primeiro álbum da banda gaúcha Apanhador Só surpreendeu muita gente. Na turnê que fizeram em São Paulo uma garota me disse que os conheceu num dos shows para depois comparecer a todos os outros. Simpáticos, Alexandre Kumpinski, Felipe Zancanaro, Fernão Agra e Martin Estevez apresentam 13 faixas de rock bem abrasileirado com composições criativas. Junto a eles uma antiga integrante da banda acompanha na divertidíssima percussão: Carina Levitan. Vale a pena ouvir a gostosinha “Maria Augusta” e viajar em “Nescafé”. E quando for tocar “Vila do 1/2 dia” chame os amigos para acompanharem o coro.

Jessica Grant, @jessicagrantc

Teenage Dream, Katy Perry (2010)

Sinto decepcionar quem esperava uma revelação do rock de garagem, um novo som experimental ou uma cantora de pós-MPB em ascensão. Aqui, no meu disco marcante de 2010, vocês não vão encontrar nenhuma crítica profunda ou explicações complexas sobre as influências do “novo Los Hermanos”. Meu álbum marcante deste ano foi Teenage Dream.

Esse mesmo da Katy Perry (agora, Katy Brand).

É verdade que eu curto sons pesados e letras profundas, mas tenho boas razões pra esta escolha. Foi um ano cheio de ups and downs, de muita mudança e de muita informação. Pelo menos num nível pessoal. Daí o porquê de eu ressaltar o disco da neo pin up. Sabe, tem momento em que tudo que eu precisava era ver uma guria com peruca azul e chantilly voando do sutiã e cantando sobre como ela faz picolés derreterem. Ela não teve a pretensão de inovar o pop, como a Lady Gaga, ou de se levar a sério. Repito: chantilly voando do sutiã. E depois, ainda ficou pedindo pra ver os pavões dos caras (metáfora bizarra, mas ok) em Peacock. Quando lançou Firework, a ex-cantora gospel soltou outra coisa do busto: fogos de artifício. E, claro, coroou o ano de excentricidades casando-se com Russel Brand.

Então, que posso dizer, meu 2010 foi marcado pelos vestidos de látex e pelas perucas coloridas de Katy Perry. E quer saber? Não tenho vergonha disso.

Anita Porfírio, @nitafp

dezenove vezes amor, Martin & Eduardo (2010)

“Se é pra seguir, aponte ao menos em que direção”. O início arrebatador do meu álbum do ano. Porque era o que eu queria, uma direção, que dezenove vezes amor foi paixão à primeira ouvida. Com uma sonoridade que me fazia falta há anos, Martin & Eduardo, apesar do nome ligeiramente sertanejo, fazem um rock escasso no cenário atual. A voz de Martin chegou num momento crítico da minha vida, cheio de decisões importantes e difíceis, e foi um dos meus guias até o segundo em que eu pude sentar e dizer “Está tudo bem”. Desde então, seja embalada por “Strange Days”, seja sonhando ao som de “Lírio”, meus fones de ouvido parecem não querer tocar outra coisa.

Ariane Freitas, @ArianeFreitas

Efêmera, Tulipa Ruiz

Na seleção musical que tocou antes do show do Paul McCartney em São Paulo: “Efêmera”, a faixa-título do primeiro álbum da paulistana Tulipa Ruiz. A cantora aparece em tudo quanto é canto e realmente roubou a cena. A voz fina canta com simpatia transbordante o pop florestal que mistura as influências da selva de pedra com a criação em Minas da cantora. Mais uma vez alguém que conquista no palco: após seu show no SWU um amigo meu estava apaixonado. Mas que musa da MPB que nada! Tulipa mostra mais: uma mulher de força e com a manga cheia de boas composições, criativas e inspiradoras como em “A Ordem das Árvores”.

Jessica Grant, @jessicagrantc

Half the Perfect World, Madeleine Peyroux (2006)

É, este CD tem um pouco de quilometragem – afinal a americana o lançou em 2006. Mas foi ele quem, fácil, foi a trilha sonora do meu ano de 2010. A voz macia de Peyroux e os metais confortantes guardam letras com mensagens pesadas, profundas e mesmo levemente eróticas. É algo como “uma música de elevador que te pega pelo pescoço”. Ou mesmo “uma DR com uma versão feminina de Barry White”.
Vocês vão entender quando ouvirem, acredite!

Leonardo Teixeira, @leonardoatorama

Journal de BAD, Bárbara Eugênia (2010)

A voz é um pouquinho rouca. Mas não é porque ela grita em um rock pesado ou num punk bem rápido. O motivo? É que ela canta sua história de vida, se confessa perante os ouvintes do saboroso Journal de Bad e nos faz pensar que somos todos parecidos. O álbum de estreia de Bárbara Eugênia transborda experiência e conta com diversas participações especiais, de Otto a Fernando Catatau, de Karina Buhr a Tom Zé. E a moça carioca ainda concorda comigo: o cenário musical de hoje é digno de se entrar pra história, no Brasil. Taí, um dos melhores de 2010 não só pela qualidade do disco em si, mas também pelo que a artista promete pro futuro.

Bruno Guerrero, @brunoguerrero

Kanimambo, Emiliano Castro

O paulistano e independente Emiliano Castro é a mente por trás do melhor trabalho acústico nacional deste ano. E como não dispenso um bom violão, naturalmente dedico à sua obra, “Kanimambo”, lugar de destaque. Como primeiro álbum do músico – resultado de um bom tempo na estrada – é de se esperar um grau de experimentalismo. Castro faz um blend pouco usual, misturando Samba, Jazz e um pouco de Baião em um ritmo próprio.
É bem original, e se você acha que trabalhos na linha de “Otto” ou “Seu Jorge” são viajados demais, creio que vai encontrar muito o que amar em “Kanimambo”. É diferente, quase que sem querer ser.

Leonardo Teixeira, @leonardoatorama

Las Venus Resort Palace Hotel, Cibelle (2010)

Cibelle desperta tropical, preguiçosa, com raios de sol, flores e influências do fundo do baú em um hotel fictício de um mundo pós-apocaliptico. Do meu mundo pré-apocalipse, eu ouvia o disco por acaso, que acabou transmutado na trilha sonora da nova casa e vida, enquanto eu me adaptava ao misterioso mundo das contas a pagar, da louça empilhada, de acordar e dormir junto, de pendurar coisas pela parede, esperar o próximo ano e me definir como muito feliz, para variar.

Tory Oliveira, @toryy

Em 2010, a paulistana da Vila Mariana radicada em Londres lançou seu terceiro disco. Os dois primeiros álbuns – Cibelle (2003) e The Shine of Dried Electric Leaves (2006) – deixam claro a voz estonteante, os estilo único e as influências pós-tropicalistas da musa. Mas é em Las Venus Resort Palace Hotel que se entende o que diferencia Cibelle de todas as outras cantoras brasileiras: um conceito. O disco tem sons de animais, não tem pausa entre as faixas e é comandado pelo alterego exótico da cantora, Sonja Khalecallon. Cada faixa é puro encanto. Vale ouvir as notas agudas da voz da cantora em “Brad My Hair”, o clima tropicalista de “Melting de Ice”, o piano-e-voz de “Sad Piano”, o violão de nylon e os efeitos da guitarra de “The Gun and The Knife” e o idioma tupiniquim de “Escute Bem” e “Sapato Azul”.

Érika Kokay, @ekokay

MTV Unplugged, Aerosmith (1990)

Two times, baby
Se em 1990 este disco não foi um dos mais aclamados do ano, uma década depois ele ainda merece ser. “Aerosmith MTV Unplugged” é uma coletânea de 13 faixas gravadas ao violão, percussão, sax, flauta e voz, que faz o rock ‘n’ blues do Aerosmith penetrar bem mais delicadamente nos ouvidos do que de costume. O CD, gravado no Teatro Ed Sullivan, em Nova Iorque, não dispensa os gritos rasgados de Steven Tyler, mas reduz de maneira considerável os solos guitarrísticos de Joe Perry. As duas músicas mais bem sucedidas desta experiência, acredito terem sido “Seasons Of Wither”, do segundo álbum de estúdio da banda, o Get Your Wings (1974); e a empolgante versão cover de “Love Me Two Times”, do The Doors.

Clara Camargo, @Clanis

My Beautiful Dark Twisted Fantasy, Kanye West (2010)

Distorcido e fantástico
Com meio milhão de cópias vendidas na semana do lançamento, Kanye West também deu as caras em novembro de 2010, mostrando que o exílio no Havaí após os excessos de 2009 foi muito bem vindo.
Quinto álbum de Kanye, Dark Twisted Fantasy renova a condição de criador do hits do norte-americano, capaz de uma mescla única entre o flow do hip hop e as batidas eletrônicas, mas traz também um autor mais livre e mais propício à experimentação – o que pode ser apreciado nos quase 8 minutos de Blame Game e nos mais de 9 minutos de Runaway. Sem, dúvida, o homem está de volta.

Bruno G. Santos, @brunellas

Recovery, Eminem (2010)

Começou com a notícia de que Eminem estava tirando a indústria musical do buraco com as vendas de seu novo álbum que, ironicamente, chamava-se Recovery. Recebi-a como uma criança com saudades – havia desistido dele há alguns anos e agarrei a chance de reencontro com todas as minhas forças. Quando já conhecia o disco de cor e de trás para frente, o show. Espero desde 2002. Tentei escolher outro disco, que não destoasse tanto do dos meus colegas de equipe, mas não pude evitar. Não posso ignorar quanto do meu ano foi do Eminem, especialmente do Recovery, porque quase todas as minhas manhãs raivosas de 2010 e minhas viagens noturnas de Pinheiros para os Jardins e então para a Zona Leste foram na companhia das rimas dele, que diziam tanto e tão pouco de mim ao mesmo tempo. De todos ao mesmo tempo.

Ariane Freitas, @ArianeFreitas

Screamworks: Love in Theory and Practice, HIM (2010)

‘Screamworks: Love in Theory and Practice’ foi a promessa do HIM para 2010, três anos após ‘Venus Doom’. Apesar dos usuais tons melancólicos e sombrios, bem contornados pelo vocal do vocalista Ville Valo, o álbum traz um som mais enérgico, comparado ao de álbuns anteriores. Não perdem a maestria, com destaque para ‘Scared to Death’, que assina bem a mensagem das músicas da banda.
As letras continuam cumprindo o papel de casar temas como morte e melancolia com romance e outras situações, o que torna o trabalho da banda finlandesa ainda mais interessante. Ainda sobre eles, recomendo ‘Vampire Heart’, do álbum Dark Light, de 2005. Bom, acho que é isso. Feliz 2011, sei lá.

Francisco Junqueira

The Lady Killer, Cee-Lo Green (2010)

Matador
Cee Lo Green retornou com força aos nossos ouvidos com The Lady Killer, lançado no início de novembro. Assim como os álbuns lançados ao lado do produtor Danger Mouse no projeto Gnarls Barkley, Lady Killer é uma festa para ser apreciada no volume máximo.
Variando entre o ritmo dançante de Bright Lights, Bigger City e a levada suave de No One’s Gonna Love You, cada faixa apresenta uma fusão de elementos já conhecidos do soul e do rhythm & blues dos anos 60 e 70, como linhas de baixo elaboradas e backing vocals afinados, com uma voz poderosa e carregada de ritmo. É classe do início ao fim.

Bruno G. Santos, @brunellas

Welcome to the Breakdown, I Fight Dragons (2010)

Quando você recomenda um álbum, você compartilha um pouco do que você. Não é só uma música, é um conjunto inteiro e algo que diz um pouco sobre quem indicou. Eu deixo ‘Welcome to the Breakdown’, o álbum que a I Fight Dragons, direto de Chicago, lançou em 2010. Quem ouvir pela primeira vez vai notar que muitos sons de vídeo-game e RPG são incorporados nas músicas, o que só atenua o espírito jovem das músicas. Enfim, é bem bacana. Não acho que supera ‘Overcool’, meu favorito deles, mas, ganha em criatividade. Além das letras, que não deixam o som animado interferir no tom emotivo das músicas, os caras adaptaram os vocais do tema clássico de The Legend of Zelda. Vale a pena conferir.

Francisco Junqueira

Where the Wild Things Are, Karen O. & Band (2009)

Cheio de sussurros, batidas e barulhinhos da infância, a trilha sonora de “Where the Wild Things Are” (Onde Vivem os Monstros) é daquelas que funciona independente do filme para o qual foi criada (por sinal, incrível, dirigido por Spike Jonze). As músicas chegaram até mim de maneira independente também, uma a uma, anexadas por e-mail por uma amiga querida. Os arquivos ficaram perdidos para sempre no limbo do meu ipod, até o dia em que foram puxados pela espiral do shuffle. Daí, dentro do metrô, a vontade era sair pulando ou ficar bem quietinha, eufórica e melancólica, como costuma ser o finalzinho dos dias de criança.

Tory Oliveira, @toryy

Augusta de Todos os Santos

Rua Augusta. Tem de tudo: menina com bolsa de pano, rapaz com óculos colorido, senhores reacendendo à cachaça, senhoritas de perfume barato, patricinha de salto alto dos Jardins, velho punk remediado, perua de blusa de oncinha, menininhas que gostam de Amelie Poulain, tipinhos típicos de barba & bolsa. Todos tropeçando nas mesmas latas, jogando as mesmas bitucas, caindo nas mesmas baladas, sentando nas mesmas calçadas, desviando dos mesmos ônibus amarelos, erguendo os olhos para as mesmas músicas, comprando nas mesmas lojas, pedindo nas mesmas esquinas, bebendo na porta dos mesmos isopores. De tudo tem:   música e barulho, ódio e amor, lícito e ilícito,  pobre e rico – para abrir e fechar os olhos.  Todos rindo aquele mesmo riso louco, descendo ou subindo a rua Augusta – mais rapidamente no começo da noite, vacilando nos pés no fim da madrugada. Até alcançar a Consolação.

Augusta de Todos os Santos from Vitroleiros on Vimeo.

Podcast #1: SWU Music and Arts Festival 2010

Se o assunto é cultura, o barulho da última semana tem nome: SWU. Depois de três dias de festival, as internetes resolveram – em peso – comentar o que acharam do evento, do movimento e das cabeças por trás da coisa toda. Nem preciso dizer que virou polêmica, né? E nós não podíamos ficar de fora.

Como o negócio aqui no Vitroleiros é música, o foco da nossa conversa foi o que vivemos nos shows por lá – mas o papo não fica só nisso: também comentamos os acertos (e falhas) da organização, o Fórum Global de Sustentabilidade e, (por que não?, os perrengues que todo festival sempre terá: a diferença entre os gostos do público.

Ouça aí!

Podcast Vitroleiros #1: SWU Music And Arts Festival by vitroleiros

Participaram desse podcast:



Ainda sobre SWU, vale conferir:

Para quem não teve as manhas de ouvir a gravação toda, em breve um resumão. :)

Desculpem a minha falta de noção — estava doente quase morrendo — e a falta de edição, trilha e afins, foi tudo feito às pressas. No próximo programa prometo que caprichamos mais!

Rock ‘n girls a la Siete Armas

Por Clara Camargo e Emanuelle Herrera

Uma banda feminista diferente. Elas não querem um público exclusivamente de meninas e mulheres. Tocam porque gostam e para todo mundo ouvir. Conversamos com as meninas da banda Siete Armas sobre a produção musical das gurias, a cena alternativa no Brasil, mulheres, feminismo e muita coisa que infelizmente não dá para sentir lendo um texto, mas oferecemos a opção de entrar agora no Myspace da banda, colocar play em “Those Flowers“, aumentar o som e chamar os amigos para dançar e beber umas boas cervejas. Mas antes, leia a entrevista para se inspirar ;)

As principais influências femininas da banda não poderiam deixar de ser Bikini Kill, Team Dresch, The Butchies, Sleater Kinney,  Breatmobile e  Joan Jett, percussoras do movimento riot girrrl! e punk rock feminista.  O primeiro EP (Extended Play) da banda saiu no dia 8 de março deste ano (2010), inclusive soltamos o review do show de lançamento aqui no Vitroleiros e sorteamos dois EPs.  A baterista Helena Krausz conta que a banda conseguiu unir o blues, o rock mais dançante e um pouco de folk nas cinco músicas que compõem o mini-álbum.

Quem toca: Débora Lopes (Dé) no vocal, Lu Carvalho e Nessa Salvado nas guitarras, Sarah C. Si. no baixo e Helena Krausz na percussão.

EP:

1. A dreamer’s photographic mind

2. So blues

3. All my sisters

4. Purple

5. Those flowers

@Sietearmas

Fotolog

Orkut

Formspring (perguntas bizarras e respostas estupendas)

Trama Virtual

Música, garotas, feminismo, cerveja e Siete Armas é o que você vai ler agora:

-Vitroleiros: Como foi a criação do EP “Siete Armas”?

Siete Armas (Dé): O EP aconteceu. Não como um filho inesperado, mas como fruto de algo que estávamos plantando há algum tempo. “So blues” e “Purple”, foram nossas primeiras canções, ambas faziam parte das raízes da banda, da época que nosso estilo musical ainda não era tão definido quanto hoje. Com as músicas já engatilhadas, decidimos gravar um disco compacto. Parte por conta do orçamento curto, parte por falta de tempo. Daí surgiu a ideia do EP. Fizemos um intensivo de ensaio e gravamos em dois ou três dias, já não me recordo bem. Foi simples e natural. Gravado no Estudio El Rocha, por Fernando Sanches, que foi super bacana e mixado por Artur Joly e Lu Carvalho, nossa guitarrista.

Lu Carvalho comenta: “Os amigos, namoradas e namorado foram muito importantes nesse processo. A arte foi feita por amigos, as fotos, tiradas por amigas… sem eles, o que seria de nós? Além disso, houve muita força de vontade de nós mesmas. Nossos horários não batem muito, estamos sempre ralando na vida, mas conseguimos realizar esse sonho.

-Vitroleiros: Vocês pretendem gravar um CD? De forma independente ou por gravadora?

Siete Armas (Dé): Pretendemos gravar um outro disco, com certeza. Se alguma gravadora se interessar pelo nosso som, respeitar nossa essência e arcar com os custos todos, por que não? (Será muita exigência?) Seria uma bela parceria. Somos musicalmente esforçadas, conciliamos nossas vidas pessoais, empregos e etc com a música. O que não é tarefa fácil.

-Vitroleiros: Como funciona o processo de criação das músicas? A letra e a melodia são compostas separadamente?

Siete Armas (Helena): Normalmente, a Lu chega com uma base nova, a gente se reúne na minha casa e fazemos todas juntas. Sempre uma acabada opinando no instrumento da outra, a música sempre acaba sendo feita por todas.

Nessa Salvado complementa: A Débora se senta numa posição “Chico Xavier”, se inspira e escreve na hora uma letra enquanto vamos criando, compondo e estruturando a música.

E Lu Carvalho finaliza: todas se envolvem e colocam a própria pegada na música, sejam escalas de baixo da Sarinhah, batidas e ritmos da Helena, riffs e acordes da Nessinha, mas, principalmente, todas nós montamos a estrutura. Cada uma se põe nas músicas.

-Vitroleiros: O que inspira vocês a comporem?

Siete Armas: A vida, o samba, o rock, a poesia, a cerveja, as cagadas, as conquistas, a rotina, a falta de dinheiro, o amor, o cinema, as eleições, o Brasil.

-Vitroleiros: Compor em inglês é mais fácil? Existe somente uma música de vocês em português, que é a “Mi casa, su casa”.

Siete Armas (Nessa Salvado): Apesar de “Mi casa, su casa” ser uma música bacana, divertida e que todos gostam, é uma piada interna que não representa o atual trabalho da banda.

(Dé): Não sei se é mais fácil. Escrevo em português também, minha língua nativa, mas não para o Siete Armas. No começo, escolhemos cantar em inglês sem motivo aparente. E levamos isso adiante. Tanto o inglês quanto o português são idiomas lindos. Mas para a sonoridade do Siete, que tem uma pegada setentista, crua, preferimos o inglês. Pode ser que um dia façamos algo em português. É um desejo meu não muito comentado. Quem sabe.

-Vitroleiros: Depois de quatro anos de estrada, vocês acham que a cena musical mudou muito?

Siete Armas (Helena): Cada vez as casas de shows apoiam menos as bandas independentes, e o público está cada vez menos afim de ir num show, de conhecer coisas novas. É muito mais fácil acessar o Youtube e ver um show completo de uma banda que a pessoa gosta, do que ir no show ao vivo. Pelo que vejo, a galera nova que quer tocar, começa a se inspirar nas bandas novas, coloridas e emotivas que aparecem na TV. O lado bom disso é que pelo menos a galera não é pagodeira. (risos)

Lu Carvalho, é mais romântica: Acho que a música não pode ter fronteiras e devemos sempre fazer o que gostamos. Acredito que sempre haverá alguém pra apoiar o que você faz.

Nessa diverge de Helena em alguns pontos dessa questão: Eu acredito que mudou sim! Hoje vemos demanda muito maior de shows, seja nas novas casas e baladas ou nas festas com bandas tocando. Além disso, acho que ficou mais fácil conseguir montar uma banda hoje em dia, mesmo que por hobby apenas. A cena vai se expadindo, há mais gente aceitando e se incorporando. Mas mesmo assim, em termos de colaboração e incentivo, ainda falta muito. As bandas ralam muito pra fazer o que mais gostam e na maioria das vezes têm pouco reconhecimento. Há muito mais vontade do que espaço.

Dé: O mundo muda sempre. Toda cena muda. Hoje em dia, não sabemos mais à qual cena pertencemos. Ficamos entre os amigos da cena punk e do rock alternativo. Não existe um cenário estabelecido pro Siete Armas, como o grunge ou a Tropicália. Tocamos rock em lugares nos quais pessoas que gostam de rock frequentam, basicamente.

-Vitroleiros: Qual a importância da cena independente para a música brasileira hoje?

Siete Armas: A cena independente pode ser uma forma de escape pra galera que não aguenta consumir o que tá passando por aí. É nela que você encontra a livre expressão e a criatividade pura. Porque não há uma gravadora ou um produtor manipulador querendo ganhar dinheiro em cima do artista/banda. Sem a tal cena independente, ou o “faça você mesmo” dos artistas, a música tende a ser mais comercializada do que ja é, vendida. A cena independente, na maioria das vezes, faz arte e não dinheiro.

-Vitroleiros: Que artistas da cena underground que vocês recomendam?

Siete Armas: The Dealers, Some Community, Comma, Letuce, Renato Godá, Casuarina, Otis Trio, Liquidus Ambiento, Lanny Gordin, Marcella Bellas, Renato Godá, Tulipa Ruiz, Cérebro Eletrônico, Tiê, Tiago Petit, Cumadre Fulozinha, OBMJ, Circo Motel, Tipo Uísque e por aí vai.

-Vitroleiros: Contem um pouquinho da história da banda.

Siete Armas (Lu): Tudo começou entre eu e Didi, a ex-guitarrista. Conhecemos Helena, nos juntamos, convidamos a Débora Lopes pra cantar e sabíamos que tinha uma puta voz. Primeiro ensaio, muita ansiedade, muita ceveja, e o resultado: “So Blues”. Nossa primeira linda música. Depois de alguns desentendimentos e saída da Didi convidamos a Nessa para completar com a segunda guitarra e eu havia acabado de conhecer a Sarinhah, que entrou tocando baixo. Daí pra frente, só alegria.

Vitroleiros: De onde surgiu a ideia do nome?

Siete Armas: O nome surgiu num boteco. Estávamos pensando em alguma coisa com “sete” e com “armas”. Pensamos em um nome em inglês, mas ficou muito grande e normal. A Didi falou ” E se for em espanhol? Siete Armas?” Sim! gostamos e somos até hoje o Siete Armas.

-Vitroleiros: Quais são as suas referências musicais?

Apesar de gostos em comum, cada integrante, é claro, tem um gosto pessoal. Misturamos tudo:

Siete Armas: começamos a tocar ouvindo Bikini Kill, Team Dresch, The Butchies, Sleater Kinney,  Breatmobile e Joan Jett. E mais: The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Stones, Beatles, Led Zeppelin,Johnny Cash, Elis, Bethânia, Adoniran Barbosa, Cartola, Demônios da Garoa, Caetano Veloso, Jorge Ben, Tom Jobim, João Gilberto, Astrud Gilberto, ex-mulher de João Gilberto. Jazz: Coltrane, Glenn Miller, Miles Davis.

-Vitroleiros: Qual o posicionamento de vocês em relação ao feminismo?

Siete Armas:

Helena foi breve no comentário: Todas da banda somos feministas desde os 13 anos. Não carregamos isso com a banda por não carregarmos nenhum rótulo com ela. Somos uma banda de rock.

Nessa Salvado: Todas nós somos feministíssimas assumidas (!). É por causa dessa luta que hoje temos uma banda de mulheres, conseguimos subir no palco e mostrar nosso som pra todos que quiserem apreciar. Essa é a nossa atuação como mulheres e como feministas. É sincero, cru, pacífico e convidativo.

Lu Carvalho: Acho que cada uma fala por si nessa questão, mas eu me considero feminista por conquistar a cada dia o meu espaço. Acho que as outras quatro também pensam assim. Tenho meu trampo, ganho minha grana, não dependo de ninguém. Além de tudo, ainda tenho uma banda de rock and roll só de mulheres e sou lésbica. Meio contraventora, né? Não é fácil, mas é aí que entra a questão: assumir as responsabilidades. Para mim isso é além do feminismo.

Débora Lopes: O movimento feminista mudou de forma. Acreditamos que o feminismo efetivo de hoje é o discernimento de que a mulher e o homem podem habitar os mesmos lugares e postos, com total respeito e paz. E a nossa versão de feminismo é essa, respeito e paz.

Capisco? ;)

Livraria da Esquina – Diário de Palco 3

Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Na quinta e última parte deste especial, confira a conversa com Nevilton.

Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant

09/04/2010 – Livraria da Esquina “A” – Show Circo Vivant e Nevilton

Do dia 6 a 11 de abril São Paulo sediou o festival Fora do Eixo, que trouxe um panorama do cenário cultural independente brasileiro. O Circuito chegou a São Paulo também com a agência de mesmo nome para cuidar das carreiras de 15 bandas. Grupos já conhecidos, como Macaco Bong e Porcas Borboletas, se apresentaram no mesmo cenário que outros ainda novos para os paulistanos, como Mini Box Lunar e Calistoga. O melhor do festival foi abrir os olhos de São Paulo para a música que vem sendo feita no resto do Brasil. No dia 9 de abril foi a vez da Livraria da Esquina dar espaço para o festival com Circo Vivant e Nevilton. A resenha do show, você confere aqui, publicada na época.

Mesa de Boteco: Bate-papo entre um acorde e outro

Nevilton de Alencar, vocalista e guitarrista da banda Nevilton

Vocês reconhecidos pelo show, mas ainda sem disco, só um EP, vocês acham que esse é o caminho da música atual? As apresentações?
Acho que pra gente dá certo porque mesmo quando não tínhamos disco, só um demo, a gente distribuía pra muitas pessoas, então mesmo quem não ia no show acabava conhecendo pelas gravações. O segredo na verdade é sempre ter material pra apresentar pra turma e fazer de tudo que pode pra divulgar, internet, muitas apresentações, passar pra pessoas que podem falar pra outras, no boca a boca mesmo. A gente nem imaginava chegar na imprensa [Rolling Stone de fevereiro, matéria “Iê-iê-iê moderno”, por Fernanda Catania].

Vocês trazem algo do Paraná (Umuarama) em si, regional, na música de vocês?
Com certeza, né? Acho que São Paulo é um negócio muito maluco, não sei como consegue pensar direito, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Viver no interior nos deu um contato diferente do que as pessoas por São Paulo, isso reflete na arte. O grande estalo foi isso de viver a vida inteira no interior e ter o choque de, do nada, ir para Los Angeles, onde a cidade serve arte e entretenimento. Lá minha cabeça virou algo assim, começou a pensar em arte.

O que vocês fizeram em Los Angeles?
A gente foi lá para viver mesmo e tentar tocar lá. Tocamos bastante, trabalhamos em eventos, nos envolvemos com tudo. O pessoal de lá é muito receptivo, muito legal. A questão é que do entretenimento lá é mais organizado, pode ser uma grande escola.

Como é participar do Festival Fora do Eixo? Como entraram para o Circuito?
A gente entrou no circuito porque ficamos indo atrás para estar nos festivais, a gente sempre mandava as primeiras gravações pra tocar em algum festival. Quando começaram a chamar, a gente foi de cabeça. Gostamos de participar [de festivais], conhecer outras bandas. sempre que é possível a gente participa.

Já conhecia a Livraria da Esquina?
A gente já tocou lá no início de dezembro do ano passado, foi bem bacana. Achei bem bonito e a história de juntar livraria com ambiente da música me lembrou alguns bares que vi em Los Angeles, achei um charme.

Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina

Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco

Livraria da Esquina – Diário de Palco 2

Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Veja, na quarta parte deste especial, o que um músico de fora espera de seu show no local.

Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant

14/05/2010* – Livraria da Esquina Lado A – Show Spooler (Belo Horizonte, MG)

Mesa de Boteco: Conversa com David Dines, vocalista, guitarrista e tecladista da banda Spooler, antes de seu show.

Sendo de outro estado, como vocês chegaram a conhecer a Livraria da Esquina e ter a oportunidade de tocar lá? Conte um pouco sobre a história de como conseguiram este show!
A fama da Livraria da Esquina como destaque da cena independente ultrapassa a barreira do estado. Sempre ficamos sabendo de bandas bacanas tocando nos dois ambientes da casa e resolvemos tentar a sorte de tocar nesse espaço.

De onde conhecem a banda com quem vocês vão tocar? Já tocaram juntos antes?
Vamos tocar com o Lautmusik, de Porto Alegre. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, só via Internet. Espero que role uma química bacana.

Já viram o local pessoalmente ou virão sem conhecê-lo?
Apesar de o Gustavo ter morado em São Paulo por três anos e ter sido DJ do Bunker Lounge, vamos sem ainda conhecer a Livraria. Mas, no mês passado, nossos amigos do Valsa Binária, também de BH, tocaram no Livraria A com a banda Flavião e o Retrofuturismo e nos contaram um pouco sobre o local, então já há um pouco de familiaridade.

Quais são suas expectativas pro show?
Tentar estabelecer um primeiro contato com o público de São Paulo, que já nos deu um feedback bacana pela Internet desde o lançamento do nosso EP.

Qual o público que vocês esperam aqui em São Paulo?
Gente interessante, divertida, aberta a novas propostas musicais.

É o primeiro show de vocês na terra da garoa, esperam que algo vá ser diferente do que já fizeram até agora?
Já tocamos em espaços bem diferentes, para público em pé e dançando, e também para público sentado. Vamos com gás, inclusive com algumas músicas inéditas na bagagem. Se for diferente, espero que seja melhor!

*A dupla avisou que o show de maio foi cancelado, mas já programam outro para julho.

Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina

Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco

Livraria da Esquina – Diário de Palco 1

Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Na terceira parte deste especial, confira um show no espaço e um bate papo com a banda.

Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant

14/01/2010 – Livraria da Esquina Lado B – Show Fabulosa Banda do Curinga (Cotia – SP)

O espaço estava lotado, cheio de gente que queria conferir o som. Nas mesas, amigos e parentes dos músicos também acompanhavam. Em pé, os fãs e interessados na música que aqueles sete garotos se propunham a apresentar.

O palco do espaço B é bem baixinho, próximo ao público. A sensação é que a banda está tocando para alguns amigos íntimos. Guitarras e outros instrumentos se espremem em um retângulo pequeno. De tão perto, a sensação é de estar dançando junto com cada ritmo ditado pelo surdo da bateria.

A banda tocou as músicas de seu primeiro CD e alguns covers de bandas das quais admiram o trabalho. Durante uma das canções, o vocalista André Di Bona e o pianista Paulo Giannini distribuem cartões com as informações da banda para todos – assim, mão a mão, olho no olho entre um acorde e outro.

Estavam todos alegres com a presença de tanta gente – o espaço era pequeno e aproximadamente 100 pessoas pulavam juntinhas para não ocupar tanto espaço.

Assim que o show terminou e começou a discotecagem típica da Esquina. Para quem gosta de música eletrônica, o rock melódico e alternativo dos rapazes deu espaço para o ritmo bem marcado do dub, estilo jamaicano de música eletrônica no qual o baixo e a bateriam são valorizados ao extremo, enquanto os vocais simplesmente desaparecem.

Os sete descem do palco entusiasmados. Alguns pegam água, outros cerveja. Contentes, abraçam os amigos como se aquele fosse o melhor show da vida deles, sorrisos enormes e abraços apertados – sobraram alguns para uma dezena de desconhecidos que ainda pulavam com o pouco de música que pairava no ar.

Dançaram um pouco, conversaram um pouco, beberam um pouco. São jovens normais, de assuntos normais. Futebol, namoradas, eles esquecem os acordes entre um papo e outro. Mas é inevitável, alguém sempre aborda um integrante ou outro para elogiar e discutir as músicas da noite.

Não demora muito e alguns deles, incluindo o vocalista, sobem para o espaço “A”, onde a banda Jardim das Horas estava tocando. O show teve um clima tão positivo que agendaram outra data, naquela mesma noite, e voltaram a tocar na Livraria no dia 22 de abril.

Mesa de Boteco: bate-papo entre um acorde e outro

Igor Fediczko, guitarrista da Fabulosa Banda do Curinga

De onde você conhece a Livraria da Esquina?
Na verdade a livraria hoje é na Barra Funda, numa rua qualquer, e tem esse nome porque era uma livraria em perdizes na Caeté com a Caiuby, se bem me lembro. Quando era em Perdizes, era uma livraria mesmo, tinha alguns livros espalhados por umas estantes, mas era menor, tinha público menor e não tinha tanta visibilidade.

Como vocês foram tocar lá?
A gente um dia viu a entrada do lugar e nos interessamos. Entramos e nos oferecemos pra tocar. Como era menor o Heitor topou na hora, ainda não tinha muita banda querendo subir nos palcos da Livraria, não era um espaço muito bom para um show – não podiamos fazer muito barulho… E então, acho que o cara se mudou pra Barra Funda. Saiu no Guia da Folha como um dos melhores lugares pra ouvir música em São Paulo e ficou conhecido, mas a gente já conhecia muito antes. Tem um clima diferente para nós.

E o que é bom e ruim pra você no novo espaço?
O bom é que podemos tocar mais alto, mais tarde, pra mais gente, mas eu preferia a localização em Perdizes. Em relação a parte técnica é tudo muito melhor, tem palco, aparelhagem, estrutura. Mas o lugar é complicado, todo mundo se perde pra chegar. A Barra-Funda não é um bairro tão tranquilo assim.

E quem vai à livraria? Quem foi no teu show?
O público é de São Paulo, a gente é de Cotia. É diferente, é muito mais presente, mais perto do palco. O principal é isso, tava cheio, não tinha como ficarem longe, mas com certeza o melhor é a recepção do público.

Qual tua relação com os donos do local?
É meio complicado falar com os donos porque estão com muita banda e muita gente, mas são muito gente boa. São pessoas que estão ali porque querem música. Pelo fato de quererem música estão ajudando a gente que quer fazer uma música própria. O que a gente pede, dão um jeito de fazer, ajudam em tudo que a gente precisa. É bem confortável tocar aqui.

André Di Bona, vocalista da Fabulosa Banda do Curinga

Qual é a tua relação enquanto músico com a Livraria da Esquina?
A Esquina é um espaço bom porque é aberto pra todo mundo, a gente tocou a primeira vez na esquina mesmo, lá em Perdizes.

E como foi, pra você, o show no novo espaço?
O show foi bom porque tava cheio. Quando a gente toca na Granja [casa Canto Granja Viana, onde uma vez por mês fazem o projeto Fabulosa Convida com outra banda ou músico], o público é diferente, são os amigos nossos. Na Esquina é uma galera que a gente não conhece. O lugar é meio fora de mão, mas pra quem está aí é bem no centro, é uma puta opção. Foi um bom show porque estava cheio.

E o que você acha do espaço como um todo?
Legal, tem acesso interessante a bandas legais. Lá toca gente como o Volver. O mais legal daqui é a Livraria estar aberta para bandas independentes. A região eu não curto muito, mas é legal pelas bandas que tocam. Se investissem mais com iluminação, som, o retorno seria maior.

Lá tem uma pegada de independente, né? Pode influenciar na estrutura, talvez.
Muita gente confunde com essa coisa de tosco e roots [de origem própria e simples]. A galera confunde o ruim com alternativo, se investisse um pouco mais ia dar um pouco mais certo e não deixaria de ser alternativo.

E vocês estão fazendo seu próximo álbum, não é mesmo?
Estamos na pré-produção, fazendo algo mais orgânico. O primeiro, como éramos muito novos, colocamos um monte de coisa. Na hora de reproduzir no show fica complicado. Agora é mais parecido com que a gente faz no palco.

Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina

Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco

Esquina Sinestésica

Em um aglomerado de livros, guitarras, bebidas e gente, a Livraria da Esquina abre espaço para o som alternativo e sobe aos palcos da noite paulistana trazendo o que dificilmente outro lugar traz – agitação cultural próxima ao centro da cidade. Na segunda parte deste especial, confira as impressões de uma noite no espaço.

Por Bruno Guerrero, Guilherme Assen e Jessica Grant

Na entrada da Livraria da Esquina “A”, depois de subir uma escada estreita, há um cubo mágico iluminado por dentro e fotos, textos e recados escritos a giz por todas as paredes. Além de alguns poucos ao lado da escada, só há livros nas estantes mais para frente, na parede da esquerda. Mesmo assim, alguns livros são mais antigos e estão dispostos como se fosse um sebo – desorganizados, meio que deitados, esperando uma boa música. Os livros empoeirados se equilibram sem querer nas estantes mais vazias.

Antes, a parede do lado esquerdo também possui seis retratos de homens e mulheres nus. Os retratos são gravados em vidro e com a luz baixa do local formam silhuetas escuras atrás na parede. Abaixo destes retratos, um balcão para apoio dos clientes com bancos altos. Neste balcão de madeira há flyers de shows antigos, como do Gritando HC, todos prensados abaixo de um vidro. Algumas garrafas de cerveja já vazias sempre estrelam o balcão. A livraria abre às 18h e, até os shows que, em média, começam às 22h, muita conversa já rolou nestes bancos.

No céu da livraria, zepelins de papel maché flutuam iluminando as mesas. São lustres, de cor roxa, verde, laranja e um todo misturado, com várias cores.

Do outro lado, no canto direito, um bar com dois homens fortes servindo. Não dão um sorriso, falam seriamente e baixo, mas pedem para repetir quase tudo que se pede. Quando é um lanche, ele pega uma espécie de interfone para avisar a cozinha do pedido. A dispensa e a cozinha ficam no lado “B” da Esquina. No lado “A”, apenas uma pia e um bar atendem ao show.

Quando conversam, entre si, entretanto, são brincalhões e dão risadas, correndo de um canto pro outro do balcão e recolhendo as garrafas vazias. Passam desapercebidos, mas estão lá. O lugar é limpo, organizado. Suporta horas de show alternativo sem perder a ordem.

Há sempre muitas pessoas no local, quase todas com o visual alternativo: chapéus, boinas, blusas e calças xadrez. Mesmo assim, dificilmente o lugar está lotado, há um amplo espaço entre os grupos que conversam em rodinha de cinco a oito. Alguns músicos falam sobre sobreviver da música, pagar as contas com seu trabalho, e poder ir uma vez ao mês na “balada” Love Story. “Aí sim, vou estar com a vida firmada”, diz um deles, com um imenso alargador na orelha.

Ao fundo, toca uma mescla de música eletrônica, psicodélica, e, às vezes, até um samba escapa entre um bit e outro. Naquela noite (9 de abril), O DJ Alexandre Marques, da cidade paulista de São Carlos, diz que são todas nacionais, mas muitas são entoadas em inglês.

Antes do palco, que fica ao fundo, mesas e cadeiras de madeira clara ficam nas laterais formando um corredor e um espaço entre elas e o palco onde as pessoas podem ficar em pé. Este espaço só é ocupado, com amplos buracos, durante as apresentações ao vivo. Ninguém parece dançar muito ao som da discotecagem.

No caixa, ao lado da escada e próximo à entrada, várias blusas e CDs de bandas independentes estão à venda em um estande montado pela organização do festival que ocorria naquela noite. Um casal recebe as comandas e os pagamentos dos clientes, enquanto um gato pula entre as estantes, caixas e mesas logo atrás deles.

A cena parece de filme: um gatinho passando por todos, como se não estivesse lá, em meio a uma casa em mudança, com caixas de papelão no chão, camisetas e discos espalhados. De pelos beges, o gato parece não incomodar ninguém; todos são alheios à sua existência. O nome do bichano é Paul Simonon – originalmente do co-fundador da banda britânica The Clash, uma das favoritas de Heitor. Na opinião do público, e até dos funcionários da casa, o gato é o mais chato dos frequentadores da Esquina. Ego compartilhado com seu ilustre homônimo.

Especial – Do outro lado da ponte – a Livraria da Esquina

Parte 1 – Do outro lado da ponte, uma esquina do outro lado da música
Parte 2 – Esquina Sinestésica
Parte 3 – Diário de Palco/Fabulosa Banda do Curinga/mesa de boteco
Parte 4 – Diário de Palco/Spooler
Parte 5 – Diário de Palco/Circo Vivant e Nevilton/mesa de boteco